dream is over

O sonho acabou ou ainda podemos nos unir sem bandeiras?

Sérgio Vilar2 de abril de 2020Opinião, Artigos e Crônicas, Image

O rebolado de Elvis naqueles meados da década de 50 era censurado na TV norte-americana. O Rei do Rock mexia com os quadris e com a moral da família conservadora. Mas não tardou para ganhar o mundo. Era impossível frear aquela onda.

Depois vieram quatro cabeludos de Liverpool. A maior banda de todos os tempos habitou a mágica década de 60, ainda tensa pela Guerra Fria e um possível conflito que acabaria com o mundo. Era preciso viver intensamente.

Em 1969, dream is over? Talvez. E talvez por isso tantos reunidos em um festival despretensioso. E ali, no meio da lama, a história, a contracultura, a paz e o amor. E a voz rasgada de Joe Cocker… “I get high with a little help from my friends” (Eu vou longe com uma pequena ajuda dos meus amigos).

Sim, os Beatles ainda estavam ali, na interpretação épica do blueseiro britânico. With a Little Help From My Friends foi a voz ecoada de Woodstock. Ajuda mútua para ir longe, para ir além do conservadorismo, além da Guerra Fria, além de Nixon, além do Vietnã.

Por aqui, em 1975, aconteceu um Woodstock brazuca. O Festival de Águas Claras, numa fazenda em Iacanga, interior de Sampa. Outras tentativas falharam em reproduzir o desbunde de Woodstock. Precisava ser espontâneo. E assim, Águas Claras assistiu milhares de pessoas sedentas por liberdade em plena Ditadura Geisel.

Dez anos depois, em 1985, Diretas Já, Rock in Rio. Um Brasil unido na volta democrática. Um Brasil apartidário e em sintonia com o mundo. Triste com a morte de Tancredo. Todos de chiclete ploc na boca e entoando Ursinho Blau Blau ou “Não se reprima” e em coro perguntavam Que País É Esse?

E Sarney inicia a história da redemocratização. Imagine um prédio com base frouxa, com tijolos mal colocados. E assim, ano após ano, andar por andar, construímos a história da nossa Republiqueta como um prédio insustentável, prestes a cair.

O país unido no Iê, Iê, Iê da Jovem Guarda, no nacionalismo do Tropicalismo, na luta pela Nova República nos anos 80, começou a rachar já ali. Brizola nunca trocou seu chimarrão e sua representação política. Tínhamos ainda o barbudo sindical e o caçador de marajás. E mais uma vez colocamos um tijolaço fora de ordem na construção.

Os marajás continuam aí. Ganhamos uma nova moeda em seguida e um reinado petista que, a custa de uma corrupção sempre presente e naquele momento, escancarada, dividiu o país. E assim o próprio PT elegeu um atleta trapalhão “imune ao coronavírus”, um novo milico.

E nem uma pandemia que tem reconfigurado o mundo em uma união talvez sem precedentes, consegue unir o país tropical abençoado por Deus. A quem culpar? Cada país tem o governo que merece? A derrocada realmente começou lá atrás, no primeiro tijolo?

Pergunto: tem como demolir esse prédio Verde e Amarelo e recomeçar do zero uma construção com bases sólidas? Esse cimento teria a cor do liberalismo ou do socialismo?

Que tal uma cor cinza, própria da argamassa, apropriada ao empreendimento? Temos um motivo de âmbito mundial para nos unir sem pensar em cores, bandeiras ou no próprio umbigo. O isolamento social é pura globalização. Gesto sem fronteiras, como idealizou Lennon, ainda em 1971.

“Imagine all the people living for today. Imagine there’s no countries (…) I hope someday you’ll join us. And the world will live as one”. (Imagine todas as pessoas vivendo o presente. Imagine que não houvesse nenhum país (…) Espero que um dia você junte-se a nós. E o mundo viverá como um só).

The dream not is over!

Sobre o autor

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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