Londres – Inglaterra, 10 de Janeiro de 2018.
Chegamos em Londres um pouco depois do nascer do sol de inverno, ou seja, às 9:30 da manhã. Na verdade, o aeroporto em que o avião pousou foi o de Stansted, que não é lá bem em Londres e fica na zona rural, no meio do caminho para Cambridge. Na descida do avião, quem nos deu as boas vindas, foram os pingos gelados da famosa chuva londrina, que dizem cair por aqui cerca de trezentos dias por ano.
Mas, depois do tempo em que passamos no Porto, mesmo para um potiguar pouco afeito aos rigores da chuva gelada, aquilo não parecia assim tão ameaçador. Na verdade fazia mais de dez dias que eu mal via o sol, o que não pareceu ser nenhuma novidade, tendo em vista o clima do norte de Portugal nessa época do ano. Há rumores que esse é o inverno mais frio dos últimos cem anos e esta semana a neve cobriu boa parte da Espanha, chegando até o Marrocos e a Argélia. Segundo os moradores das montanhas do norte da África, não se via tanta neve assim no Saara há muito tempo.
Passei os últimos dias praticamente trancado em casa porque tinha de concluir o último dos quatro capítulos do livro que estou escrevendo como conclusão do meu projeto de pós-doutoramento e, pra completar, fui pego pelo surto de gripe que se espalha por Portugal.
Como sempre acontece com esse escritor de província quando viaja para lugares frios e úmidos, a tal gripe evoluiu para uma sinusite braba, que me obrigou a, na antevéspera da viagem pra terra da rainha, ir até um posto de saúde na Rua da Boa Vista, próximo da estação da escola Carolina Michaelis. Tive de assinar alguns protocolos para que o governo brasileiro pagasse os custos da consulta pelo SUS e, após umas duas horas de espera, fui atendido por um médico, numa daquelas consultas de quinze minutos que a gente tem quando usa plano de saúde no Brasil.
Enquanto esperava o atendimento, assisti pela TV da sala da recepção da clínica, os telejornais locais anunciando em tom apocalíptico, que a tal epidemia de gripe estaria pondo em colapso o sistema de saúde português. A chamada da reportagem dizia: “macas até na recepção no hospital de Guimarães”.
O fato é que viajei para Londres com o mesmo pacote completo que recebo no Brasil sempre que as chuvas de Junho batem no litoral potiguar ou o vento sudeste de Agosto chega pra balançar o topo das dunas que cercam minha cidade: antibiótico, anti-inflamatório, anti-histamínico e por aí vai…
Mesmo assim estava animado para conhecer a capital do antigo e decadente império britânico. Após uma curta sabatina no controle de passaportes, fomos subliminarmente lembrados de que éramos brasileiros (e não “ocidentais”) e que a Grã Bretanha é uma ilha e não um continente.
Certamente este foi o país onde mais tive dificuldade de entrar desde que comecei a viajar para o estrangeiro, mas especificamente para o Peru, em 1995, junto com Ana Cláudia (minha esposa). O sujeito no controle de passaportes era até simpático, para os padrões da famosa fleuma britânica, mesmo assim questionava de onde a gente vinha, pra onde a gente ia, o que ia fazer ali, quanto tempo a gente iria ficar e o que a gente estava fazendo em Portugal e por aí foi. Alguém sem experiência de viagem e com dificuldades no inglês comeria um dobrado num controle de passaportes desse tipo, não tenho dúvidas.
Depois dessa sabatina inquisitorial, pegamos um ônibus para a Liverpool Street e de lá um metrô para a Russel Square, uma praça bem no coração do bairro de Bloomsbury e que leva o nome do orientador em Cambridge do filósofo austriaco que estudei no meu mestrado: Ludwig Wittgenstein.
De modo inusitado (e muito subitamente), quando chegamos na tal praça, as nuvens se abriram, deixando auspiciosamente o sol sair de seu casulo gelado para que eu pudesse bater perna pela vizinhança, depois, é claro, de deixar as malas no albergue em que íamos ficar durante uma semana.
As ruas coalhadas de pequenos prédios de tijolos vermelhos pareciam me jogar direto pra dentro de um clip do The Smiths ou em alguma fábula vitoriana dessas de suspense e mistério que povoam os livros de Bram Stoker.
Por esses rincões gelados do norte, no tempo de inverno, o dia começa tarde e termina cedo e quando o relógio bateu às 17:00 tudo já estava completamente escuro. Por sorte, antes que o cansaço e os resquícios da sinusite me derrubassem, em meio a pressa dos transeuntes londrinos que corriam pra lá e pra cá, atravessando os cruzamentos das esquinas de Bloomsbury sem dar muita trela para o sinal de pedestres, acabei por achar um refúgio naquele burburinho de fim de expediente.
