Ser solteira em Natal, clichê ou sorte?

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Eu sei que todo mundo anda super cansado e depois da pandemia todas as pessoas, tanto as quem têm relações seguras, quanto os solteiros, estão procurando lugares de alívio, de compreensão e de afeto genuíno pra voltar a acreditar no amor ou resignificá-lo. Muita coisa se perdeu nestes dias de isolamento e esta volta à vida real se tornou uma verdadeira maratona para se encontrar alguém para se relacionar amorosamente. Comecei a me questionar: está mais difícil encontrar o amor agora ou já acontecia e eu não tinha me dado conta?

Conversando com amigos e amigas que estão solteiras neste momento, quase todos eles me falam sobre a preguiça dos jogos afetivos, que hoje é extremamente comum, e eu tenho que concordar. Não há nada mais cansativo do que o superficial interesse sem atitude. Passamos horas nas redes sociais entre foguinhos e corações, cantadas medíocres e troca de nudes picantes para que na vida real essas mesmas pessoas que nos instigam a fazer isso, passem por nós e nem tenham o cuidado de cumprimentar educadamente com um simples “oi”.

Fico pensando como era bacana antigamente em que a gente paquerava por bilhetes nos bares, mandando músicas na rádio e depois a pessoa ligava para o telefone fixo da nossa casa e sabia vir até a gente, marcar um lanche, ou uma conversa na calçada. Era ali que o encanto acontecia. Pra todo mundo ver. Hoje não. Hoje tudo está a mercê da mensagem subliminar no direct do instagram, da sugestão de amizade no facebook e nos repetidos “bom dia flor do dia, dormiu bem?” do watts app e dos matchs desenfreados nos aplicativos. Não conseguimos mais marcar um encontro decente que não seja para ir direto ao ponto e tudo rápido, para não correr o perigo de se criar vínculos. As pessoas têm pressa de suprir suas carências momentâneas como num grande rodízio quando estamos com muita fome e depois do segundo pedaço de carne ela enjoa e enche. É tudo descartável, instável e sem compromisso. Vi milhares de pessoas pregando a não monogamia no carnaval, achando lindo e moderno e eu daqui me questiono: será que só eu não queria ser a marmita de casal e ter alguém pra conversar, trocar referencias de livros, músicas, poemas e trailler de filmes que possivelmente nem chegaríamos a assistir? Vivo eu numa ilusão do romantismo amoroso? Ou estou apenas sendo uma mulher de 47 anos solteira sem saber onde me enquadrar? Uma hora achando engraçado tudo isso, outras me sentindo a mais sozinha e desinteressante das pessoas e eu sei que não sou. Será que as pessoas ainda sabem conversar? Onde é que os arrepios se esconderam? Por que a chegada do amor e do interesse com desejo não é mais como nos meus 15 anos? Onde estão as pessoas interessantes e autenticas como eu? Passo noites em claro pensando sobre isso, um martírio!

Especificamente aqui em Natal eu desisti faz tempo e olhe que sou uma pessoa relativamente conhecida no meu meio e ainda me aventuro a circular pelos aplicativos de relacionamento como o Tinder por exemplo, mas nada me faz encontrar relações com bom senso (salvo algumas pessoas, porque em 100 você acha um bacana). Dia desses saí com minhas amigas e éramos muitas numa festa em uma cervejaria conhecida por sempre ter pessoas bonitas e solteiras e nenhuma de nós, mulheres bem resolvidas, bonitas, alegres, modernas, ficou com ninguém. Todos os homens solteiros da festa estavam voltados para as suas próprias bolhas com outros homens e sequer movimentam o olhar para olhar ao lado e perceber um flerte. É todo mundo segurando o seu copo e desfilando de um lado para outro a noite toda sem retribuir nenhum sorriso, restando pra gente o mais clichê das noites natalenses: voltar no zero a zero e todas bêbadas (ainda bem que sempre felizes). E tem sido assim há tempos! E isso às vezes nos livra de muitos machos sem futuro, mas às vezes os nossos hormônios sentem falta de uns bons beijos na boca pra fechar a noite, ou começar ela.

