KALLIANE AMORIM

Da poesia despojada da “mossoroense” Kalliane Amorim

Thiago Gonzaga31 de outubro de 2019Literatura, Opinião, Artigos e Crônicas, Image

Nascida em Umarizal, a poeta e escritora, Kalliane Amorim, considera-se mossoroense por adoção. Autora de três livros de poemas: Outonos (2003), Exercício de Silêncio (2007) e Relicário (2015), atua profissionalmente como professora de Língua Portuguesa e Literatura (Ensino Básico, Técnico e Tecnológico) do IFRN – Campus Apodi. Kalliane fez mestrado em Letras, pela UERN e participa do Conselho Editorial da Sarau das Letras. Em breve a escritora lançará mais um livro, intitulado Peregrina.
Tivemos oportunidade de publicar no livro Os Grãos – Ensaios Sobre Literatura Potiguar Contemporânea (2015) um breve registro sobre o seu trabalho poético, como vemos a seguir:

Outra surpresa agradável é o lançamento do livro Relicário (Sarau das Letras, 2015), de Kalliane Amorim. Embora o título pareça clichê, a autora trabalha com as palavras de maneira consciente, demonstrando domínio da apropriada arte de escrever poemas. Interpretar alguns dos poemas de Kalliane é trazer para a consciência a paradoxal dificuldade de explicar as coisas simples. O caminho possível é, sempre, atentar para a produção de uma linguagem que nasce a partir de sua necessidade, a necessidade de expressar o essencial.

Kalliane Amorim é uma poeta, de versos despojados, acessível, quase sempre direta, algumas vezes hermética, outras memorialista. Sua proposta é relatar, sobretudo, os fatos cotidianos, lembranças, medos, desejos, além da própria arte do fazer poético, a metapoesia. Tais elementos transfiguram-se de tal modo em sua experiência poética que parecem brotar do mesmo chão e serem feitos do mesmo material. Esse procedimento, que é próprio da linguagem poética, acaba prendendo o leitor e fazendo com que este enverede pelos versos bem trabalhados da poeta.

A consciência de linguagem de Kalliane Amorim demonstra claramente o exercício constante da leitura e o desejo de se exprimir trabalhando formalmente as palavras.

Vejamos um poema do referido livro:

Arbítrio

Quantas ruas
ouvirão o som dos meus passos?

Quantos telhados
acordarão sobre os meus olhos ?

Quantas palavras
dormirão à minha espera?

Vivo morrendo
de não ser
sendo.

Existe aí toda uma arrumação vocabular e exploração dos significados, tudo de maneira clara, objetiva, para expressar uma evidente paixão, não apenas uma paixão pela vida, mas, sobretudo, pelas palavras, pelo fazer poético. É esse processo que faz de Relicário uma obra genuinamente literária.

Kalliane Amorim nos concedeu, em 2015, uma entrevista para o livro Impressões Digitais – Escritores Potiguares Contemporâneos, Vol. 3, último trabalho de uma série de entrevistas que fizemos com mais de cem escritores potiguares.

A seguir selecionamos alguns momentos dessa entrevista.

Kalliane Amorim onde você nasceu? Fale-nos um pouco de como foi sua infância e juventude.

Kalliane Amorim – Nasci no município de Umarizal, no Alto-Oeste potiguar, em 1982, mas sempre residi em Mossoró. Minha infância foi vivenciada nessas duas cidades: passava o ano escolar em Mossoró e, nas férias, viajava para Umarizal, porém não ficava exatamente na cidade, e sim na fazenda onde meus avós maternos moravam, a Camponesa. É de lá que trago as melhores memórias de infância, pois vivia em contato com a natureza, tomando banho de açude, brincando de tique no terreiro, acordando cedo para ver meu tio e meu avô irem tirar leite das vacas, ou seja, vivendo uma infância extremamente saudável. Depois que meus avós faleceram, em 2003, só voltei à Camponesa duas vezes, e, como diz Rubem Alves, é uma tolice voltarmos aos lugares que nos marcaram esperando encontrá-los como foram, pois o que existe é a saudade de um tempo que ficou na memória. Então é o que procuro preservar, tanto que alguns dos poemas de meu novo livro – Relicário – falam dessas lembranças.

Como surgiu especificamente seu interesse pela poesia?

Aconteceu de forma natural, uma vez que sempre fui interessada pela leitura. Mas houve um dia, exatamente, que posso definir como “o dia” em que percebi que poderia me expressar por meio da poesia. Foi na escola, numa aula de Língua Portuguesa, em que a professora pediu que escrevêssemos um pequeno poema. Quando ela leu meu texto, disse-me que tinha talento para os versos. Depois disso, comecei a comprar uns caderninhos para registrar esses pequenos poemas que escrevia – a maioria perdeu-se, infelizmente. Era um tempo em que eu frequentava assiduamente a Biblioteca Municipal para ler, colecionar textos de escritores diversos e escrever os meus também. Então, foi esse olhar da professora que me acordou, digamos assim, para o mundo da poesia de tal forma que, hoje, também leciono Língua Portuguesa e simplesmente amo trabalhar com literatura, especialmente no sentido de despertar em meus alunos o interesse pelos livros, o encantamento com a linguagem metaforizada da literatura e o modo como os textos literários representam a vida e as vivências humanas.

Fale-nos um pouco da sua estreia em livro, com Outonos.

Outonos foi a minha primeira publicação. Editada pela Fundação Vingt-un Rosado, faz parte da Coleção Mossoroense e foi publicada em 2003. Traz os poemas iniciais da minha experiência como escritora, poemas nascidos durante a época em que cursava Letras na UERN, alguns dedicados a amigos, outros a pessoas de meu convívio, mas todos refletindo, de certo modo, um olhar atento ao mundo, aos pequenos detalhes por vezes desapercebidos na rotina. A passagem do tempo e uma discreta melancolia podem ser observadas na obra, além da reflexão sobre o sentido da vida. É um livro muito estimado por mim, por ser o primeiro, porém acredito que ali estava o embrião do que hoje costumo escrever. Hoje, vejo minha escrita mais amadurecida, porque o tempo “imprimiu em mim suas feições”, como disse em certo poema. É natural que seja assim, não é?

Kalliane, o seu processo de criação, como acontece? Poesia para você é inspiração ou transpiração?

Não sou uma profissional da poesia, no sentido de que não escrevo por obrigação, não costumo ter um horário específico e uma rotina estabelecida para o exercício da escrita. Escrevo quando vem a chamada inspiração, que, para mim, se traduz na capacidade de percepção do que há ao meu redor, do olhar que deito sobre o mundo que me cerca. Creio que inspiração é isso, é a maneira de observarmos o que está à nossa volta, é estarmos atentos aos detalhes que muitas vezes a rotina nos impede de enxergar. Após esse olhar, vem o trabalho com as palavras, porque poesia não é só um estado de espírito ou fruto de uma inspiração ou de sentimentalismos. Poesia é trabalho árduo com as palavras. Daí a importância de ler, de conhecer os íntimos das palavras, seu ritmo, sua sonoridade, sua estrutura fonética, para oferecer aos leitores um texto com qualidade. Se há algo que me encanta na poesia, e na literatura de um modo geral, é essa capacidade dos autores de brincar com os sons e os sentidos das palavras, imprimindo musicalidade aos textos e possibilitando ao leitor despertar a sua consciência linguística e sua forma de ver o mundo e as pessoas.

Você publicou outro trabalho poético, Exercício de Silêncio. Nos fale um pouco dessa obra, alguma semelhança com a anterior?

Exercício de Silêncio, lançado em 2007 pela editora Queima-Bucha, é, como falei anteriormente, um livro mais amadurecido, cujas temáticas se voltam para a descoberta e a experiência do amor. O título expressa exatamente essa ideia de que é no silêncio que se descobre o sentido do amor. Há muitas referências a elementos da natureza que simbolizam a ideia de transitoriedade, de transformação e de silêncio, como uma forma de indicar ao leitor o caminho por onde a sensibilidade passa. Particularmente, aprecio muito o silêncio, é nele que consigo me encontrar e pensar sobre mim mesma, sobre os acontecimentos, sobre as pessoas e as coisas que me tocam. No entanto, vive-se hoje num mundo muito barulhento, não me refiro apenas ao barulho audível, mas a essa inquietação da modernidade que não deixa as pessoas sossegarem sequer para ouvir o que diz o silêncio. Meu livro é uma tentativa de mostrar que o silêncio é um excelente companheiro.

Para você o que significa escrever?

Escrever, para mim, é uma maneira de me revelar a mim mesma e, quem sabe, revelar os outros a si mesmos. Quando termino de escrever um poema, às vezes me ocorre um estranhamento, como se eu me questionasse se aquele discurso era meu mesmo, ou de um outro eu – o eu lírico. Escrever é sempre uma aventura, um grande trabalho e uma responsabilidade também, porque não acredito que se pode oferecer qualquer coisa ao leitor, é preciso respeitar quem lê.

Hoje em dia com a internet e as mídias sociais, o escritor pode chegar mais perto do leitor?

Sim, acredito nisso, e é muito bom para quem tem uma certa regularidade na escrita e consegue manter uma página na Internet (o que não é meu caso, até já tentei manter um blog, mas acabo sempre deixando de lado em virtude de outros compromissos). Hoje existem muitas possibilidades de trabalhar o texto literário junto com outras linguagens, com o audiovisual, por exemplo, ou transformar textos em canções e recitais, enfim, são múltiplas possibilidades ao nosso dispor.

Quem é a poeta Kalliane Sibelli de Amorim Oliveira?

Uma pessoa simples, que gosta de livros, pássaros, plantas, conversas e culinária. Uma pessoa que depois da maternidade consegue viver melhor o que o dia tem a oferecer, que nunca se imaginou sendo mãe e que agora se vê abobalhada curtindo o filho. Uma professora que ama seu trabalho e procura fazê-lo da melhor forma possível. Uma poeta mais de alma que de palavras. Acho que isso já me define.

Sobre o autor

Thiago Gonzaga

Pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros.

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