Um sebo, em um porão de um desses prédios de tijolos avermelhados, se anunciou por meio de uma placa no meio da rua, duas quadras distantes da Russel Square. Logo fui tomando pela certeza de que aquele era o melhor lugar para se estar, naquele momento, em toda aquela cidade fundada pelos romanos apenas 47 anos depois do nascimento de Cristo.
Sei que muita gente não vai entender isso, mas quem ama os livros e nasceu e cresceu entre estantes de livrarias e de sebos no antigo mundo analógico em que vivíamos, não perde, sempre que pode, a oportunidade de “garimpar” algo por entre as prateleiras empoeiradas e cheias de velhas edições que passaram pelas mãos e pelas vistas de outros seres humanos.
Há algo de uma invasão de privacidade em se adquirir um livro em um sebo. Um mergulho nas cavernas semióticas da intimidade de alguém que um dia folheou aquelas páginas. Ler um livro que pertenceu a outra pessoa é algo que beira o promíscuo. Deve ser mesmo, amigo velho, essa pulsão pornográfica em busca dos rastros de um leitor que já passou ou pela reminiscência dos olhos vagantes de alguém que circularam por entre as trilhas daquela linguagem, que fascina tanto o frequentador de sebos.
Particularmente, quando os livros têm anotações, dedicatórias ou simples assinaturas, a sensação de estarmos entrando em um território ignorado fica mais forte. São as marcas de uma vida que andou por aquelas páginas, que trafegou naqueles parágrafos e que agora, se transmite, no círculo do destino ou do acaso, para a nossa própria vida.
E coube ao acaso (ou ao destino), que eu encontrasse, no meio dos livros daquele sebo em Bloomsbury, bem perto da praça que leva o mesmo nome de família que foi de Bertrand Russell, justamente, uma ensaio biográfico acerca de seu aluno mais famoso.
A bela edição de capa dura publicada por Weidenfeld & Nicholson, em 1985, do livro de A. J. Ayer sobre Wittgenstein me chamou logo a atenção. Contei de pronto na carteira as parcas libras que me restaram do almoço para ver se o livro encaixava no orçamento.
Aparentemente o plano seria bem executado porque, apesar de o livro estar praticamente novo, como se tivesse recém saído da gráfica, custava “apenas” 6 libras (menos de 50 reais).
O problema é que, quando a gente, que tem esse amor profano pelos livros, chega em um sebo, tal qual um viciado em uma boca, nunca se satisfaz com uma primeira dose. Diante de mim, já ao lado do caixa, quando estava me preparando para pagar as tais seis libras, surgiu, como num salto quântico, uma coleção da poesia completa de Dylan Thomas, editada e prefaciada por Daniel Jones. O livro, impresso em 1978, havia pertencido a um tal David Bradshaw, e continha praticamente tudo que o bardo galês publicou em vida, trazendo, inclusive, uma extensa rede de notas no fim da edição. Lembrei na hora do amigo e advogado natalense, Ricardo Marques, ainda com a camisa do Colégio Salesiano São José, em alguma madrugada de 1990, no balcão do El Chaco (bar que ficava na Praça das Flores, no bairro de Petrópolis, bem na quina do chamado “plano Palumbo”) recitando versos de Dylan Thomas.
___ Ele morreu depois de tomar 50 doses de whisky! – me disse Ricardo, naquela madrugada da memória, naquela Natal do nunca mais.
Ver aquela edição de bobeira, ali, esperando para ser comprada, quero confessar, transfigurou-se de pronto em um apelo avassalador para um sujeito como eu que tem o sonho de, após uma aposentadoria utópica da sala de aula, poder passar o resto dos seus dias aqui na terra traduzindo poesia.
Sem titubear tirei as últimas notas do dinheiro britânico que tinha no bolso e pedi para o rapaz do caixa acrescentar o exemplar.
____ Ele morou aqui perto – disse o funcionário do sebo, fazendo referência ao poeta – bebia sempre em um pub que fica próximo do museu britânico.
Saí daquele lugar convicto que havia recebido algum tipo de sortilégio e que havia um imperativo cósmico oculto que me obrigava, a despeito da quantidade de remédios que eu estava tomando, a achar o tal pub e beber algumas canecas de cerveja. Seria um tributo ao bardo galês que ofereceu um sobrenome artístico ao jovem Robert Allen Zimmerman (mais conhecido como Bob) quando este chegou pra tentar a sorte como artista em Nova York, vindo do meio oeste norte americano.
Achar o local que, nos anos da guerra, permitiu a Dylan Thomas suportar o terror que os bombardeios noturnos proporcionaram e ainda ter ânimo para recitar poemas pelas ondas da rádio BBC, naquela Londres de invernos bélicos, pareceu um bom propósito de viagem para chegar até essa ilha, tão fria e úmida, perdida nos confins da Europa e que um dia, sonhou ser o centro de toda a terra.
Mesmo que eu soubesse, no meu âmago, que nenhuma viagem precisa de um propósito.
