“O ar dali era diferente, era denso, carregado de uma
maresia antiga, entrava pesado no pulmão e saía
deixando um gosto de ferro e sal.”*
Em tempos de pressa, A Sagração da Matéria nos força a resistir a toda urgência. O romance surrealista de Sihan Felix provoca a imaginação do leitor com acontecimentos crescentemente fantásticos, ofertando-nos, mesmo, uma ilha para a mente descansar da vida lá fora.
Sua linguagem pede que se pare e sinta: cada frase é um verso forte, e o leitor deve-se permitir ser atingido profundamente por uma proposta e uma história únicas e originais.
“A Ilha operava como um senhor implacável que extrai a vitalidade da carne para convertê-la em dureza geológica, transformando o cansaço acumulado no cimento que sela os próprios muros. O trabalho revelava sua face definitiva: a arquitetura exigia que o homem deixasse de ser dono de seus gestos para tornar-se o material de construção de uma morada onde ele já não encontrava abrigo, apenas serventia mineral.”*
Ler A Sagração da Matéria é uma experiência que vai muito além da curiosidade sobre “o que está acontecendo” nessa Ilha senciente, que repentinamente começa a transformar seus habitantes em rocha. Com economia de explicações, o autor nos apresenta um microcosmos social que discute a ternura e o trabalho, as diferenças de classe, as necessidades humanas; e tudo o mais que cada leitor pode encontrar, nesse romance que não exige uma interpretação única.
“[Manuel] estendeu as mãos e alcançou os pulsos de Rina. Seus dedos tatearam, mas foi o contato com a pele que o fez estacar. O toque produziu um som oco, seco, como o encontro de duas pedras de rio.”*
A obra é inteiramente permeada por uma poesia que brinca com as possibilidades do real, lançando mão de uma linguagem e um ritmo que inovam o formato da prosa-poética contemporânea. As metáforas de Felix são viscerais e duras. Ela ensina caminhos novos para a mente, empregando adjetivos inesperados que nos deslocam para além da racionalização. Sua narrativa é desenhada com febre, exaustão, buracos negros, ácaros, calor; o que combina perfeitamente com os elementos de terror que permeiam a história.
A sinestesia de Felix sacode o leitor por dentro. Todos os elementos no seu universo sentem e nos permitem sentir com eles — desde uma pessoa até um forno ou um grão de areia; é evidente que o ponto de vista é de uma pessoa que sente absolutamente, exageradamente, cada detalhe do dia.
“Manuel Antônio saiu do mato arrastando os pés. Sentia o peso de cada légua nas juntas. O barro nos tornozelos já tinha secado, formando uma crosta cinza que repuxava os pelos da perna a cada passo. A terra ali exigia o seu tributo de cansaço.
Manuel atravessava a densidade da Ilha, carregando no corpo o silêncio das pedras em que pisara.”*
O autor, pernambucano radicado em Natal, indica como referências principais da sua escrita Kafka, Gabriel García Márquez, Jorge Luís Borges, Rachel de Queiroz, Mia Couto, João Cabral de Melo Neto, Clarice Lispector, Valter Hugo Mãe; e eu fiquei muito satisfeita de não encontrar, no livro, algo que pareça apenas uma cópia dos estilos dos autores citados. Sua voz é original e singular.
Quem entende de música enxergará um significado a mais na divisão dos capítulos, que repetem as etapas de A Sagração da Primavera, de Stravinsky. E mesmo quem não entende de música, será atravessado pelos elementos sonoros que inundam toda a narração. Difícil é sair ileso.
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*Entre aspas: trechos de A Sagração da Matéria, de Sihan Felix, lançado na FLIP (Paraty, RJ) pela editora M.inimalismos, em 2026.
