Tudo é construído! Tudo é revogável!

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Tomo a frase do título da obra de Alipio DeSouza Filho (cientista social, professor da UFRN, diretor do Instituto Humanitas) que fez dela mais do que um enunciado provocativo, mas uma chave de leitura do humano. Em seu Construcionismo Crítico, DeSouza Filho insiste que a realidade social, afetiva, moral e política não é natural, nem eterna: ela é produzida historicamente, sustentada por discursos, hábitos, instituições e relações de poder. E é justamente aí que a palavra ideologia ganha peso: ideologia é aquilo que trabalha para fazer o construído parecer natural, inevitável, intocável. Ela reveste de evidência o que é fabricação histórica. Dizer, então, que “Tudo é construído! Tudo é revogável!” não é brincar com o relativismo, mas é lembrar que também podem ser desfeitas as formas que nos domesticam, os sentidos que nos oprimem e as crenças que nos aprisionam.

Ignacio Martín-Baró (padre jesuíta, psisicólogo social espanhol, criador da Teoria da Libertação) chamaria isso, em outra chave, de uma tarefa urgente: a desideologização, isto é, o gesto de arrancar das coisas a máscara da falsa naturalidade para devolver ao oprimido a lucidez sobre sua própria condição. Demorei muito para desconfiar do que me parecia natural.

Durante anos, aceitei certas ideias como quem aceita a posição dos móveis numa casa antiga: sem perguntar quem os colocou ali, quando, e o porquê continuavam ocupando o centro da sala. Chamei de verdade aquilo que talvez fosse costume, de vocação aquilo que talvez fosse obediência. Chamei de personalidade aquilo que talvez tivesse sido apenas uma lenta adaptação ao medo, ao desejo de pertencimento, à expectativa dos outros. Acho que amadurecer é, em parte, isso: começar a estranhar as evidências.

Talvez por isso, eu volte sempre aos antigos. Em Anaximandro, grego do século VI antes da era comum, há uma imagem que nunca me abandona: a do Ápeiron, o ilimitado, o indeterminado, aquilo que ainda não foi recortado em forma. Gosto de pensar que, para ele, a origem do mundo não era uma peça pronta, mas uma abertura. Antes do nome, havia um campo de possibilidades. Antes da ordem, uma espécie de respiração sem bordas. Essa visão me inquieta. Inquieta porque me deixa sem o abrigo das essências.

Então, vem Aristóteles (filósofo grego do século IV antes da era comum) com sua paixão pela forma, pela definição, pelo contorno. E eu o compreendo também. Há dias em que tudo o que a gente quer é isso: que as coisas caibam em seus nomes, que os afetos se deixem explicar, que a vida tenha estrutura. Aristóteles tenta salvar o mundo da vertigem, dizendo que a realidade se faz no encontro entre potência e ato, entre o que pode ser e o que toma figura. Mas a experiência ensina que nenhuma forma fecha completamente o vivo. Sempre sobra alguma coisa: um resto de sombra, um excesso de desejo, uma tristeza que não aceita diagnóstico.

No fundo, talvez a nossa existência oscile entre esses dois movimentos: o desejo de forma e a insistência do indeterminado. Queremos ser alguém, mas nunca terminamos de caber naquilo que nos tornamos.

Platão (filósofo grego do século V antes da era comum)  também havia percebido este drama. Sua caverna continua viva porque nunca deixou de ser verdadeira. Ainda olhamos sombras e as chamamos de realidade. Mudaram os suportes, não o mecanismo. Antes eram projeções na pedra, hoje podem ser discursos repetidos, imagens de sucesso, versões domesticadas da felicidade, narrativas políticas prontas para consumo. O que mais me impressiona na caverna não é o escuro: É o costume. O fato de que os prisioneiros já se habituaram às sombras. Talvez o maior poder da ideologia seja exatamente esse: não mentir de modo escandaloso, mas instalar hábitos de percepção. Fazer com que a prisão pareça paisagem.

Séculos depois, o filósofo alemão Kant diria que era preciso ousar pensar. Sempre achei essa coragem mais íntima do que heroica. Pensar por si mesmo não é subir num palanque: é suportar o desconforto de perder certezas. É descobrir que boa parte do que chamávamos de convicção talvez fosse apenas dependência refinada. Há algo de solitário nisso. Porque o pensamento, quando realmente acontece, rompe pequenas fidelidades. Ele nos afasta de algumas vozes, de algumas verdades, de alguns consolos.

