“Esteje nua!” – o homem, esse animal político

Croniketa da Burakera #20, por Ruben G Nunes

O Homem é um animal político”. Dizia o velho Aristóteles, filósofo grego, há mais de 2500 anos. Ele assim definia a politicidade natural do homem.

Quer dizer: o homem é um ser social. É pra viver em conjunto, numa família, na tribo, na cidade ou polis em grego. Daí política é conviver na cidade organizada. Enfim, a morada do Homem é o campo social-ético-político.

Os filósofos acadêmicos assim interpretam a frase de Aristóteles. É, porém, frase ambígua. Diz, noutro ângulo, que o Homem na cidade, não é só puro Homem. É também um homem-animal. Animal da cidade.

Ou seja: na VidaViva das cidades o Homem vira bicho político. E a História mostra que pelas torções e distorções fanaticóides da Política e suas espumas – as ideologias – os bichos políticos se engalfinham.

Eis uma funda verdade. Na política o homem tem sido mais animalesco que homem. Gadunha bens públicos. Corrompe-se. Não raro, usa o poder não com autoridade, mas com autoritarismo e violência.

O Homem Político civilizado é, ironicamente, animal ardiloso, tirânico, violento. Trapaceador maneiroso de si mesmo e dos outros. Um animalóide politicóide.

A história da civilização confirma essa animalidade política matreira, corrupta, gadunheira e violenta. Nero, p.ex., mandou matar mãe, irmão e transou com as 3 irmãs. Perseguia-matava cristãos. Desviou dinheiro público. E ainda incendiou Roma, enquanto compunha uma canção, tocando harpa.

calígulaHá outros imperadores romanos também tirânicos e extravagantes. Como Calígula que, louco de pedra, nomeou senador seu cavalo Incitatus.

Ou como Caracala que concedeu nacionalidade romana a todos os povos conquistados, mas era mentalmente instável e violento.

Ou ainda Heliogábulo que se tornou imperador romano aos 14 anos e foi assassinado aos 18. Casou 5 vezes e transava também com homens no palácio. Era devasso e violento. Gibbon, historiador inglês assim o descreve: “abandonou a si mesmo para ter prazeres grosseiros e ser descontroladamente furioso”.

Tio Maquiavel sacou toda essa presepada romana em seus Discorsi, onde estuda A Primeira Década, do historiador romano Tito Lívio, sobre a expansão romana, com governos barra pesada, corruptos e violentos.

Em nosso tempo, há multi exemplos de ditadores e autoridades animalóides politicóides. Que espalham esse espírito autoritário por toda a nação e toda ideologia política. Entre outros: Hitler, Stalin, Mao, Mussolini, Saddam Hussein, Fidel Castro, Hugo Chávez, Maduro…

Na Microfísica do Poder, 1978, Foucault aborda o Poder como uma força trans-institucional que transborda para segundos, terceiros, quartos escalões institucionais e movimentos sociais aderentes. Transbordamentos que moldam o cotidiano social, com toda intensidade de práticas autoritárias dispersas, invasivas, destrutivas, violentas, animalóides.

Lembro dum caso animalóide autoritário. Repercussão nacional. Junho, 2009. Foi no bairro Parelheiros, zona sul paulista. A coisa toda foi meio tragicômica, com cenas nelsonrodrigueanas.

A escrivã do 25º DP, loura carnuda-bunduda, dessas de arrepiar pelos a apelos, foi denunciada por pedir propina aos cidadãos pra aviar rápido os BOs e outras burocracias.

Em diligência de flagrante, três ou quatro agentes da Corregedoria da Policia Civil deram ordem para a escrivã tirar toda a roupa: “Esteje nua!”.

Ato contínuo, foi algemada. Caíram em cima dela, arrancando tudo. Até as calcinhas. Verdadeira pornô-diligência, à vista de todos, em nome da lei. Digna dos sites-sadomasoqueiros.

A escrivã toda raspadinha já mostrava, esperneando, aquele avantajado BigMac entrecoxas. Streaptease moral-olfativo.

Os agentes gravaram tudo, também em nome da lei. O vídeo é assustador. Fake-nude.

A escrivã resiste: “Pode me revistar! Mas não pode me deixar nua na frente de todomundo! Meus direitos humanos!”. O agente rosna: “Conversa! Esteje nua, bruaca!”. E joga a mulher no chão.

Dedos grossos com anéis grossos, avidamente xana-cu-tucam a escrivã, em nome da lei. Dura Lex sed Lex, m’ermão.

A loura escrivã corrupta e carnuda, corcoveia e berra: “Dotô! Ô dotô! Pelo amor de Deus tão me machucando!”.

O delegado olha, ajustando os óculos. Diante do naco de xana da suspeita, já saindo pra fora da calcinha fio dental preta de rendinha , o delegado grita com voz babada e olho espichado: “Esteje nua! Esteje nua! Se não dou voz de prisão por desobediência!”.

A calcinha é arrancada. A xana se esparrama sorrindo. Acham 4 notas de 100, enfiadas entre nádegas. O caixa-2 da louraça. “Não são minhas!”, grita chorando. “Não é, uma porra!”, rumina o agente.

Presa no flagra. Foi expulsa da policia. No competente inquérito a corregedora-mor afirmou que não houve abuso, nem libidinagem. Disse que agiram “dentro do poder da polícia”. O promotor do inquérito pediu arquivamento.

Depois de ver o vídeo animalóide, nas redes sociais, fui tomáuma num bar da Praia do Meio, Natal, RN, Brasil-Esquina. Fui conversar com Netuno, esse Deus dos Mares, esse marzão que sabe das coisas.

Como é isso, velhão, isso de direitos humanos?”, perguntei.

O marzão recuou duas ondas e avançou mais duas, xuáxuando pensativo.

Depois disse: “Lembra de Jeremy Bentham, aquele filósofo utilitarista inglês, bem sacaninha, do final do XVIII?”.

Fiz que sim.

Netuno cofiou a barbona e continuou: “Diante da Declaração dos Direitos do Homem, dos revolucionários franceses, que os academicóides se extasiam, Bentham disse com toda fleugma e pragmatismo britânicos: “É obra metafísica. Seus artigos são de 3 classes: 1) os que são ininteligíveis; 2) os que são falsos; 3) os que são ambas as coisas”.

Daí, Netuno trovejou enigmaticamente: “Direitos Humanos são trapaças do animal político dentro de cada um, ao sabor do Poder de cada um, segundo a Lei pra cada alguns”.

A tardemansa se espichou azulvermelhando o céu. Pensei com meu uiscote: “Esse Aristóteles era um sacana! O Homem é um animal político mesmo… vez em quando vira bicho pra valer…”.
Assim é a VidaViva!

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Ruben G Nunes

Desfilósofo-romancista & croniKero

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