Já em terceira edição revista e ampliada, Literatura do Rio Grande do Norte, antologia organizada por Diva Cunha e Constância Lima Duarte, representa um marco na preservação e difusão da produção literária potiguar. Com mais de 700 páginas, a obra reúne perfis biobibliográficos e textos de escritores que, desde o período colonial até a contemporaneidade (século XX), construíram o panorama literário do estado. Trata-se de um trabalho de fôlego que, ao mesmo tempo em que preserva a memória, oferece ao pesquisador, estudante ou leitor comum um retrato abrangente da riqueza e diversidade da literatura produzida em solo norte-rio-grandense.
As organizadoras têm trajetórias que se complementam. Diva Cunha é poeta, ensaísta e professora aposentada da UFRN e UNP, ocupa a cadeira nº 30 da Academia Norte-rio-grandense de Letras. Ao longo de sua carreira, publicou obras poéticas e organizou antologias que documentam e valorizam a produção feminina. Constância Lima Duarte, por sua vez, é professora e pesquisadora reconhecida pela dedicação à literatura produzida por mulheres e pela recuperação de figuras históricas, como Nísia Floresta. Com sólida atuação acadêmica na UFRN e na UFMG, Constância Lima Duarte tem se destacado como voz importante na crítica e na historiografia literária.
A estrutura da antologia em foco reflete um evidente cuidado metodológico. Para cada autor selecionado, apresenta-se uma nota biográfica acompanhada de referências bibliográficas e de um conjunto de textos que melhor representam sua contribuição. O recorte é amplo, abrangendo poesia, prosa de ficção, crônicas e cartas, o que permite ao leitor compreender a variedade de gêneros cultivados no estado. Essa metodologia não apenas contextualiza o autor, mas também proporciona uma leitura direta de sua obra, favorecendo o diálogo entre a crítica e a criação literária.
Mais do que uma compilação, Literatura do Rio Grande do Norte: Antologia constitui-se em instrumento de formação e preservação de memória. Ao reunir autores de diferentes épocas, estilos e origens, constrói um mosaico representativo da cultura literária potiguar. Em especial, destaca-se a presença de escritoras, revelando o protagonismo feminino na história literária local — um aspecto coerente com a trajetória das organizadoras. Essa dimensão de gênero e diversidade reforça a importância do livro não apenas como registro histórico, mas como um manifesto de reconhecimento da pluralidade de vozes que compõem a literatura produzida no Rio Grande do Norte
A antologia de Diva Cunha e Constância Lima Duarte permanece como referência fundamental para compreender e valorizar a literatura produzida no Rio Grande do Norte. Contudo, caro leitor, em um trabalho desse porte, evidentemente, teriam de ser observadas, pelos olhares mais atentos, algumas omissões, e, infelizmente, alguns erros, que, nesse caso, poderíamos até dizer, inadmissíveis, tendo em vista a vasta experiencia das autoras, e levando em conta que o trabalho passou por ampla revisão.
O nosso intuito não é criticar um trabalho dessa relevância, é sim esclarecer, opinar, já que também gostamos do assunto e somos admiradores das autoras e de seus livros. Queremos fazer com que o leitor, que vá utilizar o trabalho, tenha um conhecimento mais amplo sobre o tema.
No ensaio introdutório da Literatura do Rio Grande do Norte, no qual as pesquisadoras se propõem a fazer um balanço da historiografia literária potiguar até os dias atuais, observa-se uma falha gritante. Elas omitem livros importantes que debatem sobre a temática, como As 14 Mais da Poesia Potiguar (Sebo Vermelho, 2007) de Abimael Silva, Uns Potiguares (Sarau das Letras, 2012) de Nelson Patriota; Literatura do RN – Livros Selecionados (Sebo Vermelho, 2015) de Anchieta Fernandes; e Alguns Livros Potiguares (CJA Edições, 2014) de Chumbo Pinheiro. Todas essas obras, tratam da literatura norte-rio-grandense, do passado e do presente. Considerando que as autoras de Literatura do Rio Grande do Norte citaram publicações contemporâneas, como Presença da Mulher na Literatura Potiguar, de Zelma Furtado e Kacianni Ferreira e antologia poética Lua Cheia da SPVA, seria justo — e até necessário — que lembrassem também dos títulos mencionados.
Nelson e Anchieta foram alguns dos nossos principais críticos literários durante anos. Não entendemos qual critério as faz citar a antologia da SPVA, e não citam nenhuma das coletâneas organizadas pela UBE- RN, por exemplo. Outra surpresa negativa, as autoras não fazem nenhuma menção, não citam em lugar nenhum do livro, o trabalho do crítico literário paraibano, Hildeberto Barbosa Filho, autor de um livro exclusivamente sobre escritores potiguares, O Galo da Torre (Edufrn, 2005). Deveria ser motivo de orgulho para nós, autores potiguares, sermos estudados por um crítico literário com um olhar de fora do estado. Notamos, também, que a Enciclopédia da Literatura Brasileira (2001), de Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza, da qual constam vários antologiados, é ignorada.
