TERRA ESTRANGEIRA: Um rio para o esquecimento

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Ponte de Lima – Portugal, 28 de Janeiro de 2018.

Descobri que o prédio vizinho a onde fica nosso apartamento alugado aqui em Santiago de Compostela é um bar.

Ontem à noite, logo após voltarmos de La Corunha, teve até uma banda de rock tocando música ao vivo, o que me fez pensar que o espaço talvez seja frequentado por um público de mais de 30 anos, no mínimo. Da janela da cozinha pude ver o que parecia ser o quintal da edificação, no qual uma galera, com casacos e capuzes, bebia cerveja em pé, fumavam uma erva e batiam papo perto do que parecia ser o banheiro do lugar. Se esse agito estivesse acontecendo uns quinze anos atrás certamente teria ficado desolado por ter de me recolher tão cedo e colocar as crianças para dormir. Hoje, no entanto, me parece até um alívio não ter mais que correr urgentemente em busca da vida, sendo que a vida sempre se encontra e se impõe, mesmo quando parece tão distante.

Mesmo assim, a festa da galegada roqueira do noroeste da península deve ter sido boa, porque, pela madrugada, cheguei a ouvir gritos de algum borracho que berrava aos quatro cantos da rua que era “espanhol”. A despeito da bagunça e dos gritos e cantos (que pareciam de torcida organizada), que seguiram madrugada adentro, acordamos hoje cedo para tomar a estrada de volta para o Porto. Optamos novamente por percorrer as estradas regionais e evitarmos as avenidas mais largas. Isso serviria não apenas para driblar os pedágios extorsivos, mas também, de quebra, como não tínhamos nenhuma pressa em chegar, dar uma parada em alguma das pequenas cidades da região, que se espalhavam aqui e acolá entre Santiago, Pontevedra e Vigo até o norte de Portugal.

A opção pelas estradas regionais aumentou o tempo do nosso retorno em mais de uma hora, mas as vistas deslumbrantes da Baía de Vigo e das casas de pedra, sempre com seus chamativos alpendres, espalhadas aqui e acolá pelas colinas verdes, fez valer o percurso. Como nem Ana, nem Helena (nossa amiga alemã) queriam parar para comer na Espanha, inicialmente por causa do trauma da tal “siesta” e depois porque ambas concordaram que os garçons e os vendedores das lojas de Santiago e de La Corunha, eram excessivamente “rudes”, tanto para os padrões brasileiros quanto para os alemães, decidimos só comer quando atravessássemos a fronteira, e encontrássemos algum estabelecimento “minhoto” que, com seus atendentes usando diminutivos no trato interpessoal, pareciam mais próximos do afetivo padrão nordestino de qualidade no quesito “atendimento em bares e restaurantes”.

Como a tarde já despontava e as crianças perturbavam no carro pra comer, paramos logo em Ponte de Lima, para aproveitar o sol e conhecer uma tal “Festa do Sarrabulho e do Porco” que aparecia anunciada em outdoors pela estrada.

O rio que leva o nome de Lima (e que também foi, de algum modo, parar no sobrenome de família de minha sogra, lá por Catolé do Rocha, na Paraíba), teria sido confundido, nos tempos em que os legionários romanos chegaram por essas bandas,  com o mitológico Lethe, o rio do esquecimento, que separava o mundo dos vivos do submundo dos mortos.

Reza a lenda que em função dessa confusão geográfico-toponímica, as tropas de legionários romanos se recusavam atravessar aquele fluxo corrente que encontra as águas frias do Atlântico norte em Viana do Castelo. Durante a campanha de invasão e conquista da terra celta, as legiões imperiais, estacionadas na margem sul, teriam sido obrigadas por seus centuriões, a atravessar, em pânico, aquele curso d’água que me pareceu demasiado lento e amarronzado, sob pena de sentirem os rigores do chicote de seus comandantes.

Hoje, a cidade minhota mantém ainda uma bela ponte medieval e um casario antigo, que também apontava para alguma conexão íntima, mesmo que ainda um pouco difícil de descrever, ao menos para mim, com a arquitetura colonial brasileira.

