O filme Sem Destino (Easy Rider), de 1969, exalta a contracultura, trazendo dois jovens que se rebelam contra o sistema, curtem ficar chapados e pegam a estrada para conhecer a América como ela é de fato. No entanto, perto do fim da jornada, um deles cai na real de que eles falharam, que a liberdade é ilusória e que estão prestes a se tornar o que mais desprezam. Porém, eles ainda exteriorizam os estereótipos da nova geração, da mudança que os agentes conservadores caretas temem e, por isso, são exterminados.
Há um filme não muito conhecido, mas que se tornou cult nos anos 2000, que faz um contraponto excelente a Sem Destino, trazendo como protagonista os ditos “inimigos” dos hippies, os policiais. O filme é A Polícia da Estrada (Electra Glide in Blue), lançado mundialmente no Festival de Cannes de 1973, projeto do produtor musical do grupo Chicago, James William Guercio, que assina como diretor e produtor, acertando a mão de primeira (mas, infelizmente, esse foi seu único filme).
Em A Polícia da Estrada, o protagonista é um policial baixinho, marrento e ambicioso, chamado John Wintergreen, que patrulha as rodovias do Arizona. Sendo ex-fuzileiro naval e veterano do Vietnã, ele é um sujeito extremamente correto, e não se deixa corromper. Apesar de fazer seu trabalho com eficiência, seu sonho é deixar a patrulha de moto na estrada para ser detetive da Homicídios. Ele não gosta muito dos hippies, tanto que no estande de tiro usa uma foto do Wyatt e do Billy como alvo, mas não chega a ver os hippies como ameaça, que é a forma como seu colega Zipper os enxerga, por isso não perde a oportunidade de metê-los em encrenca. O interessante é que Zipper, da mesma forma que o Billy, em Sem Destino, aparenta ser o mais descolado, gosta de ler HQs, de motos, e de fazer uma boquinha durante o expediente. John tem o colega em alta consideração, que parece ser seu único amigo. No entanto, o mundo de Big John cai quando descobre que seus colegas abusam do poder e se deixaram corromper. Embora se sinta deslocado, ele continua na polícia porque quer fazer a diferença, mas aí, os hippies que de tanto se ferrarem nas mãos dos colegas de John, vão entender que ele é igual e, num paralelo com o final de Sem Destino, terminam matando John com um tiro de espingarda. Assim, os hippies matam não o John, mas o “inimigo de farda careta”, que quer tolher a liberdade deles.
Da mesma forma que Sem Destino, A Polícia da Estrada é um drama com narrativa crítica e poética, priorizando estudos de personagens, iniciando com um prólogo, e onde as motos têm destaque não só como símbolo fálico, mas representam cada um dos grupos retratados: as choppers estilosas, seus motoqueiros chapados; as Harley-Davidson (modelo Electra Glide), a polícia.
E se Sem Destino tem László Kovács como diretor de fotografia, Guercio não mediu esforços para trazer à A Polícia da Estrada, o veterano Conrad Hall (vencedor do Oscar por Butch Cassidy, e nomeado por Os Profissionais, dois baita westerns). E tanto Kovács quanto Hall vão encher de beleza cada frame onde o Monument Valley aparece como cenário.
A trilha sonora de A Polícia da Estrada também vale ser mencionada, embora seja bem mais humilde do que a de Sem Destino. A banda Chicago não se apresentou como tal na trilha, mas vários membros tocaram na orquestra que gravou a música Tell Me, por exemplo, composta pelo lendário guitarrista Larry Kath (que tem uma ponta importante no filme) e pelo próprio Guercio. O doo-wop também aparece com The Marcels cantando Most of All, pinçada do álbum Blue Moon, de 1961, na cena em que Jonh está radiante, experimentando as botas e o terno que irá usar, porque conseguiu ser “assistente” do detetive Harve, fazendo uma brincadeira com a letra romântica da música. Free from the Devil, é a música tocada ao vivo no show da banda Madura, cujo trecho aparece no filme. O site Karry Kath.com informa que a trilha de A Polícia da Estrada é “rara e um achado e tanto para colecionadores”.
Vale ainda dizer que Guercio trouxe outros músicos do Chicago para participações especiais, como o vocalista Peter Cetera, o saxofonista Walter Parazaider, o trompetista Lee Loughnane e o tecladista David “Hawk” Wolinski. Ah, e quem também dá as caras como coadjuvante é um dos rostos mais tarimbados do noir, o Elisha Cook Jr.
Decorridos 53 anos do lançamento de A Polícia da Estrada, o verso da música Tell Me ainda ecoa, mais melancólico do que nunca, nesses tempos de impropérios de Donald Trump, clamando um urgente pedido de socorro: God Bless America today.
