Ney Matogrosso, Homem com H

homem com h

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Dizem que sou louco

Por pensar assim

Se eu sou muito louco

Por eu ser feliz

Mas louco é quem me diz

E não é feliz

Não é feliz

Arnaldo Baptista e Rita Lee

Hoje assisti, pela segunda vez, a cinebiografia de Ney Matogrosso, “Homem com H”, estrelada por Jesuíta Barbosa. A direção e o roteiro são assinados por Esmir Filho.  O filme entrou no catálogo da Netflix no último dia 17 e decidi assisti-lo novamente porque adoro ver filmes com meu companheiro, Francisco, que é um entusiasta do cinema brasileiro e está sempre me apresentando obras incríveis. Outro dia, por exemplo, assistimos “Cidade baixa” (2005), protagonizado por Lázaro Ramos e Wagner Moura. Recentemente, vimos também “Praia do futuro” (2014), estrelado por Clemens SchickJesuíta Barbosa e Wagner Moura. E a lista segue aumentando.

Embora goste de assistir filmes em casa, adoro ir pro cinema sempre que posso. Sou daquelas que adora ver o filme com um balde de pipoca! A emoção de ver o filme na telona é diferente. Estamos ali naquela sala imensa, escura, com a atenção totalmente voltada para o filme. Acredito que isso influencia bastante na nossa percepção e nos faz mergulhar mais profundamente na obra. Aliás, mergulhar é um verbo que combina perfeitamente com o filme “Homem com H”, tema da crônica de hoje. Sim, porque mergulhamos de fato na vida intensa e ousada de um dos maiores intérpretes da música popular brasileira. Passamos por sua infância, sob a postura autoritária de um pai militar que não aceitava o jeito diferente daquele menino tímido/sensível que adorava desenhar, sua juventude, a relação afetuosa com a mãe, o alistamento na Aeronáutica e a paixão platônica por um colega de farda, os amigos, a fase de artesão/hippie, a construção do seu estilo único e sua coragem de ser quem é, a liberdade sexual dos anos 70/80, os anos de chumbo, a censura, a consagração como artista, o pesadelo da aids…

É assombrosa a interpretação de Jesuíta Barbosa. Aliás, não é uma simples interpretação. Muito menos uma imitação/cópia, como se observa em alguns filmes do gênero, algo que por vezes beira a caricatura. É um ator mergulhado na alma de um personagem. É um personagem que traz as nuances do biografado de uma forma única, sensível, arrebatadora. É como se estivéssemos diante do próprio Ney Matogrosso revivendo sua trajetória de artista múltiplo (ator, cantor, dançarino, diretor). Sua entrega em cada cena, seus olhares, seus silêncios, seus trejeitos, o deboche. Ah, o deboche do Ney! Que delícia aquelas cenas em que ele debocha das insinuações/perguntas dos jornalistas! Imaginem que ele ousou debochar até dos censores que abominavam sua forma livre de se apresentar no palco! Tudo em nome da família tradicional brasileira. Será? Amor, pátria e família. Qualquer coincidência com certos discursos atuais não é mera coincidência.

Voltemos à interpretação irretocável de Jesuíta Barbosa. É tudo tão visceral que temos a impressão de estar mesmo vivendo a vida de um artista que mudou o rumo da música brasileira e rompeu diversos padrões de comportamento ao fazer performances ousadas e interpretações únicas do cancioneiro nacional. Basta citar “Rosa de Hiroshima”, “Homem com H”, “Sangue latino”, “Pro dia nascer feliz”, “As rosas não falam”, entre tantos clássicos imortalizados na voz única de Ney Matogrosso. Artista versátil, passeia por vários gêneros musicais (rock, pop, samba) e continua fazendo grandes parcerias ao longo de sua carreira (Roberta Sá, Ana Cañas, Liniker). Na verdade, ele sonhava em ser ator. A música seria apenas uma parte da sua atuação como ator. Cantar não estava nos seus planos, até porque ele achava que sua voz era estranha, como diziam alguns. E foi justamente isso, seu timbre único, que chamou atenção de um maestro em Brasília (o qual é interpretado pelo ator potiguar Marcos França). A partir de então, a vida tomou outro rumo. Afinal, “a pessoa é para o que nasce”, parafraseando o título do documentário de Roberto Berliner sobre as “Ceguinhas de Campina Grande”.

Voltemos ao repertório memorável de Ney Matogrosso. E cada canção tem uma história. Sim, porque tantas vezes os compositores ficam esquecidos, ou sequer são mencionados quando o assunto é interpretação musical, sobretudo quando a música vira um hit de sucesso. Assim, não custa lembrar que “Rosa de Hiroshima” é um poema de Vinicius de Moraes musicado pelo grupo Secos e Molhados, do qual Ney Matogrosso fez parte de 1973 a 1974. Outro clássico imortalizado na voz/performance de Ney Matogrosso é “Homem com H”, um forró de autoria do poeta, cantor e compositor paraibano, Antônio Barros. A música foi inspirada numa fala do personagem Odorico Paraguaçu, da novela “O Bem-Amado”, de Dias Gomes. Inicialmente, ele hesitou em gravar essa música porque achava que seria oportunismo gravar um ritmo nordestino. Felizmente, seu amigo Gonzaguinha o convenceu a gravar esse clássico, pois não havia ninguém melhor que Ney Matogrosso para interpretar aquela música, que fez o LP de 1981 ser o mais vendido da carreira de Ney Matogrosso e lhe rendeu outros méritos.

