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Um trio de jornalistas digno de seleção

Recentemente estreou nas ondas do rádio (97,9 FM) do Rio Grande do Norte, o programa “Sem Amarras”, jornalístico comandado por um verdadeiro trio do mais alto nível: Osair Vasconcelos, Sávio Hackradt e Antônio Melo. Todo final de tarde, das 18 às 19 horas, um bate-papo inteligente e descontraído, com muito conteúdo sobre os principais temas do nosso cotidiano. Enfocamos, a seguir, alguns dados acerca desses ases do nosso jornalismo:

Osair Vasconcelos

Macaibense, Osair Vasconcelos ainda estudante, começou sua carreira profissional, repórter de “A República”. Em seguida trabalhou em vários outros órgãos da imprensa natalense, e foi correspondente, em Natal, de “O Estado de São Paulo”, “Jornal da Tarde” e Rede Globo.

Considerado como uma das revelações da ficção do Estado, Osair publicou os livros: Encontros Passageiros com Pessoas Permanentes (2008), A Cidade que Ninguém Inventou (2010), As Pequenas Histórias, contos (2015) e, mais recentemente, Retratos Fora da Parede (2018). Todos esses livros alcançaram êxito de público e de crítica.

Osair Vasconcelos nos concedeu, em 2015, uma entrevista para o livro Impressões Digitais – Escritores Potiguares Contemporâneos, vol. 3, último trabalho de uma série de entrevistas que fizemos com mais de cem escritores potiguares. Abaixo, destacamos:

“Fui para ‘A República’ indicado por Remo de Macedo – colega de turma – já no primeiro ano de faculdade. Ele traduzia os telegramas da Associated Press. Chegamos no mesmo dia eu e Margareth Martins, também colega de faculdade, e que depois fez uma bela carreira no ‘Diário de Natal’. Como repórter de ‘A República’, fui me enturmando e conhecendo outros veteranos de primeira linha, como Antonio Melo, à época assessor de imprensa do governador Tarcísio Maia. Acrescente-se uma rápida passagem pela Rádio Rural, num programa que organizamos via a Cooperativa de Jornalistas de Natal – Coojornat.

No ‘Diário de Natal’ e na ‘Tribuna do Norte’, trabalhei em dois períodos distintos e de formas iguais: primeiro como repórter e, muitos anos depois, como diretor de redação. Fui para o ‘Diário de Natal’ na primeira vez indicado por Rogério Cadengue, repórter e depois professor na UFRN. Fui um dos formatadores do ‘Salário Mínimo’, com uma turma da Coojornat, e também do ‘Dois Pontos’, junto com Dodora Guedes e Ricardo Rosado, a convite de Marco Aurélio de Sá. O nome ‘Dois Pontos’ foi sugestão minha.

Antes disso, em 1979, quando era repórter na ‘Tribuna do Norte’, recebi convite para ser correspondente, em Natal, de ‘O Estado de São Paulo’ e do ‘Jornal da Tarde’, onde fiquei até 1988. E, em 1985, passei a ser, simultaneamente, correspondente da Rede Globo em Natal, de onde saí, em 1987, para ser chefe de redação da TV Cabugi, junto com Antonio Melo, ele como diretor de jornalismo – nós dois formatamos e botamos o jornalismo no ar.

Claro que tenho muitas lembranças das passagens por todos esses órgãos. Experiências variadas, talvez possíveis apenas aos repórteres, é o maior patrimônio que um jornalista constrói na carreira. Você se vê em situações ou diante de figuras às quais a maior parte nunca terá acesso. Teria muitas experiências a contar, mas fico com uma. Levado pelo seu redescobridor, Deífilo Gurgel, entrevistei para ‘O Estado de São Paulo’ e ‘Jornal da Tarde’, o mito Chico Antonio, louvado por Mário de Andrade como “um Caruso”. Só isso já preenche um enorme terreno no meu espaço de satisfação. Foi a primeira vez em que Chico voltou à cena nacional, depois de ser descoberto por Mário de Andrade, em 1927, e redescoberto por Deífilo Gurgel, em 1979.

Na Cabugi, vivi a possibilidade de criar programas como o RN Rural e o Meio Dia RN Especial. Lá, paralelamente à função de chefe de redação e depois diretor de jornalismo, fui apresentador do Bom Dia RN e repórter. Quero registrar a revista ‘Palumbo’, criada juntamente com Afonso Laurentino, Albimar Furtado, Tarcísio Gurgel e Dácio Galvão.

Finalizo voltando aos jornais por onde passei: trabalhei com jornalistas admiráveis, como Woden Madruga, João Neto, Afonso Laurentino, Ticiano Duarte, Nilo Santos, Vicente Serejo, Alexis Gurgel, Dermi Azevedo, Francisco Macedo, Dorian Jorge Freire, Aldemar de Almeida, Everaldo Lopes. Cito esses e poderia citar uma galeria ainda maior. Escolhi esses nomes como representantes de uma geração que muito contribuiu para o jornalismo natalense e com quem tive a graça de trabalhar e de me tornar amigo. Mas a minha geração foi, também, marcante. Foi a primeira a sair em massa da universidade e, dentro de alguns limites, revolucionou os nossos jornais”.

