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De João Cabral de Melo Neto, do amor em Vinícius de Morais e outras histórias

Manoel Onofre Jr.13 de setembro de 2019Literatura, Opinião, Artigos e Crônicas Image

Há algum tempo, batendo um papo animado com Hudson Paulo, escritor e poeta, martinense da Jurema, falamos sobre João Cabral de Mello Neto. Hudson eufórico: conseguiu comprar, num sebo da cidade, a obra completa de João Cabral, em bom estado de conservação.

Disse-lhe que sou pouco versado em poesia (epa! involuntário trocadilho) e muito menos em João Cabral, mas me gabo de ser um dos primeiros nesta aldeia de Poti, a ler o grande poeta pernambucano.

Por volta de 1959 deparei-me com um livro dele – “Duas Águas”- que, a bem dizer, devorei, fascinado. De modo especial causou-me profunda impressão uma série de poemas denominada “Cemitérios Pernambucanos”. Ainda hoje, transcorridos tantos anos, tenho de cor alguns versos.

“Nenhum dos mortos daqui
Vem vestido de caixão;
Portanto, eles não se enterram,
São derramados no chão”.

(Do poema “Cemitério Pernambucano (Nossa Senhora da Luz)”.

Hudson gostou de saber que eu tive oportunidade de conhecer pessoalmente João Cabral. Quando este veio a Natal, parece-me que a convite de Zila Mamede, não me lembro em que ano, vi, numa noite na Livraria Clima do CCAB – Petrópolis, aquele senhor magro, moreno, média estatura, metido num terno muito simples, calado, retraído, na fisionomia um ar de gauche na vida…. Ninguém diria que ali estava um dos maiores poetas do Brasil e do mundo, já então consagrado. Não tive coragem de me aproximar dele. Inibido diante de tamanha celebridade, limitei-me a observá-lo de longe.

João Cabral de Melo Neto, compreende?

Recentemente, vi, na televisão, um documentário sobre João Cabral, com depoimentos a respeito de sua vida & obra, e ele próprio sendo entrevistado e declamando poemas de sua autoria. Tudo de primeira.

Em sua fala, curiosamente, o poeta usa e abusa da palavra compreende.

Parece um tique nervoso:

-Isto assim, assim, compreende? Isto assim, assim, compreende? Compreende?

Fez-me lembrar do Desembargador Floriano Cavalcanti, meu professor no Atheneu e na Faculdade de Direito, que não dizia meia dúzia de palavras sem indagar, com toda a ênfase:

-Entendeu você?

Conversas de Poetas

“…eu acho que o próximo não tem por que aguentar as nossas pulgas. Quer dizer: eu não tenho por que publicar coisas com minhas preocupações, com minhas angústias, eu não tenho por que falar de mim. Eu não me considero digno de fazer um só poema falando de mim diretamente. Toda experiência serve de material para um poema, mas essa experiência vai aparecer no poema sob outra forma. Ninguém tem o direito de se confessar em público, ninguém tem o direito de incomodar os outros com os seus problemas e com suas pulgas”. João Cabral de Melo Neto em entrevista inclusa no livro “Conversas de Poetas” (organização e edição de Adriano de Sousa e Flávia Assaf).

Estas palavras do poeta maior deveriam servir de lição a alguns poetas e poetisas, que têm surgido, ultimamente, em nosso Estado.

Poesia desmedida

Num volume do seu jornal literário, Hildeberto Barbosa Filho vergasta, a certa altura, uma safra de poetastros – confessionais, sentimentalóides – que infestam a sua província. E, lá para as tantas, diz:

“Odeio, sim, a poesia dos que ingenuamente confundem poesia com confissão de sentimentos, com a expressão de mágoas, dores, alegrias, boas intenções, enfim, com os estados d’alma que trespassam a sensibilidade dos corações ditos românticos”.

E acrescenta o crítico, com a argúcia de sempre:

“Essa poesia em que o sentimento aflora de maneira desmedida, caracteriza-se por um aspecto fundamental: nenhuma, ou quase nenhuma, consciência da linguagem. Essa poesia paradoxalmente não logra o intento primeiro da arte poética, isto é, não consegue se transmutar no poema”.

Não fica aí, mas estende-se, com proficiência, sobre o assunto.

Amor aborrecido

Em seu livro “Nosso Amigo Castriciano”, Câmara Cascudo conta a seguinte anedota:

“O poeta Jaime dos G. Wanderley pergunta um dia a Henrique Castriciano:

-Mestre Henrique, o senhor amou alguma vez? Castriciano coça o queixo e confidencia:

-Eu já tenho passado meus seis meses bem aborrecidos…”

Não acredito que alguém que ame e seja amado possa aborrecer-se com o Amor. Henrique Castriciano apenas amava, mas não era amado. Triste sina! Pelo menos, restou-lhe a alternativa de após seis meses, libertar-se.

Da beleza que não basta

Que é que faz a gente amar alguém? Com certeza não é só a beleza física. Também a graça, a simpatia, a bondade e as afinidades múltiplas, a reciprocidade de sentimentos, a cumplicidade, enfim. Se pintar sexo, melhor. O sexo é uma espécie de condimento do amor.

Vinicius de Morais disse com aquele “saber de experiência feito”:

– As feias que me perdoem; beleza é fundamental.

Sim. Mas, por si só não basta. E o conceito de beleza varia de pessoa a pessoa.

O amor em Vinícius

Dos poetas brasileiros, nenhum, até hoje, soube cantar o Amor melhor que Vinicius. Sirvam de exemplo estes versos de uma das suas canções com Tom Jobim:

“Assim como viver sem ter amor não é viver
Não há você sem mim, e eu não existo sem você”.

Amor e morte

Na vida há duas coisas, realmente, importantes: o Amor e a Morte. Eros e Tanatos.
Va lá o truísmo…

Sobre o autor

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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