E por falar em amizade, o filme retrata, com muita delicadeza, entre outras, a relação com Cazuza, com quem viveu um breve e intenso romance. Uma relação que se estendeu até a partida do amigo Caju, como também era conhecido o jovem sensível, impulsivo e irreverente que fez história no rock brasileiro e nos deixou clássicos como “Ideologia”, “O tempo não para”, “Pro dia nascer feliz”. Muito emocionante a cena em que ambos conversam sobre a produção do último show de Cazuza, Ideologia, em 1989, o qual foi dirigido por Ney Matogrosso. O relacionamento de Ney Matogrosso com o médico Marco de Maria, com quem viveu treze anos, também foi retratado no filme com muita delicadeza. Inclusive, foi uma das cenas que tocaram profundamente o artista durante as gravações do filme, conforme ele declarou em entrevistas. Foi uma época difícil. Uma época de incertezas, estigmas, preconceitos, mas o amor parecia indiferente a tudo isso. Ele estava ali e precisava ser visto para além da doença que ceifou tantas vidas e que não deve ser vista como um pecado. A enfermidade nos lembra que somos humanos, que amamos, como disse Ney Matogrosso em uma das cenas, referindo-se aos homossexuais, enquanto conversava com Marco. E não só isso, a doença também chamava a atenção para existência de uma comunidade que precisava ser vista com outros olhos, que precisava ser vista sob o ponto de vista de quem ama. Depois de perder alguns ex-namorados e amigos, inclusive Cazuza, Ney perdeu seu ex-companheiro, de quem cuidou até o fim.

Uma das coisas que me chamaram atenção no comportamento/performance de Ney Matogrosso foi a forma como ele sempre expôs o corpo masculino no palco, mostrando que não existe essa de “coisa de homem”, “coisa de mulher”. Com suas performances ousadas, ele naturalizou o olhar para o corpo masculino. Aliás, gostei muito da forma como as relações homoafetivas são abordadas no filme, com naturalidade, sem falsos pudores, como deveria ser. Afinal, amor é amor e pronto. Como nos ensina Drummond, “Amor foge a dicionários / e a regulamentos vários”. Não importa se é amor entre dois homens, duas mulheres, um homem e uma mulher….

São muitas as cenas comoventes no filme. Uma delas é o reencontro de Ney Matogrosso com pai, este já no leito de morte. Uma cena bonita, profunda. Uma cena que retrata o perdão de um filho incompreendido por seu jeito livre de ser/viver. O filho deixa no passado as vivências traumáticas e decide viver aquele reencontro marcado pelo afeto, pelas memórias da família…

E por falar em memória, o filme “Homem com H” é inspirado no livro “Ney Matogrosso: uma biografia”, de Julio Maria (Companhia das Letras, 2021). Foram cinco anos de pesquisa e quase duzentas entrevistas para dar vida ao livro. Para Caetano Veloso, trata-se de uma “leitura emocionante, Julio Maria vai fundo no retrato do artista que marcou para sempre a vida brasileira”. Não vejo a hora de ler esse livro. Do mesmo autor li a biografia de Elis Regina, “Nada será como antes” (Master Books, 2015).

Quando terminamos de assistir ao filme, fiz questão de ouvir a opinião de Francisco. Quando vi o filme no cinema, na companhia da minha querida amiga Monalisa Medeiros, me peguei lembrando dele em vários, pensando no quanto ele iria gostar dessa ou daquela cena. Eu tinha certeza de que ele ficaria hipnotizado com a atuação de Jesuíta Barbosa. Sua resposta me confirmou isso: “Esse filme merece um Oscar”. Aquela sua declaração me fez lembrar, também, a importância do cinema brasileiro e da recente alegria que vivenciamos com a premiação do Oscar pelo filme “Ainda estou aqui”, de Walter Salles Júnior. Um filme pungente que nos faz lembrar a importância de manter viva a memória de um passado doloroso, traumático. Lembrar para não esquecer.

Outra alegria para os cinéfilos de plantão foi a premiação do filme “O agente secreto”, do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, no Festival de Cannes 2025 (melhor ator e melhor direção). Protagonizado por Wagner Moura, o filme tem no elenco três atores potiguares (Alice Carvalho, Tânia Maria e Kaiony Venâncio). Tudo isso nos faz lembrar a importância de conhecermos histórias como a de Rubens Paiva e a de Ney Matogrosso. Esta última nos faz lembrar alguns temas relevantes: representatividade, liberdade de expressão, liberdade de amar quem quisermos, liberdade de ser quem somos.

No dia seguinte, deparei com uma cena curiosa na internet, a qual reforçou a atualidade da obra de Ney Matogrosso e a importância de um filme sobre sua trajetória. Yago Savalla, um adolescente de 16 anos que vive em Salvador, chamou atenção do próprio artista ao apresentar uma performance de “Homem com H” num evento da escola da rede Salesiano. O vídeo viralizou na internet. É tão bonito ver as pessoas comentando a importância do trabalho de Ney Matogrosso e o quanto ele continua inspirando as novas gerações. A repercussão foi tanta que o jovem foi convidado para desfilar na escola de samba Imperatriz Leopoldinense, que homenageará Ney Matogrosso em 2026. Esse diálogo entre o passado e o presente me fez lembrar uma declaração que li numa matéria da Vogue sobre o filme “Homem com H”: “Ney Matogrosso canta com o corpo, com o olhar, com o silêncio. Ao longo de cinco décadas, transformou palcos em trincheiras de expressão artística, misturando música, teatro, política e desejo como ninguém”. Que Ney continue sendo esse artista único, com seu bandido corazón, sua liberdade, seus caminhos tortos, seu sangue latino…  Que ele continue sendo essa metamorfose ambulante e que seu bloco continue na rua. E que ele leve todo mundo nesse carnaval. Salve Ney Matogrosso!

Andreia Braz

Andreia Braz

Escritora e revisora de textos.

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