Sávio Hackradt

Jornalista e escritor, Sávio é uma daquelas figuras humanas que, de certo modo, colaboram, na maioria das vezes de forma anônima e solitária, com o nosso desenvolvimento cultural, mas que fazem toda a diferença. Estivemos juntos num evento da Caravana de Escritores Potiguares, em junho de 2019, ocasião em que Sávio palestrou, ao lado de Osair, para quase 300 professores da rede pública de São José de Mipibu, município da região metropolitana de Natal.

Nascido em Natal no dia 20 de outubro de 1956, Sávio viveu infância e adolescência na rua Trairi, em Petrópolis. Sua formação escolar teve início no colégio Sete de Setembro; em seguida, foi transferido para o Colégio Marista, onde concluiu o ensino médio. Graduou-se em Comunicação Social, pela UFRN, no início dos anos 80.

Depois de mais de vinte anos residindo e trabalhando nas cidades de Brasília e São Paulo, Sávio retornou a sua querida cidade de nascimento, em 2009, atendendo a um convite para ser candidato ao Senado, numa chapa apoiada pelo Prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves. Foi dessa forma que ele estreou, oficialmente, na política, embora já tivesse bastante experiência na área devido aos anos que trabalhou como consultor.

Sávio Hackradt sempre foi um ativista, desde a época da faculdade, onde inclusive presidiu diretório acadêmico e participou ativamente da luta contra a ditadura militar, além de ser um dos fundadores da Sociedade Civil de Defesa dos Direitos Humanos do RN e do movimento pela anistia. Em 1985, assumiu a assessoria de imprensa do Ministério da Administração, a convite do ex-ministro Aluízio Alves. Como repórter cobriu trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, quando conviveu com diversos líderes políticos do Brasil, como Ulisses Guimarães, por exemplo.

Jornalista conceituado, Sávio tem importante atuação na mídia norte-rio-grandense. Entre os veículos em que trabalhou estão: TV Universitária de Natal, Rede Globo Nordeste, Rádio Rural, revista RN Econômico e jornais A República e Diário de Natal; foi presidente do Sindicato dos Jornalistas do RN e da Cooperativa dos Jornalistas de Natal.

Profissionalmente especializou-se em marketing político-eleitoral e comunicação pública na Escola de Comunicação e Artes da USP, sendo, inclusive, professor convidado do curso. Desde início dos anos 80, exerce diversas atividades como profissional de marketing em campanhas eleitorais em vários estados do país. Tendo coordenado campanhas de vereador, deputado estadual e federal, governador, senador e até presidente da República, quando supervisionou a campanha de Mário Covas, candidato do PSDB na eleição de 1989, primeira campanha presidencial após a ditadura.

Ex-chefe do Gabinete Civil da PMN, ex-presidente da Urbana, Sávio se aventurou na área literária, na juventude, ao lado do poeta Carlos Gurgel; publicou O Arquétipo da Cloaca – 3×4, espécie de portfólio, em parceria com Carlos Gurgel, Carlos Paz e Flávio Américo. Recentemente Sávio recebeu a “Medalha Agnelo Alves”, da Academia Norte-rio-grandense de Letras, pela sua contribuição ao jornalismo do Estado.

Em 2016, o entrevistamos para o site de outro competente jornalista, Tácito Costa, e dentre várias passagens interessantes destacamos a seguinte:

Sávio Hackradt, o que você considera mais difícil na carreira de jornalista? Qual a característica fundamental de um bom jornalista?

Sávio Hackradt – O equilíbrio. O homem não tem equilíbrio. O homem só vê um lado. Aquele que mais lhe agrada. O bom jornalista luta pelo equilíbrio, mesmo sabendo que não vai alcançá-lo.

Antônio Melo

Jornalista potiguar com cinquenta anos de profissão, e uma carreira das mais consagradas, Antônio Melo trabalhou na Tribuna do Norte, Diário de Natal e muitos anos na imprensa fora do Rio Grande do Norte, como, por exemplo, em Veja, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, O Globo e Estado de S. Paulo, entre outros.

Testemunhou, como repórter, as torturas da ditadura militar, dentre outros fatos marcantes da nossa história recente, ao longo de suas várias décadas como jornalista, além de ter se destacado, também, na seara do marketing político, comandando várias campanhas políticas pelo Brasil, inclusive algumas fora do país, e assessoria dos governos dos ex-presidentes José Sarney e Fernando Henrique Cardoso.

Antônio Melo lançou, em 2018, o seu primeiro romance, A Vingança (Natal, Z Editora). Concebido, inicialmente, como uma coletânea de contos, o livro terminou sendo um romance, no decorrer da narrativa, dada a força expressiva da personagem central – Dinha – “uma garota que nunca existiu, mas que vive de verdade em todos os sertões do Nordeste brasileiro”. Dinha conduz a trama romanesca, constituindo-se em notável perfil de mulher, com destaque, de modo especial, na ficção potiguar. Segundo o prefaciador, jornalista Chico Mendonça: “A Vingança não é apenas uma história de política, paixão e pistolagem no sertão nordestino – e se somente fosse, já teria cumprido o seu papel com louvor –, mas uma instigante fonte de informação sobre a cultura, as ligações e convivência de políticos e pistoleiros no Nordeste”.

Sobre o autor

Thiago Gonzaga

Pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros.

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