É mentira! Eu gosto de fofoca. Tem gente que diz que não gosta de fofoca, mas eu acho que é mentira! Eu não estou falando de gente maledicente, invejosa e ressentida que vibra com os infortúnios dos outros. Que fala coisas para difamar ou degradar, sem medir consequências e, às vezes, até mesmo sem provas. Só pelo simples fato de que gozar da desgraça alheia é a única maneira que elas têm para não encarar suas vidas vazias de sentido. Isso não é fofoca. Isso é maldade.
Eu falo daqueles detalhes da vida alheia que ficamos sabendo e que é absolutamente divertido, improvável, surpreendente, ou até mesmo previsível, dentro das devidas circunstâncias. Mas é, digamos, um tempero da vida! Um momento para você sussurrar ao lado de uma amiga ou amigo aquela informação indiscreta – que não tem nada a ver com sua própria vida – mas, que você mergulha nessa clandestinidade; seja quando você é o interlocutor da fofoca, seja quando você é a pessoa escolhida para ouvir a fofoca. Se tiver um grupo animado conversando perto de você, pode ter certeza de que tem fofoca ali. Eu já fiquei ouvindo a conversa entre duas pessoas sentadas no ônibus. Não lembro de nada! Mas, na hora, foi maravilhoso poder ouvir uma fofoca ainda mais alheia do que as fofocas que pertenceriam a mim mesma e ao meu entorno.
Gente, eu amo uma boa fofoca. Vou dar um exemplo: você nota que coisinha vive implicando com coisinho. E não parece fazer sentido algum, afinal eles dois não têm relação alguma. Aí, de repente, você descobre que coisinha e coisinho já foram casados, em priscas eras. Abre-se um portão de luz à sua frente. Tudo começa a fazer muito mais sentido do que antes. Você se sente até meio inocente diante daquela nova realidade que se mostra diante de você.
Quem nunca desejou ser uma formiguinha para saber o que de fato aconteceu naquele dia, em tal lugar, com tais pessoas ou é hipócrita ou não sabe curtir a vida. Vamos combinar, fofocar é dar uma trégua das próprias tretas; tirar uma folga dos nossos próprios problemas, silenciosamente escondidos das redes sociais. Ergamos as taças! Mas, jamais mostremos as dívidas de cartão! Afinal, só se vive uma vez, não é mesmo?
Quando eu pedi a Serginho para ter uma coluna aqui no PAPO CULTURA, minha proposta para ele foi escrever sobre cinema e psicanálise e reavivar minha verve de cronista. Pois bem, aqui estou! Felicíssima. E vou contar uma fofoca para vocês. E, como boa fofoca, não é sobre mim, claro, é sobre Freud e Jüng, dois ícones da psicologia moderna no mundo ocidental.
Antes de entrar no olho do furacão do babado que eu vou contar, é preciso fazer uma contextualização, como uma boa fofoca pede. Sigmund Freud, “o grande decifrador de enigmas humanos”, segundo seu biógrafo Peter Gay, nasceu em 6 de maio de 1856, numa pequena vila morávia, em Freiberg na Alemanha, filho de Jacob Freud, um vendedor de lãs e sua mãe, dona de casa, Amalia. Seu nome de batismo judaico era Sigismund Schlomo. Mas, já na Universidade de Viena, em 1873, adotou o Sigmund e tirou de cena seu segundo nome, que era o mesmo do avô paterno. E assim, se tornou o conhecido Sigmund Freud. Eu vou falar muito dele por aqui, então vamos ficar só com essas informações por enquanto.
Já Carl Jung nasceu em Kesswil, Turgóvia, Suíça, em 26 de julho de 1875. Freud que se formou em medicina e foi trabalhar em laboratório para estudar o cérebro das anêmonas ou coisa assim (ele é considerado um dos desbravadores da neurologia moderna, antes de inventar a Psicanálise). Porém, trocando em miúdos, ele ficou bastante entediado e resolveu dar uma volta na França e ver o que o médico neurologista Jean-Martin Charcot andava estudando sobre os sintomas das histéricas. E foi lá que ele percebeu que o método hipnótico que Charcot usava nas mulheres que sofriam de males indecifráveis clinicamente surtia menos efeito no alívio de seus sintomas, do que quando ele (Freud, um mero estagiário) deixava que elas falassem livremente. Foi um bafafá na época, porque Freud botou o inconsciente na frente da razão e disse que o rei não era soberano em seu próprio lar. Ou seja, que a razão não comanda nossa vida e sim nossos desejos inconscientes. Foi assim que nasceu a psicanálise.
Passados alguns anos, o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, que era 19 anos mais novo que seu mestre, caiu nas graças das já propaladas teorias psicanalíticas de Freud e o procurou. Freud encantado com as ideias do psiquiatra, passou a considerá-lo seu herdeiro mais fecundo. Mas, deu treta. Jung resolveu inventar uma história de inconsciente coletivo. Freud não gostou, afirmando que a psicanálise (muito embora tenha feito leituras do social também, haja vista os livros Totem e Tabu; Moisés e o Monoteísmo e Mal-estar na Cultura) era uma ciência que se debruçava sobremaneira na escuta do inconsciente do sujeito, único e singular, etcétera, etcétera. E, assim, eles romperam e cada um foi para o seu lado. Freud seguiu com sua metapsicologia na qual chamava de Psicanálise e Jung inventou a psicologia analítica.
Porém, essa é a história oficial. Na verdade, é que tinham outras coisas acontecendo nos bastidores. Para início de conversa, Freud era pobre, já Jung era casado com uma moça rica. Quando Freud e sua comitiva foram para os EUA apresentar para os médicos daquele país, as “Cinco lições em Psicanálise”, o pai da psicanálise ficou na segunda classe. Jung, sozinho, na primeira. Não bastasse essa discrepância financeira, seu Carl Jung era namorador. E acabou se envolvendo com uma paciente. Que quase pirou! E isso é absolutamente antiético e Freud teve que interceder e… tirem vocês as suas próprias conclusões.
Pois bem, essa é uma das inúmeras fofocas de bastidor do mundo científico psicanalítico. Sem falar no sociológico e no jornalístico, valha-me Deus, melhor deixar para lá, porque eu também não vou fazer daqui uma coluna de fofoca. Não tenho esse talento.
Mas acho que estreei na coluna. Porque, já que a vida é tão rara, breve e única, por que não gastarmos uma parcela do nosso tempinho aqui na terra com uma boa fofoca? Agora, que fique claro, se você for daquelas pessoas que gostam de fofoca, então aceita que sua vida também pode ser a porção divertida da fofoca de alguém! Não nos enganemos, todo mundo fofoca! Inclusive da sua vida.
