“ENTRE FACAS, ALGODÃO”
Acabo de ler o romance “Entre facas, algodão”, de João Almino. (Rio de Janeiro: Record, 2017). Do autor eu já havia lido, há tempos, apenas um livro, “As cinco estações do amor”, obra de alta qualidade literária, que, no entanto, não me causou maior impressão. Daí a minha surpresa, logo às primeiras páginas desse “Entre facas, algodão”, em face de algo que me encanta e entusiasma. Prazerosamente, fico preso à leitura, não quero deixá-la de lado em momento algum. E aos poucos embrenho-me na narrativa, acompanhando a historia de um homem comum – o narrador -, já no limiar da terceira idade, que resolve dar uma reviravolta em sua vida, e parte em busca do tempo perdido, deixando mulher, filhos e tudo mais de sua rotina urbana, na ânsia de voltar às raízes telúricas, feito agricultor, plantador de algodão. essa pequena odisseia tem desfecho surpreendente, sobremodo dramático, em que surgem até mesmo uns lances folhetinescos, com assassinato, incesto, etc. Importa, porém, atentar para a forma como tudo isso é expresso, tornando-se pura arte da palavra: a linguagem fluente e clara não desperdiça palavras; a escrita parece passada a limpo. João Almino assemelha-se aqueles escritores “magros”, aos quais se refere José Lins do Rego, pitorescamente, em seu 1i-vro “gordos e magros”. Assim como a linguagem, outros elementos, do ponto de vista formal (cuja análise não cabe numa simples nota) fazem de “Entre facas, algodão” verdadeira culminância da Ficção brasileira contemporânea.
JOÃO ALMINO
Escritor e diplomata (aposentado), João Almino nasceu e se criou em Mossoró, mas, ainda adolescente, transferiu-se, com a família, para Fortaleza, onde viveu algum tempo, depois ganhou o mundo. Como diplomata residiu em várias cidades, uma das últimas, Quito, capital do Equador, onde foi Embaixador do Brasil. Autor de oito romances, vários deles premiados, e livros sobre história, filosofia, política e literatura, Almino firmou-se como um dos nossos principais escritores. Em 2017 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. É o quarto escritor nascido no Río Grande do Norte a conseguir esse feito, antes dele, Rodolfo Garcia, historiador; Perigrino Júnior, contista e ensaísta (foi presidente da ABL) e Murilo Melo Filho, jornalista.
ROMANCISTAS DO RN
Quando se estuda a literatura produzida no Rio Grande do Norte, observe-se um fenômeno curioso: até meados do século XX, tínhamos muitos poetas e pouquíssimos romancistas. Provincianos, isto é, residentes no Estado, apenas dois cultores do romance se destacaram nesse período: Policarpo Feitosa (pseudônimo de Antônio de Souza), realista à maneira de Eça, e José Bezerra Comes, regionalista de 30. Depois deles dá-se um salto no tempo para encontrar, já na década de 1970, Eulício Farias de Lacerda; mais tarde, aparecem Ruben G. Nunes, Nei Leandro de Castro, Alex Nascimento e Francisco Sobreira, este último, já então, experiente contista.
A partir dos começos do século XXI, a literatura potiguar se enriquece com um número cada vez maior de romancistas: François Silvestre de Alencar, Iaperi Araújo, Clotilde Tavares, Racine Santos, Aldo Lopes, Clauder Arcanjo, Lenilson Antunes, Carlos Fialho, Edson Soares, David de Medeiros Leite, Nelson Patriota e outros não menos valorosos, que me fogem à memória. Nenhum alcançou projeção nacional. Somente dois outros conseguiram romper os muros da província, quando já não residiam aqui: Homero Homem e João Almino.
DICIONÁRIO CRÍTICO JORGE AMADO
Já nas livrarias o “Dicionário crítico Jorge Amado”, organizado por Marcos Silva e Nelson Tomelin Jr. (São Paulo: EDUSP-Editora da Universidade de São Paulo, 2024).
Críticos literários e professores de letras – cinquenta e seis ao todo – escrevem neste livro sobre a obra literária de um dos maiores nomes da literatura brasileira, mundialmente conhecido.
Marcos Silva, professor de USP e escritor, natalense, nascido e criado no Alecrim, realizou boa parte do trabalho de coordenação da obra, mas não pôde terminá-lo pois faleceu em 2024; sucedeu-o, com êxito, Nelson Tomelin Jr também professor e escritor.
No elenco de autores dos verbetes (na verdade, artigos e ensaios) encontram-se, além de Marcos Silva, quatro norte-rio-grandenses: Thiago Gonzaga, escritor, doutorando em letras; Alexandre Alves e Francisco Fabiano Mendes, professores, doutores e escritores, e o autor destas linhas.
LER É PRECISO
Quantos livros, você, caro leitor, já leu neste ano de 2025?
Eu confesso que estou em déficit de leitura: lí apenas 17 livros romances, contos, ensaios, erênicas, biografias, memórias – mas já prometi a mim mesmo ler mais e melhor. É preciso ler. Se você é alheio à literatura, leia, pelo menos, para exercitar o cérebro. Tenha com a sua mente o mesmo cuidado que você tem com o seu físico ao frequentar academia de ginástica, Mens sana in corpore sano.
Por favor, esqueça, por algum tempo, o aparelho celular. Não se deixe viciar pelo mau uso dessa ferramenta tecnológica. Em vez de ficar grudado, o dia todo, nas redes sociais cheias de fofocas, fakenews e outras cretinices, leia livros. Leia. LEIA.
