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Viva o livro

No meu discurso de posse na Academia Norte-rio-grandense de Letras, em novembro de 2017, escrevi: “Ao chegarmos a este recinto, a própria fachada do prédio, que simula lombadas de tomos gigantes, remete-nos à ideia de entrarmos no mundo fascinante dos livros. Com todo esse atual avanço tecnológico, estará o livro físico fadado a perder o primado? Poucos anos atrás, parecia que sim, mas a prática mostrou que o livro impresso continua sendo amado, e tudo leva a crer que por muito tempo”.

Faço esse preâmbulo para comentar matéria recente da Folha de S. Paulo, de página inteira, sobre a ação da pandemia no mercado editorial de livros. Sob o título “Atento e forte”, chamou-me a atenção uma frase -subtítulo - no seguinte teor:  “Pandemia ameaçou calamidade no mercado editorial, mas vendas se reergueram e os livros resistiram de pé”.

Assinada pelo repórter Walter Porto, a matéria diz que, em março de 2020, com o fechamento das lojas, as vendas de livros caíram pela metade, mas foram crescendo a cada mês, para terminar o ano com o mercado vendendo mais do que em 2019. A conclusão viável é de que o brasileiro leu mais, neste ano de pandemia. Pelo menos uma boa notícia decorrente da terrível virose que aflige o mundo.

No entanto, nem tudo são flores, pois as duas maiores redes do mercado, Saraiva e Cultura, que estavam em fase de recuperação, sofreram mais com o coronavírus, e tiveram várias filiais fechadas, agravando um quadro de finanças de difícil retorno, ficando mais próximas do pedido de falência.

O autor deste ótimo trabalho jornalístico afirma: “É verdade que boa parte da fibra que manteve o mercado editorial de pé foi virtual”. É por demais conhecida a pujança da Amazon na venda de livros e, no meio da pandemia, em especial, dos ebooks e dos audiolivros.

Eu mesmo penso que, em 2020, comprei mais livros - ebooks e impressos - na Amazon. Antes da virose, as vendas se davam, em maior parte, nas lojas físicas. As livrarias exercem seu fascínio sobre os leitores, o charme das estantes repletas de livros impressos, com seus cheiros e a textura do papel, a qualidade da impressão e a compra direta da obra.

Walter Porto ainda faz referências a vários outros assuntos correlatos com o mercado editorial, como a influência do movimento político e cultural Black Lives Matter, com reflexo no aumento de obras antirracistas de famosos autores, a exemplo de Jamaica Kincaid e Eliana Alves Cruz.

Para completar, a matéria da Folha fica entre duas lindas fotos, mesmo em preto e branco:   o interior do Real Gabinete de Leitura do Rio de Janeiro, e o saguão da Livraria Lello, na cidade do Porto, Portugal.

Sem subestimar os ebooks e a leitura digital, mas somente para reiterar minha crença no livro impresso, agrada-me citar o escritor Umberto Eco sobre essa preciosa invenção: “O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não podem ser aprimorados”.


FOTO: João Queirós

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