O sopro e a forma

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Por Francc Neto

Este texto nasceu de uma inquietação antiga: não o sentido da vida, mas a própria natureza do que chamamos “vida”.

Interrogamos o seu significado, buscamos o seu propósito, mas raramente a olhamos em si mesma — como fenômeno, como vibração, como matéria sensível.

Aqui não se pretende uma definição, e sim uma aproximação.

Uma travessia entre filosofia e arte, onde a vida aparece não como conceito, mas como presença — o sopro que antecede a razão e a forma que a sucede.

O artista, o pensador e o homem comum se encontram nesse mesmo gesto: o de tentar compreender o que pulsa antes do nome.

I. O princípio: a vibração

Talvez tenhamos falado cedo demais sobre o “sentido da vida”.
A urgência em atribuir-lhe um propósito nos fez esquecer o essencial:
antes de qualquer sentido, há uma presença, uma vibração muda que antecede toda razão.
A vida é o que pulsa — mesmo no escuro, mesmo sem nome.

Ela não é um conceito, mas uma condição.
Não é substância, mas acontecimento.
É o próprio ato de ser.

Toda definição tenta aprisioná-la e falha,
como quem tenta segurar a respiração do mundo com as mãos.
A vida não é algo que se possui;
é algo que nos atravessa.

A biologia descreve seus mecanismos —
metabolismo, respiração, reprodução.
Mas o pensamento estético a compreende em outro plano:
como manifestação sensível da potência de existir.

O gesto do artista não é imitação do real; é uma extensão da vida.
Criar é deixar o fluxo vital transbordar por outros meios.
A arte, assim, é o modo como a vida se pensa através da matéria.

A estética é a metafísica do sensível:
onde o corpo e o pensamento se reconciliam,
onde o sentir é também um modo de conhecer.

O artista, quando cria, não representa o mundo —
ele o renova, mesmo que por um instante.
Cada obra é um modo de respiração.

E talvez seja isso o que nos resta dizer:
a vida é o que continua vibrando depois da utilidade,
o que insiste em aparecer fora da máquina.
Ela é a vertigem do ser em movimento,
uma forma de beleza anterior à forma.

II. Consciência e a sombra da vida

A consciência é o ponto em que a vida se torna espelho.
O animal vive; o homem sabe que vive.
E nesse saber há uma fenda —
a corrente se dobra sobre si mesma e nasce o pensamento.

Essa dobra é o começo da arte.
Porque o homem, ao perceber-se vivo, descobre também que vai morrer.
E essa percepção cria uma saudade de algo que nunca se teve:
a pureza de apenas existir.

A arte surge como resposta a essa nostalgia.
Cada obra é uma tentativa de restituir a unidade perdida,
um gesto de reconciliação entre o que vive e o que pensa.

Criar é uma forma de recordar o instante anterior à separação.
Por isso, toda criação tem algo de trágico:
é o desejo de voltar a ser natureza,
de fundir-se novamente ao que pulsa sem consciência.

A consciência carrega uma tensão dupla —
ela quer durar, mas sabe que é finita.
E dessa tensão nasce a estética:
a arte como organização do efêmero.

Nietzsche intuiu isso quando disse que o artista afirma a vida apesar do sofrimento.
Criar é aceitar a impermanência e transformá-la em forma.
É converter o tempo em corpo, o instante em permanência.

Viver, então, é dar forma à passagem.
E a arte é a experiência mais lúcida dessa passagem,
porque nela o transitório respira como se fosse eterno.

A consciência, portanto, não é inimiga da vida,
mas seu campo de experimentação.
Ela é o lugar onde o ser percebe a si mesmo e, ao fazê-lo,
descobre o milagre de existir —
e o espanto de ter de desaparecer.

III. A morte e a persistência da forma

A morte é o limite onde o pensamento se inclina diante do mistério.
Mas não é o contrário da vida — é sua dobra final.
Tudo o que vive muda de estado,
e é nessa metamorfose que a vida continua.

A filosofia a tratou como interrupção,
mas talvez devamos vê-la como continuidade,
como o momento em que a energia vital
abandona o indivíduo e retorna ao corpo do mundo.

O que chamamos de “vida” é apenas um lampejo,
um intervalo entre duas invisibilidades.
O que chamamos de “morte” é o retorno ao todo.

A arte compreendeu isso antes da razão.
Cada criação é uma pequena morte:
a entrega de algo vivo à forma que o encerra.
O artista morre um pouco a cada obra —
congela um instante para que ele possa continuar.

A arte transforma a morte em permanência,
a perda em linguagem.
E por isso ela é o testemunho mais fiel da vida:
não por imitá-la,
mas por atravessá-la até o fim.

A vida se revela em três gestos:
nascimento, consciência e morte.
Entre eles, a arte ergue sua morada —
acolhe o que nasce, organiza o que pensa, consola o que parte.

Viver, então, é mais do que existir:
é transformar o instante em forma,
a passagem em presença,
o efêmero em respiração.

No fim, o que é vida?
Talvez seja apenas isso:
a matéria se reconhecendo viva
e decidindo cantar antes de se calar.

Francc Neto

Francc Neto

Escritor, poeta e artista visual. Graduado em Filosofia pela UFPB e pós-graduado pela PUC-SP. Autor do livro Manifestos Corrosivos. Colaborador da revista Safari, de Porto Alegre. Participou de exposições em instituições como o Museu da Memória Candanga (Brasília) e a Art100Gallery (Porto Alegre), além de salões de artes visuais em João Pessoa. Atualmente, divide seu ateliê entre João Pessoa e Serra Negra, Pernambuco, onde mantém um diálogo contínuo entre o fazer manual, a reflexão filosófica e o silêncio da matéria.

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