Tivemos sorte de pegar uma tarde muito ensolarada para os padrões daquele inverno e chegar no auge da festa, com uma feira de produtos típicos da região cercada por barraquinhas vendendo desde queijos variados e sacas de morangos (os maiores morangos que eu já havia visto na vida) a partir de um euro. Também tinha muita antiguidade e artesanato local. Estacionamentos perto do espaço onde ficava a tal feira, nas margens do rio. O local parecia ser um estacionamento público, circundado por um bosque que se espalhava até um pouco distante do que parecia ser a praça central da cidade.  

Achei curioso encontrar naquela feira, bonecos de papier machê que lembraram muito nossos mamulengos ou mesmo, em uma versão miniaturizada, os famosos “bonecos de Olinda”.

Conversando com os vendedores descobri que eles têm também uma versão aumentada desses bonecos, chamados de “cabeçudos” que seguem pelas ruas atrás das troças de foliões e músicos populares durante as festas de São João, no mês de Junho, de longe a festa mais importante na Galiza celta e no norte de Portugal.

Ao chegarmos na praça central da cidade, havia uma roda com música, onde se tocava com sanfonas, tambores e pandeiros. Vi logo umas senhorinhas, bem pequenas, que se empolgavam com a música e dançavam pisando forte com os pés e girando para um lado e para o outro (o que me fez pensar que bem que poderiam, na juventude, ter participado de algum um vídeo clipe com Roberto Leal, cantando “arrebita” ou “bate o pé”).

A sonoridade das sanfonas me pareceu, a uma primeira audição, semelhante a das gaitas celtas que ouvi em Santiago, mas também me lembraram muito as sonoridades da música gaúcha que às vezes se ouvia lá pelo CTG de Ponta Negra nos anos 90.

Por sua vez, o timbre da voz daquelas senhorinhas, cantando em um português que pra mim, por vezes, soava completamente incompreensível, me transportava de imediato para paisagens acústicas sertanejas, onde as velhas carpideiras entoavam suas “incelenças” para as almas dos mortos ou mesmo seus louvores nas procissões das padroeiras do pé das serras que se espalham pelo interior do território potiguar.

Não tem como esconder esse fato: aquele povo minhoto, baixinho e atarracado, lembrava muito o povo dos sertões do RN. Mas a semelhança não era apenas pelo porte físico. Havia alguma coisa nos trejeitos corporais, algum índice extraído da maneira de andar ou mesmo no traço do rosto que me fazia sentir em casa.

Já havia lido sobre isso e sabia que parte substancial dos ancestrais portugueses que chegaram aos sertões do nosso Rio Grande (o do norte), teria saído do porto de Viana do Castelo, cidade que fica há apenas alguns quilômetros a oeste, seguindo o curso daquele mesmo rio Lima.

Teria sido esse rio, confundido com o rio do esquecimento, que separa para sempre vivos e mortos e que cinde os mundos em esferas incomunicáveis, perdido nos limites do mundo conhecido daquela Europa medieval, que transmitiu a herança genética de parte das famílias do pé da Serra do Lima, lá no alto oeste potiguar?

Para mim soava sintomático essa sensação de afinidade, girando diante desse nome, que está também na grande massa de granitoides e ortognaisses migmatizados que sombreava a infância de minha mãe de um lado (o da cidade de Patu, no RN) e dava o sobrenome a minha sogra, do outro lado (o de Catolé do Rocha na Paraíba).

 Talvez aquele rio (mais um rio desses que conheci nessas minhas viagens) traga, junto com o esquecimento de nosso passado remoto, também os restos de nossas semelhanças e de nossas afinidades. Pelo menos aquelas que não se perderam na travessia desse imenso mar oceano de cinco séculos de mágoas recíprocas e esquecimento.

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Pablo Capistrano

Escritor, professor de Filosofia e Direito do IFRN. Dramaturgo do grupo Carmin de Teatro.

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