setembro-amarelo

[SETEMBRO AMARELO] Meus bebês de Rosemary

Mente em chamas

Tanto para dizer que acabo por não dizer. Falta organização, logo para quem sempre soube (ou acha que soube) transformar tudo em versos, em textos.

Contradição

Enquanto digo que me falta organização mental para escrever, estou aqui, escrevendo. E repetindo palavras, atestando que, apesar da contradição, falta-me organização.

A primeira filha

Não há espaço para mais. Enquanto ainda me empenho, o mundo parece ruir despretensiosamente. Ruir como se desconstruísse a si em planos incongruentes: um fora e um dentro. O primeiro de fora para dentro e o segundo de dentro para fora. O primeiro é fagulha, uma chama que se constrói a partir do calor do sol e da secura em palha seca; o segundo é traiçoeiro, silencioso, quilotons e quilotons de represália inertes que anseiam por um encontro com o primeiro (a fagulha) para explodir.

Isso é uma união de opostos que resulta no nascimento de uma filha indesejada, uma que precisava de um aborto antes de eclodir: a depressão. Se, independentemente de qualquer fator, um filho será sempre um filho, inclusive aqueles que o são somente por serem frutos do mesmo sangue, quando ela (a depressão) nasce é isto: mesmo grau de proximidade, mesma afetação. A diferença está no sentido e no sentimento.

Enquanto, normalmente, há amor direcionado a um filho de carne e osso, o que há direcionado à depressão é ódio. Se, de um lado, há o desejo que o filho viva para que possamos viver, do outro há o desejo que ela morra antes de nos matar.
Com o corpo fisicamente cansado sem ter feito qualquer movimento com exceção das mãos trêmulas, com a mente em chamas e já genitor da indesejada depressão, há uma consumação doentia; uma espécie de mistura entre onanismo e incesto entre o dentro e o fora (si mesmo) e a indesejada filha (a depressão). Assim, faminta pelo tempo, pelo futuro, nasce a segunda filha.

A segunda filha

A ansiedade. Porque se um filho de corpo físico consome os dias como se fosse uma extensão dos próprios pais (o que é normalmente comum em nossa sociedade), a ansiedade, essa nova filha, é uma que tem preferência pelo futuro. Enquanto a irmã mais velha, a depressão, está destruindo passado e presente em espirais explosivas silenciosas, a ansiedade consome o futuro como se o previsse. Ela digere antes mesmo que possamos estar lá, no porvir.

Com o passado e o presente em chamas e com o futuro servindo de refeição para o bebê de Rosemary (enquanto se é a própria), não há tempo, não há vez. Há um espaço que parece involuir.

Que morram

Se eu sentei para escrever sobre como um álbum de uma banda me afetou por eu não ter conseguido escutar as notas de um vocalize de uma música e acabei escrevendo sobre minhas filhas (as que quero mortas), talvez isso prove minha desorganização.
Algo que, já feito, eu não acredito que preciso provar nem para mim mesmo. O que prova minha contradição.

De qualquer forma, são minhas palavras contra as delas.

E elas estão aqui comigo.

Sobre o autor

Sihan Felix

Sihan Felix é crítico de cinema desde 2008, sendo membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ) e cofundador e integrante da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Norte (ACCiRN). Felix escreve para importantes mídias brasileiras, participa como jurado e palestrante em festivais dentro e fora do país, foi crítico de uma das maiores distribuidoras nacionais de clássicos e é contista. Além disso, quer comer gorgonzola sempre, mas a vida de professor de cinema e música o impede de ter muito contato.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *