Potiguar Khrystal recebe elogio”rasgado” de Caetano Veloso

Lá pelas bandas do Sudeste uma potiguar tem se sobressaído aos olhos do tropicalista Caetano Veloso. No último sábado, o baiano enalteceu o trabalho da cantora, compositora e musicista potiguar Khrystal no musical Elza, em homenagem à cantora Elza Soares, hoje com seus 88 anos de tantos histórias e um CD recente lançado. O texto foi publicado em sua página no facebook e, ao fim da manhã desta quarta-feira (29), alcançava 1,7 mil curtidas, 110 comentários e 293 compartilhamentos.

O musical biográfico Elza é escrito por Vinícius Calderoni (de “Ãrrã”), dirigido por Duda Maia (de “Auê”) e conta com direção musical de Pedro Luiz. Foca na história de resistência e superação da moça nascida na favela de Moça Bonita, no Rio de Janeiro. E história não falta. Elza Soares passou fome na infância, foi obrigada a casar com um desconhecido na adolescência, teve dois filhos mortos, sofreu violência doméstica com marido alcoólatra, viuvez, preconceito, racismo, machismo…

E entre as sete atrizes que sobem ao palco, está nossa Khrystal, que ganhou o país no The Voice Brasil com a interpretação de A Carne, canção famosa na interpretação de Elza Soares. Além de Khrystal, estão no elenco Janamô, Júlia Dias, Késia Estácio (de “Bossa Nova em Concerto”), Laís Lacôrte e Verônica Bonfim (de “Tropicalistas – O Musical”). Mas basta correr a vista pelas críticas ao musical na net e todos elogiam a presença Khrystalina da voz potiguar.

E com Caetano não foi diferente. No texto postado, ele afirma: “#Khrystal tem dicção diamante de Natal (e como canta!)”

Segue abaixo o texto na íntegra de Caetano Veloso:

Fui ver Musical Elza com sete atrizes e uma banda toda formada por mulheres. Fiquei emocionado demais a partir da canção de Chico Buarque, aquela que diz “O sol ensolarará a estrada dela”. Sempre me espalho pelo espaço infinito quando ouço, leio ou penso esse verso. Mas ali a emoção começou bem antes da frase chegar: Chico é a coisa mais intensa que há em nossa canção. Fazia tempo que eu não ouvia esse samba e às primeiras palavras e notas eu já estava chorando.

Na verdade, nem pude me preparar para a chegada do verso, nem pude me lembrar de que ele viria. Dali em diante, tudo o que de cara parecia ser bom no espetáculo – as moças escolhidas, o fato de só uma delas imitar voz e trejeitos de Elza Soares, a firmeza da banda, a oportunidade dos efeitos de luz – tornou-se transcendental para mim.

Quando Késia Estácio acabou de cantar Dindi eu dei um grito involuntário. Larissa Luz, baiana que eu conhecia e não reconheci, é a única que reproduz a voz e o sotaque corporal de Elza – minuciosamente observados em vídeos e reproduzidos com fidelidade mesmo que a atriz/cantora deixe que se perceba o trabalho: é uma baiana falando carioca. Esse retrato figurativo se torna ainda mais belo pelo contraste com as outras seis Elzas: estas têm sotaques do extremo nordeste, da Bahia, de minas, do Rio.

#Khrystal tem dicção diamante de Natal (e como canta!); #JuliaDias, #LaislaCorte e Janamô são mineiras (em música, ser de Minas já diz tudo); Verônica Bonfim é baiana, como Larissa, e tem o que a baiana tem. Késia é a única carioca! Todas cantam, falam e se movem bonito. A banda, toda formada por mulheres, é perfeita. Queria falar mais, mas não sei quem é quem. Todas são ótimas: Antônia Adnet, Georgia Camara, Guta Menezes, Neila Kadhí, Marfa e Priscilla Azevedo. A trompetista surpreende com um solo jazzístico de primeira.

Amo tanto Pedro Luiz quanto Letieris Leite: não sei a quem agradecer mais pela qualidade dos arranjos. Vi tudo isso com as lágrimas de “Dura na queda” ainda nos olhos. Vinicius Calderoni Duda Maia foram tocados pelo divino. A mulher brasileira, o povo negro brasileiro, o músico brasileiro estão vingados. Pode-se até crer em bom futuro. Não é brincadeira!

About The Author: Sérgio Vilar

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

Comentários

  • Reply Sônia Oliveira

    Torcendo para que o Show Elza venha para cá. Adorei seu blog

    • Sérgio Vilar
      Reply Sérgio Vilar

      Obrigado, Sonia! Estamos juntos na torcida rs

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