Rap em Mossoró cresce com mensagens reflexivas e identidade cultural

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Pelo menos oito artistas da cidade lançaram músicas no último mês e apostam em um conteúdo educativo e transformador

A cultura hip-hop em Mossoró está em constante crescimento. Alguns artistas novatos somam-se a outros já veteranos na cena e, com isso, são lançadas várias músicas e clipes na cidade.

Ao contrário de uma tendência mainstream e voltada para industrialização que acompanha essa cultura a nível global, os artistas de Mossoró têm apostado nas raízes do movimento.

Surgimento do hip hop

O hip-hop surgiu na década de 1970 no bairro do Bronx, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, local que vivia momento de grande crise social e constantes casos de violência.

O movimento surgiu com o tema “Paz, Amor, União e Diversão” colocando as disputas entre grupos apenas para o campo artístico, reconfigurando o bairro e promovendo rap, grafite, break dance, com festas promovidas pelos DJ´s, os criadores da cena.

Em Mossoró, hip hop contra o crime

Em Mossoró, uma das cidades mais violentas do Brasil, os rappers locais também buscam contrapor as estatísticas sociais e promover a união, levando reflexões às pessoas da periferia de que o crime não compensa.

“Respeito muito os princípios dessa cultura. Procuro mostrar que o crime, a violência e as rixas não são caminhos para nós. Temos que acreditar nos elementos fundacionais do hip-hop. O meu intuito é educar através do rap”, disse Prisma MC, artista selecionado para realizar uma live promovida pelo Sindicato dos Profissionais de Educação (Sinte/RN), com data ainda não definida.

Além dos clipes e músicas, os artistas de Mossoró também participaram do desafios Barras Maning Arretadas, em que foram desafiados a rimarem em um mesmo instrumental, com rimas improvisadas ou pré-produzidas.

O desafio chegou a 10 países e o artista Caboco foi um dos selecionados para apresentar um dos instrumentais. Na batida produzida por ele, foi colocado o tema “Como ajudar alguém?”.

Confira alguns dos lançamentos do hip-hop mossoroense:

Bebéquera MC

– Em seu primeiro clipe, denominado “Saudade Ficou”, Bebéquera MC faz uma mensagem direta na luta contra a criminalidade, apontando a educação como a solução: “Mais escola pra ensinar pro menor que bala mata e crime não compensa”.

https://youtu.be/qQLxMyWo9oc

Prisma MC

– Com um histórico de bullying sofrido, Prisma MC aposta em mensagens motivacionais como caminho para que as pessoas sigam acreditando em seus sonhos: “Disseram que tem que ter calma pra se aprender a viver, que o foco te faz ter respeito para assim sonhar e fazer tudo que você quis um dia”, disse na música Objetive 2, que tem parceria com Anderson Gabriel.

Cabocla de Jurema

– Eva Rocha, a Cabocla de Jurema, é uma artista que compõe o grupo Soul Negra e tem produções em vários gêneros musicais dentro da cultura negra, como soul, reggae e projetos de percussão.

Ela fez a estreia no rap com a música “Guerreira de Dandara”, que enfatiza o combate ao racismo e ao machismo: “Canto a voz dos meus irmãos, canto a voz das minhas irmãs. E ainda vejo a escravidão no racismo estruturado. É, nós vai derrubar, é. Não vou aceitar, não vou aturar. Não vou suportar, não vou silenciar. Minha arma é minha luta, luto pela minha vida. Aqui quem fala pra tú é uma preta feminista”.

Caboco

– O rapper Caboco atua como produtor cultural, beatmaker (criador de instrumentais de rap), rapper e dançarino. Na música “O Século do Ego”, ele foca sobre a prioridade dada ao tempo em nossas ações: “O tempo é uma escolha e eu acho que o tempo está correndo”.

Comedor de Camarão

– Comedor de Camarão lançou um EP com quatro músicas chamado de Resistência, em que realiza críticas ao racismo e à política mossoroense. Na música Mossoró 40 graus, ele faz um trocadilho entre a alta temperatura da cidade e a passividade do povo, acostumado a se calar diante das dificuldades: “Mossoró 40 graus, a gente é acostumado ao calor (calou), mas a realidade despertador (desperta a dor).

@vittopoeta e Jongozú

– @vittopoeta e Jongozú lançaram o EP “AfroPotyguar” com sete músicas. Uma delas é a música ‘Maracatu de Camarão’, em que Jongo afirma “Eu serei resistência” e faz referências ao legado da cultura negra, linkando a cidade de Areia Branca, no Rio Grande do Norte à Luanda, capital de Angola.

Enquanto isso, @vittopoeta afirma que a sua música é uma mistura entre a cultura potiguar e o hip-hop, fazendo uma interação única dessa identidade: “Eu vim do mato do Rio Grande do Norte, fazendo maracatu, embolada com hip-hop. Mando a rima rasteira, capoeira na levada. Comprei macaxeira na feira pra vender na estrada”.

Carlos Guerra Junior

Carlos Guerra Junior

Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de Coimbra (Portugal), com tese sobre o papel do ativismo político da música rap. É fundador do Slam em Mossoró. Atuações artísticas e acadêmicas em três continentes: África, Europa e América do Sul.

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