O veneno da mulher brasileira

Croniketa da Burakera #18, por Ruben G Nunes

De repente, o inusitado: mulher tenta matar marido com sexo-oral passando veneno na região pélvica, em torno da vagina.

Pra lá de bizarra, a notícia rolou em toda web, na mídia em geral, do Brasil e de vários países da América do Sul.

O atentado sexi-oral foi em São José do Rio Preto, SP. Lembrei de País Tropical, música de Jorge Ben, versão gravada em 1969, por Wilson Simonal. Simona-velho começava rindo-dizendo: “Ah… ah… ah… Em homenagem a graça, a beleza, charme e o veneno da mulher brasileira”.

Cá entre nós, brasileiras ou não, há sem dúvida algo de veneno nas mulhas sedutoras. Aliás, todos os mitos e livros sagrados registram essa áurea fatal da mulherada.

Na verdade, lindas ou feias, gordinhas ou magrelinhas, certas mulheres parecem ter um toque diferente. São imagéticas, perfomativas, poemáticas, fascináticas e venenáticas.

Há, repito, em certas mulheres, o dom gestivisual que instila o veneno do desejo. Que faz jorrar uma energia diferente: ou positiva, ou negativa; ou mesmo negapositiva. Mas que envenena a alma e pode quase-matar de paixão e dor-de-cotovêlo.

Salomão, que sabia das coisas, filho de David, séc.X AC, disse poeticamente que a mulher é como “ânfora de flancos perfeitos que contém tôdas as delícias da existência”. Um esteta danadinho, ein!

Já Alexandre Dumas, pai, mais objetivo, afirmava que “é possível que os homens valham mais, mas não há dúvida de que as mulheres valem melhor”.

Apesar de muitos reconhecimentos do venenoso encanto feminino, há também muitas desvalorizações da mulher. Talvez, mesmo, pelo medo-fascínio desse perigo encantatório que há na mulher. Espécie de aura mágica que quase sempre dá um nó nos brios e bagos do macho de peia.

A Bíblia, p.ex., execra a sedução de Eva no Paraíso. Aliás, segundo a Cabala, a serpente sedutora era Lilith disfarçada, a controversa primeira mulher de Adão – que era a da caça e não a da costela.

Thomas Edson, que aperfeiçoou o telefone de Bell e Meucci, critica o veneno falatório da mulher: “quem inventou a primeira máquina de falar foi Deus, ao criar a mulher; eu inventei a segunda, mais aperfeiçoada, porque a minha faz-se parar quando se quer”.

Montaigne, filósofo francês do séc.XVI, ironiza com sacana elegância a inteligência da mulher: “A mais útil e honrada ciência e ocupação para uma mulher é a ciência da limpeza”.

Ironia que o machismo durão corneta como: “mulher foi feita pra molhar a barriga lavando roupa e enxugar no fogão”.

Seja como for, inteligente, ardilosa, deliciosa, faladeira, e mesmo faxineira nata como diz Montaigne, há um inescapável fascínio na mulher. Fascínio que atua tanto como remédio, tanto como veneno. Dependendo da gamação, da galhação ou do ressentimento.

A infidelidade da mulhamada, por exemplo, é em geral um cornocídio que envenena lentamente, e para sempre, a alma do macho de raiz e se espalha pela vida pessoal e social do cornuto. Metástase moralia e catrevália. Ou seja: na moral ou na esculhambação, no prazer ou na dor, xanas podem matar.

É bem verdade que a aranha viúva-negra também pratica o machocídio vaginal. O macho não possui pênis. Mas nos bulbos, espécie de minibraços que ladeiam a boca, há um apêndice que injeta esperma. O macho, literalmente, cai de boca na genitália da fêmea e a insemina. Pós-cópula o apêndice é cortado. Fica lá como rolha. O macho morre de hemorragia.

É verdade, também, que ao ser expulsa do paraíso Lilith, para alguns, a primeira mulher de Adão (a da caça e não a da costela), se torna um daímon feminino, vampiresco, que se alimenta da energia sexual dos homens. Dificilmente um homem por ela possuído nos sonhos sai com vida. Aqui, também há homicídio vaginal.

Trata-se, porém, de aracnídeos e de mitos religiosos.

Na VidaViva humana, o xanaveveno brasileiro é, de fato, idéia original. Creio mesmo que é a primeira vez na História o fato da xana ser veículo de veneno.

Em geral, venenos são diluídos em bebidas ou misturados em alimento. Assim faziam envenenadoras famosas como Locusta, escrava do tempo de Nero, Lucrécia Borgia, com a “acqua toffana”, Catarina de Médicis e outras. Nenhuma delas usou a vagina e o prazer do sexo oral ou cunnilingus nos seus crimes.

Nosso país detém, assim, a primazia dessa tentativa de maricidio-oral-vaginal.

Imaginem a pornô-cena-pós-moderna: a mulher uivando, chupa filho! chupa!.. assim..! fingindo pleno gozo oral, um olho fechado outro aberto conferindo o marido estrebuchar envenenado entre suas coxas. Mais libidinosa que gloriosa, é uma morte digna da dramaturgia nelsonrodriguiana. Uma morte canalha.

No caso brasileiro de São José do Rio Preto, só houve todavia a tentativa de morte. Daí virou estrambótica ocorrência policial. O marido diz que só se safou porque xanacheirou antes de lamber.

Sentiu cheiro diferente daquele familiar cheirim de bacalhau. “Que cheiro é esse, sujeita?”. “Perfume francês, filho!”, gaguejou ela se abrindo mais e prendendo a cabeça do maridão entrecoxas. “Chupa, filho, chupa!”, disse baixinho e esfregando a xereca com força no rosto dele.

O dito cujo mergulhou fundo a língua e começou a xupanação. Linguaxuxando rápida. Mulher em histérica gemedura assassina. Daí o maridaço começou a passar mal. Recolheu a língua. Pulou da cama. Foi ao banheiro vomitar. Desconfiado o maridão foi pro Pronto Socorro. Fez lavagem. O exame do laboratório acusou uma substância estranha. O consorte-sem-sorte foi dar parte na delegacia. Tentativa de envenenamento: xanacídio.

O Delegado Walter Consentino, do 4º DP, da cidade de São José do Rio Preto, SP, um velho policial quase aposentado, olhou a foto da mulher que o maridão raivoso lhe mostrou. Coçou a careca. Nunca tinha prendido uma xana assim venenosa. E bem jeitosa e boazuda na foto. Imaginou como seria os armamentos da suspeita. Peituda? Tabacuda? Bunduda?

Arquejante, bateu a mão na mesa e cofiando o bigodaço grisalho decidiu ir pessoalmente acompanhar a diligência, face a gravidade do caso: “Vamulá investigar a região pélvica e partes pudendas da suspeita” – disse indignado.

Não se sabe se foi usado cães farejadores ou personal degustadores. O que se conta nas esquinas e botecos é que nunca uma suspeita foi tão bem investigada.

Assim é a VidaViva!

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Ruben G Nunes

Desfilósofo-romancista & croniKero

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