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Valdenides Cabral: retrato de uma poeta seridoense

O sociólogo, literato e professor Antonio Candido afirmou no seu livro “Literatura e Sociedade”: “Se não existe literatura paulista, gaúcha ou pernambucana, há sem dúvida uma literatura brasileira manifestando-se de modo distinto nos diferentes Estados”.

Ao mesmo tempo que nos alegramos, refletindo com a brilhante afirmação do mestre Candido, reconhecemos que, infelizmente, muitas vezes, essa constatação é ignorada, simplesmente pelo fato de estarmos distante dos grandes centros culturais do Brasil. Na maioria das vezes, nossos escritores são injustamente subestimados, sobretudo por residirem em um país com dimensões continentais, como o nosso.

Quando passamos um olhar pelas regiões periféricas do território nacional, vemos no Rio Grande do Norte, uma espécie de barreira intransponível, construída por um injusto pensamento provinciano, menosprezando o que é feito pelo seu povo, valorizando apenas o que vem de fora.

Enfim, refletimos sempre sobre essa questão, para tentar compreender porque determinados trabalhos literários, dos mais variados gêneros e autores, produzidos aqui no Estado, não conseguem ultrapassar a barreira cruel desse muro imaginário. Dentre inúmeros casos que já citamos, temos mais um: o livro de poemas “Pulsar” (Scortecci Editora, 2017) da escritora seridoense Valdenides Cabral.

Antes que o leitor faça qualquer julgamento precipitado, achando que o título pode parecer clichê, a palavra pulsar, empregada como denominação do livro, não significa apenas algo breve e repetido a intervalos regulares. Aqui o Pulsar está ligado às estrelas, as pequeninas estrelas, com seus pulsares excepcionalmente densos, resultados de explosões extraordinárias. E está provado em alguns dos versos do livro, que a real intenção da poeta é de expressar, simbolicamente, esse fenômeno.

GERAÇÃO LITERÁRIA SERIDOENSE

Natural de São José do Sabugi (PB), Valdenides Cabral de Araújo Dias, foi criada em Parelhas (RN), e atualmente divide-se entre as cidade de Recife e Natal, todavia sempre visitando seu Seridó de nascença e criação. Poeta, escritora e professora, Valdenides Cabral faz parte da geração que traz consigo uma tradição literária, que vem das bandas do Seridó, desde Zila Mamede e José Bezerra Gomes, passando por Luís Carlos Guimarães, Nei Leandro de Castro, Moacy Cirne, Nivaldete Ferreira, e mais recentemente Humberto Hermenegildo de Araújo, Iara Maria Carvalho, Ana de Santana, Maria Maria Gomes, Theo Alves, Jeanne Araújo, Muyrakitan Kennedy Macedo, Wescley J. Gama, Antonio Fabiano, Luma Carvalho e vários outros valores.

Graduada em Letras (UFRN), com mestrado e doutorado em Teoria da Literatura pela UFPE, a escritora foi durante anos professora do Curso de Letras, da UFRN, no Centro Regional de Ensino Superior do Seridó. Valdenides Cabral tem vários livros organizados e publicados, dentre eles, “Pulsações”, (1999); “Poesia Menor”, (2009); “Pontos de Passagem”, (2011), “O Retórico Silêncio”, (2013), todos de poesia, e mais recentemente lançou “Pulsar” (2017). Atualmente é professora adjunta da UFRN, lecionando no Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem.

Tendo lançado seu primeiro livro de poemas há exatos vinte anos, tornou-se uma autora bastante conhecida no nosso contexto literário. Suas obras já foram lidas por escritores e leitores das mais variadas formações, em diferentes situações de tempo e lugar. Arriscamos dizer algumas palavras, evidentemente sem o rigor analítico da crítica, mas apenas a opinião de um curioso leitor de poesia, tentando esclarecer a possíveis novos leitores sobre os bons versos que constituem “Pulsar”.

Vejamos o poema a seguir:

Eu
Uma náufraga,
salva
pela palavra

É lugar-comum dizer que a poeta diz muito com poucas palavras, sugerindo amplas possibilidades, numa poesia concisa, enxuta, como no referido poema. Diferente de uma possível vítima perdida no mar, o eu lírico talvez infeliz, decadente, foi salvo pela poesia, pela magia simbólica da escrita.