Fui comentar isso na minha manicure, que disse: “você está procurando nos lugares errados”. Mas será? Se eu for num show de forró eu vou achar alguém bacana ou um vaqueiro no estilo do careca do campari, que vai me questionar porque eu tomo mais breja do que ele com seu whisk com red Bull e  viper? Se eu for paquerar numa livraria, coisa que já fiz e que parece que eu estou num lugar onde está cada um no seu mundo e no olhar já se lê  “não me incomode”, como vou chegar junto?

Baladas gays eu vou e não me enquadro por ter nascido e me reconhecido hétero, será este o erro? Então eu até vou, mas pra dançar e rir com meus amigos e amigas e de vez em quando me apaixonar por um gay que nunca vai me dar o cabimento.

O que sobra então? O Beco da Lama e a Ribeira, onde estão as pessoas que nos mandam nudes, mas não falam com a gente pessoalmente. Os esquerdo-machos vestidos de desconstruídos do Samba da Quinta, quem tem coragem? Os bares de MPB que quando tocam Chão de Giz e Minha Pequena Eva eu quero sair correndo e pedir a conta. Ou os festivais alternativos e eletrônicos com pessoas alternativas e clubbers que estão sempre 5 graus de chapação maior do que a minha. Socorro!

Qual a saída para pessoas que estão passando por esse mesmo questionamento como eu e procura uma solução? Como vamos sair dessa seca? Qual o caminho pra voltarmos a nos relacionar sem ter que passar por uma prova como um Enem das relações? Sinceramente eu não sei a resposta, só sei que sem alternativas, vou continuar indo nos mesmos lugares, mesmo com a mesma preguiça e arriscando mais uma vez a possibilidade de perder a paz por uma relação troncha ou encontrar ali o amor real e parceiro que eu tanto desejo. E que ninguém venha me dizer que ser solteira é ser mais feliz, que a solitude é necessária, que mulher empoderada se satisfaz sozinha… Não!! Eu não quero ser mártir de nada, quero o que me é de direito, um bom cangote pra cheirar, uma conchinha pra dormir, uma barba pra roçar no meu pescoço e uma parceria de troca afetiva saudável e contínua, é isso! E nem me venha com hipocrisia que eu sei que você quer também!

Carla Nogueira

Carla Nogueira

Carla Nogueira, mais conhecida como Carlota, formada em gestão de pessoas, com MBA em gestão humanística de pessoas. É multicriativa e fundadora do Estúdio Carlota Coletivo Afetivo, criando oportunidades para gerar potência e oportunidades de fomentar a arte, a cultura e as pequenas marcas com grandes ideias. Notívaga, cervejeira e sarcástica, escreve sobre suas percepções diante dos fatos do dia a dia.

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2 Comments

  • Odilene Monteiro

    Carla, primeiro quero te desejar sucesso, apesar de ter certeza que os meus votos não fazem a menor diferença, haja vista a qualidade do seu artigo e a perspicácia de suas colocações tão valiosas!
    Bom, também sou uma mulher solteira, usuária de aplicativos de relacionamentos e, por ser um pouquinho seleta na minha bio, e muito mais na realidade, acabo meio que afastando os homens. A contemporaneidade está marcada pelo imediatismo e superficialidade. Não como criar relações em um match, nem conhecer alguém através de uma descrição sobre o que se gosta de fazer no tempo ocioso.
    Não é só em Natal que está faltando homem, (HOMEM, não apenas meras opções de ejaculação) é a época errada em que nascemos mesmo!
    As pessoas estão acometidas de preguiça de pensar, ler (preferem séries, filmes e, no máximo, um áudio-book, ou seja: informações mastigadas e, preferencialmente, com as críticas de outras pessoas que se deram ao trabalho de pensar para poder replicar dando a entender que o cérebro não está somente ocupando espaço), estudar, ouvir uma boa música, visitar museus… Nesse sentido, estou certa que você e suas amigas não estão perecendo sozinhas desse mal. Portanto, dentro desse contexto de pessoas idiotizadas, eu prefiro me satisfazer com o meu querido amigo vibrador a ter que perder tempo com gente sem futuro!

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