Foi Freud (neurologista austríaco, percursor da psiquiatria e psicanálise) quem me ensinou que a captura também mora dentro. O “eu” não é tão soberano quanto gosta de acreditar. Há lembranças que governam em silêncio, culpas que mudam de roupa, desejos que se escondem atrás de princípios nobres. A intimidade também é construída: Família, interdição, vergonha, afeto, falta. Tudo isso participa do desenho provisório que chamamos personalidade. E essa talvez seja uma das notícias mais duras que a modernidade nos deu: não somos transparentes para nós mesmos. Mas, se não somos transparentes, tampouco somos imutáveis.

É aqui que volto ao filósofo AlIpio DeSouza Filho: O que sempre me atraiu em sua reflexão é justamente a recusa de tomar o mundo social como natureza. Para ele, a ideologia trabalha o tempo inteiro para essencializar o que é histórico, para naturalizar o que é construção, para fazer parecer inevitável o que só se mantém porque é repetido e defendido. Quantas vezes a desigualdade é apresentada como consequência normal da vida? Quantas vezes preconceitos são embalados como tradição? Quantas vezes uma identidade socialmente produzida é tratada como destino biológico? A ideologia é hábil: ela não grita, ela sedimenta. Ela faz parecer óbvio aquilo que precisaria ser perguntado.

Martín-Baró, com a urgência de quem sabe que pensar nunca é apenas um luxo abstrato, vem com sua palavra decisiva: desideologizar. Isto é, romper o encanto, desmontar o discurso que ensina o oprimido a interpretar sua dor como falha pessoal e não como resultado de estruturas violentas. Sempre me comoveu isso nele: a recusa de reduzir o sofrimento a um drama íntimo quando o mundo está socialmente adoecido. Desideologizar, nesse sentido, é devolver contexto à ferida. É mostrar que muita culpa foi politicamente fabricada.

Foucault (filósofo, historiador, teórico social francês) aprofundou essa suspeita ao mostrar que o sujeito não apenas vive sob o poder: ele é produzido por ele. Escolas, diagnósticos, normas, classificações, disciplinas: tudo isso vai fabricando maneiras de falar, desejar, obedecer, confessar. O poder mais eficaz não é o que se impõe pela força visível, mas o que organiza nossos gestos até que passem a parecer espontâneos. Por isso o presente me inquieta tanto. Nunca foi tão fácil achar que estamos sendo livres enquanto apenas seguimos trilhas previamente desenhadas.

E, no entanto, ainda há frestas. Talvez seja essa a parte mais humana de tudo: o fato de que nenhuma construção é perfeita, nenhum dispositivo é absoluto, nenhuma ideologia consegue apagar por completo a experiência viva. Sempre há um resto. Um mal-estar que insiste. Uma pergunta que retorna. Um corpo que não se adapta. Um pensamento que desobedece.

Hoje, eu desconfio menos da mudança do que daquilo que se apresenta como eterno. Quando alguém diz “sempre foi assim”, meus ouvidos acendem. Quando me dizem “isso é natural”, sinto vontade de olhar mais de perto. Aprendi, ainda que tarde, que quase toda opressão sonha ser confundida com ordem natural. E que quase toda libertação começa quando alguém, em voz baixa, ousa responder: não, isso foi feito.

Talvez seja isso que eu queira guardar, no fim desta crônica, como quem guarda uma brasa pequena para o inverno: fomos feitos, sim, por muita coisa que não escolhemos: Pela época, pela família, pela língua, pelo medo, pela ideologia, pelo amor recebido ou negado. Mas não estamos condenados a permanecer inteiros dentro disso. Há trabalho, há dor, há lucidez, há coragem e há também a possibilidade de refazer.

Precisamos de um movimento de reflexão e ele não virá dos parlamentos, nem das telas brilhantes de um celular. Virá das universidades que resistem, das periferias que pensam, dos corpos que recusam ser apenas o que o mercado precisa que sejam, das salas de aula onde um professor ainda tem a coragem de dizer: o que você acredita ser sua natureza é, na verdade, sua história, e sua história pode ser reescrita.

Porque aquilo que a história construiu, a consciência pode começar a revogar.

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Tatyanny Nascimento

Tatyanny Nascimento tem dupla licenciatura em Letras: português e espanhol. Mestrado em Literatura pela UFRN, também possui especialização em Psicanálise, e algumas tantas pós-graduações: como MBA em Neurociência e Desenvolvimento humano, Neuroeducação e Neurociência do Comportamento.

Analista, professora, empresária, palestrante e escritora há 20 anos: contos, crônicas e poesias, atualmente, com seu primeiro romance em construção. Escreve, além de gêneros literários, ensaios filosóficos.

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