É de se ver que, cada poema do livro de Valdenides Cabral nos traz uma possibilidade de leitura, cabe ao leitor criar ou melhor recriar o sentido deles. Evidentemente, quanto maior for o seu universo de conhecimento literário, melhor e mais apurada será a sua leitura, e poderá notar várias alusões a poetas como Drummond, Fernando Pessoa, Manoel Bandeira etc., o que fica bem claro, em relação a este último no seguinte poema:

Uma outra estrela

Não quero ser a estrela da manhã.
Não. Não busco a estrela da manhã…
Busco uma estrela-bandeira
da vida inteira.
(…)

Se “Pulsar” está ligado de certa forma às estrelas, há em alguns dos seus poemas, evidentes alusões, não apenas à estrela de Bandeira, mas, também a Maiakovski, por exemplo, e seu famoso poema “Estrela”: “Escutai, pois! Se as estrelas se acendem é porque alguém precisa delas”, ou até mesmo a outra estrela de Bandeira: “Vi uma estrela tão alta/Vi uma estrela tão fria!

O lirismo expresso com clareza é uma grande marca da poesia de Valdenides, só alguns dos seus versos não são fáceis de decifrar, quase herméticos, logo da primeira vez, mas isto pode tornar a leitura ainda mais rica. Não há como negar que são poemas bem construídos e possuem certa musicalidade, que nos cativa. Encontramos também intenso lirismo em outros poemas de sua autoria como no “Acalanto ziliano”.

Passagens belíssimas, que enriquecem essa obra, resultam da vivência do eu lírico na cidade do Recife. Vários dos poemas são dedicados à capital pernambucana, demonstrando a interação da autora com a cidade: sentimentos, memória, amor, além de menção a lugares, rios, ruas, favelas, o mar. Destacamos abaixo o poema: Recife nº 6

Recife se decompondo
dentro de mim
com todo esse mar
por trás dos meus olhos.
(…)

Conseguindo chegar a um bom nível lírico, Valdenides nos transporta para a cidade mauricia através da sequência de poemas dedicados a Recife, nos faz viajar por Recife, como Alceu Valença em “Pelas Ruas que Andei” e, ao mesmo tempo, nos faz lembrar um escritor esquecido injustamente, na verdade ,cruelmente esquecido nesse pais de tempos tão estranhos, Gilberto Amado (1887-1969), memorialista dos mais eruditos da nossa literatura, um verdadeiro estilista da palavra, autor de “Minha Formação no Recife”, livro de memórias, engenhosa criação literária do autor sergipano, que estudou na tradicional Faculdade de Direito da capital pernambucana.

Além de poeta, Valdenides é grande leitora de poesia e dialoga muitas vezes com os poetas que leu, por exemplo, João Cabral de Melo Neto, que está lá, no “Pulsar” com seu “O Cão sem Plumas” ou “Poesia da Composição”, afora outros grandes nomes como Manuel de Barros e Zila Mamede, também presentes nas entrelinhas do texto para um leitor mais atento observar…

Evidentemente, se “Pulsar” não chega ao ápice da sofisticação linguística ou formal, atinge claramente o seu propósito, dentro do seu universo luminoso, pulsante, formado por símbolos, sons, ritmos e imagens.

Com este livro, Valdenides Cabral, afirma-se como poeta de valor, pelo zelo com a palavra, o cuidado com a temática e a busca pela universalização dos versos, e claro, merece destaque dentro da nossa tradição literária, que conta com poetas do porte de Anchella Monte, Rizolete Fernandes, Carmen Vasconcelos e Iracema Macedo.

Ainda vale exaltar a dedicação da professora Valdenides Cabral, para com a literatura produzida no Rio Grande do Norte. Sua luta, em prol das nossas letras, ajudou a formar toda uma geração, que, hoje, lê, divulga, produz e escreve sobre nossa produção literária.

No entanto, Valdenides ainda não recebeu o reconhecimento, que bem merece.

Em momentos tão sombrios, como os que vivemos atualmente, não custa nada perguntar, por que o menosprezo por tantos autores de valor? Infelizmente, isso acontece em países emergentes, como o Brasil, sobretudo na conjuntura atual, onde nós, alunos universitários teríamos que ir limpar o chão da universidade federal por sugestão do Ministro da Educação. Todos padecemos os males da incultura.

Sobre o autor

Thiago Gonzaga

Pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros.

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