Muitas vezes não basta escrever, é preciso gritar. Mais das vezes apenas SER é pouco e carece lutar. A história da poeta Sol Saldanha se coaduna com tudo isso. Nasceu pobre, mulher e negra. Mas a poesia estava sempre ali ao lado, seja nas trovas e repentes dos cantadores nas feiras ou na simplicidade da vida que também se faz poética.

Sol é mais uma do time do Festival Livro Vivo, Cultura Viva (Flivivo). Ela fará intervenções performáticas durante o evento, que começou ontem e segue diariamente até sábado, com transmissão ao vivo pelo youtube (link abaixo). Hoje a programação relembrará a participação histórica de autores potiguares no Festival de Havana. Começa às 14h.

Sol Saldanha é professora da rede pública estadual na disciplina de Projeto de Vida e funcionária pública como Auxiliar de biblioteca. Poeta. Feminista e ativista na Marcha Mundial de Mulheres e coletivo Enegrecer. Integra conselhos representativos em Currais Novos, cidade de nascença. É graduada em Letras pela UFRN.

Mas mais do que tudo isso, Sol é guerreira, é poesia seridoense e mãe de quatro filhas. Conversamos com ela:

Você é poetisa, seridoense. Seridó celeiro de tantas. Como seu deu seu caminho às Letras?

Tenho a sorte e privilégio de ter sido semeada em solo seridoense. Desde menina tive meu universo adornado pela poesia, cantiga de viola, repentes, e a literatura de cordel, através do meu saudoso e amado avô materno: Francisco Severo.

Na pré-adolescência já ensaiava alguns sonetos, até me distanciar completamente desse universo quando me casei e me perdi em meio a tantas obrigações e sobrecargas socialmente atribuídas ao macrocosmo feminino.

Aos 35 anos voltei aos bancos acadêmicos no curso de Letras e reacendi tudo que sempre fui e deixei adormecer. Fiz promessa de nunca mais largar a poesia por nada e ninguém, visto que ela é a minha própria vida e morri por todo o tempo que me separei dela.

A fala feminina nas letras é um fenômeno infelizmente recente. Durante séculos esteve apagada. De que forma você pensa que a mulher deve ocupar esse espaço para recuperar essa lacuna?

O “Direito” não existe de forma prática sem lutas. Não vejo outra forma de ocupar territórios sem fazer os enfrentamentos necessários na luta protagonizada pela classe, leia-se: mulheres.

Arte, cultura e educação gratuita e de caráter crítico-libertário são os trilhos a serem construídos para um mundo possível, íntegro, com equidade e inclusão.

A sala de aula e as ruas, sobretudo a minha casa, com as minhas filhas, são os meus campos de batalhas. Nesses espaços fomento reflexões sociológicas, levanto o debate da justiça e reparação social, garantindo aos discentes uma formação pautada nas leis de diretrizes e bases da educação-LDB.

Por falar em lacuna e dívida histórica, você ingressou na UFRN através de cotas. Qual sua opinião a respeito e qual mundo a Universidade lhe abriu?

A universidade se abriu para mim, esse é o ponto. Existo em um país que estrutura secularmente preconceitos diversos e de raízes escravocratas, cheio de desigualdades sociais que me alcançam em vários vieses, tanto de gênero, quanto de classe e etnia. Um país que se desenvolve de um modo que não permite, em massa, a ascensão de outras classes quando não faz da Educação algo fundamental, valorável e acessível para todes.

Venho de uma família de quatro irmãos e sou a única a ter ensino superior.

As cotas garantiram uma cara preta, feminina e pobre, nos murais de uma universidade pensada para homens, ricos, brancos e heteronormativos. Transformou a Auxiliar de Serviços Gerais da escola na profissional que passou a lecionar na mesma instituição. Esse foi o mundo que a Universidade, através das cotas, me possibilitou.

Você foi “escalada” para performances poéticas e narrativas durante o Flivivo. Pode adiantar alguma coisa sobre sua participação?

Tive a honra desse convite para contribuir com a grandeza do Flivivo dando voz à poesia de outras deusas potiguares como a Michelle Ferret, Maria Maria, e dei um jeitinho de colar meus poemas pertinho dessas mulheres inspiradoras.

A declamação dá à escrita poética a possibilidade de bailar, voar. Dizer isso, por si só, fala da minha intervenção nos intervalos entre outras falas extremamente pertinentes nesse festival.

Mulher, mãe, negra. Sua poesia é um pedaço dos gritos necessários dessa tríade?

Sim, totalmente.

Nenhum outro elemento desse mundo tem poder maior de transformação que a poesia. Realmente acredito nisso. Ela é um agente distintivo com poderes de amor, força e altivez espiritual, altamente eficazes na vida de todes que se aproximam dela.

Há muitos gritos, mortes intercaladas e dores na vida de qualquer mulher, se ela for preta e ousar ser mãe. Então a única forma possível de existir é bebendo poesia para dormir e acordando para beber poesia.

Escrevo para existir e resistir e re-existir.


ACOMPANHE AO VIVO O SEGUNDO DIA DO FLIVIVO!

One Reply to “5 perguntas para Sol Saldanha: poeta do grito incontido”

  • Vera Brito
    Vera Brito
    Reply

    Adoro a Sol, a quem conheço há pouco tempo mas cuja alma eu enalteço todinha como se nos conhecêssemos há gerações passadas, e sei da força e da potência maravilhosa que as suas palavras carregam. Sinto tanto orgulho, torço para que cada vez mais seja possível ouvir o eco de sua voz em outros corações além do meu 🙏🏻❤️

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