Outro ponto problemático da introdução feita pelas pesquisadoras: apesar de citarem a coletânea de poemas Quarenta em Quarentena (2020), do pesquisador mossoroense Thiago Jeferson Galdino, deixaram de mencionar a principal contribuição do autor para as nossas letras: uma coletânea de contos inéditos, Novos Contos Potiguares (CJA Edições, 2017). Esta obra é bastante representativa do conto contemporâneo produzido no Rio Grande do Norte, abrangendo nomes veteranos como Tarcísio Gurgel, Manoel Onofre Jr. Francisco Sobreira e Nei Leandro de Castro, e novos como Cellina Muniz, Márcio Benjamin, Aldo Lopes de Araújo e Carlos Fialho.
Ainda no ensaio introdutório, há um equívoco no tratamento da geração do Poema-Processo. Embora as autoras reconheçam com justiça nomes como Falves Silva, Moacy Cirne, Jarbas Martins e Nei Leandro, incluem, de forma descabida, J. Medeiros como integrante originário do movimento. Tal afirmação é insustentável, já que, à época do Poema-Processo, J. Medeiros tinha apenas nove anos de idade. O que se pode dizer, no máximo, é que ele se tornou um herdeiro dessa vanguarda.
Constatamos que as autoras demonstram, ao longo da obra, falta de conhecimento de livros da nossa autoria, como, por exemplo, Presença do Negro na Literatura Potiguar e Outros Ensaios (CJA, 2014), Os Grão- Ensaios sobre Literatura Potiguar Contemporânea (Sarau das Letras, 2018), A Casa das Letras (2021) (sobre acadêmicos literatos) e, principalmente Literatura Afro no Rio Grande do Norte (2021). Todos esses livros abrangem nomes do passado e do presente das nossas letras e poderiam também ser citados na atualização delas. Não vamos nem questionar outros também de nossa autoria, como A Arte Poética de Diógenes da Cunha Lima- antologia (CJA, 2015) e Impressões Digitais-Escritores Potiguares Contemporâneos (Livro com entrevistas, em três volumes, contendo nomes que vão de Dorian Gray Caldas, Iracema Macedo até Regina Azevedo). Esses trabalhos não seriam também literatura contemporânea do Rio Grande do Norte? O apagamento torna-se ainda mais grave quando não se registra o livro No Rancho dos Bentinhos e Outros Contos (2014), organizado por nós, em parceria com o Sebo Vermelho, obra que resgata o que o escritor Afonso Bezerra tem de melhor, e representa uma contribuição fundamental da ficção de Bezerra à literatura do estado. O trabalho não é citado sequer nas referências. Passaram despercebidas das autoras também as biografias de Homero Homem, Newton Navarro e Berilo Wanderley, feitas por Alexis Peixoto, Sheyla Azevedo e Gustavo Sobral, respectivamente.
Reiteramos que distinguimos o alto valor do Literatura do Rio Grande do Norte para os estudos literários potiguares. No entanto, não podemos deixar de apontar falhas que, considerando-se o nível e a trajetória das pesquisadoras responsáveis pela antologia, não deveriam ter passado despercebidas.
Quando folheamos o sumário do livro em foco, percebemos ainda uma ausência que já havia sido notada desde a edição de 2001: a exclusão de Gothardo Neto. Não há justificativa plausível para a omissão de um dos mais importantes poetas da fase pós-romântica, como definiu o pesquisador Humberto Hermenegildo. Por sinal, vários livros de Humberto Hermenegildo, uma das nossas maiores autoridades, quando o assunto é literatura do RN, também não foram mencionados no ensaio introdutório: Modernismo: anos 20 no Rio Grande do Norte, Asas de Sófia: Ensaios Cascudianos, Melhores Crônicas – Luís da Câmara Cascudo, organizado por ele. Também foram esquecidas obras de Manoel Onofre Jr., como as antologias Poesia Viva de Natal, Humor no Conto Potiguar e o livro de ensaios Alguma Prata da Casa, além da coletânea, organizada por Racine Santos, Um Passeio na Quarentena, obras que tratam diretamente da literatura potiguar.
Mas voltando a Gothardo Neto, alguns poderiam argumentar que ele foi excluído por falta de acesso ao seu livro Folhas Mortas. No entanto, tal justificativa não se sustenta, pois há inúmeros poemas do autor dispersos em antologias e coletâneas que poderiam ser usados. Ademais, outros escritores com obras praticamente inacessíveis, como Luís Carlos Lins Wanderley, foram incluídos na antologia.
Por falar mais uma vez em exclusões, nomes como Iaperi Araújo, Racine Santos, Clotilde Tavares, João Batista de Morais Neto, Carlos de Souza, Anchella Monte, Moacyr de Góes e Rubem G. Nunes, mereciam figurar em Literatura do Rio Grande do Norte, pois já possuíam, no século XX, obras de inegável valor. Em contrapartida, foram incluídos autores que estavam apenas começando, na época, como Eli Celso e Iracema Macedo.
É certo que, mesmo considerando a possibilidade de escolhas pautadas por um gosto pessoal, há falhas que não podem ser relativizadas. Como incluir Dailor Varela numa antologia desse porte e deixar de fora Anchieta Fernandes? Como incluir Maria Sylvia, com uma literatura inferior à do pai, Martins de Vasconcelos?
Gosto é gosto, você vai dizer, caro leitor, mas numa antologia como essa, deveriam ser levados em conta determinados critérios estéticos.
Alguns outros erros precisam ser corrigidos. Um dos mais graves encontra-se no verbete dedicado a Nei Leandro de Castro, no qual as autoras afirmam equivocadamente que As Pelejas de Ojuara é “a saga da família Araújo”, uma verdadeira distorção do conteúdo do romance. Outro erro se acha no verbete sobre Polycarpo Feitosa, em que um comentário do crítico literário João Ribeiro sobre o romance Gizinha é atribuído ao livro Quase Romance, Quase Memória.
Na página dedicada a Henrique Castriciano as autoras colocam na bibliografia do autor um romance, inacabado, de nome Physico. Está errado; o nome correto é Phtysico. Segundo Câmara Cascudo, Castriciano, em 1899, anunciava O Tísico, romance que ficou inacabado. Outro pequeno lapso: no verbete sobre Cascudo, consta que a ANRL “iniciou as atividades em 1937”, mas é notório que foi em 1936.
Bem, feita essas ressalvas, reconhecemos, como já dito, a importância de um livro como Literatura do Rio Grande do Norte, contudo, esperamos que, oportunamente, sejam feitos ajustes, que só iriam melhorar a qualidade do trabalho.
A obra contou com patrocínio do Café Santa Clara, amparado na Lei Câmara Cascudo -FJA e editada pelo Sebo Vermelho, que merecia, no ano em que comemora seu quadragésimo aniversário, tê-la em seu catálogo, por tudo que o editor Abimael Silva já fez pela literatura potiguar.

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[…] artigo no Jornal de fato e no blog Papo Cultura, o escritor Thiago Gonzaga analisou a obra, dizendo da sua importância e apontando vários […]
Em primeiro lugar, concordo com o sr., Thiago Gonzaga: a crítica realmente é necessária ao amadurecimento. No entanto, nesta provinciana terra brasílica, onde, ao lado de medíocres diplomados e bibliófilos analfabetos por opção, impera um grande espírito narcísico, que dá margem para que a menor crítica seja lida como o maior insulto. Escritores (e artistas de modo geral) são intocáveis e ao publicarem (ao porem algo a serviço do público, como bem nos lembra a etimologia) não querem ouvir comentários negativos sobre o que fizeram (e aqui refiro-me às justas opiniões). Neste sentido, seu texto também é passível de críticas: toda antologia é um recorte, e comentar a ausência disso e daquilo não é lá a empresa mais frutífera (embora eu muito lamente a ausência do grande Adriano de Sousa, que em 1998 lançava o seu “flô” e com ele inauguraria em brochuras o seu seu inteligente percurso ácido & antilírico. Se estão Iracema Macedo e Eli Celso, a ausência de Adriano, que tem uma trajetória mimeográfica pregressa, é uma falha e tanto. Mas as professoras precisavam de um recorte, afinal, uma antologia é uma seleção crítica (embora possamos concordar ou não com essa seleção) e não um apanhado generalista e sem critérios de todos os poetas, versejadores, ficcionistas e alfabetizados que produzimos até aqui. Creio que a edição peca em muitos aspectos, a começar pela capa, de gosto duvidoso, mas eleger como cerne da crítica ausências e faltas é ganir para uma tela que exibe um filme já muitas vezes assistido, um filme sem graça, diga-se de passagem. No mais, sr. Thiago, louvo sua iniciativa. Espero ver mais textos críticos seus e de outros aqui neste portal. Nesta época, precisamos desse debate crítico sobre muitas coisas, precisamos oxigenar as ideias. Creio que a crítica é um interessante caminho para que nos salvemos das armadilhas de nosso tempo, ao permitir que construamos pontes sem que estas sejam frutos exclusivamente de iniciativas unilaterais.
Por outro lado, pelo visto, a chamada literatura infantil (prefiro literatura para crianças) e também para adolescentes (infantojuvenil) também não foi contemplada. Nomes como de Salizete Freire Soares, Jania Souza, Tereza Custódio, Eliete Marry, Junior Dalberto, Drika Duarte, Manoel Cavalcante, Marcos Medeiros, Antonio Francisco, Clotilde Tavares, Bia Madruga, dentre tantos outros nomes poderiam ter sido lembrados. É uma pena que a literatura para crianças não seja mencionada, pois as obras têm o condão de iniciar os pequenos leitores de hoje e de amanhã.
Parabéns Dr. Thiago Gonzaga, uma crítica fundamentada e que certamente será parte da história analítica literária.