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João Batista de Morais Neto: da geração marginal ao poeta bissexto

Quando publicou seus primeiros poemas no “Livro de Bolso” (Natal, edição do autor, 1980) João Batista de Morais Neto (João da Rua, como se assinou nos anos 80), talvez não tivesse uma real noção da sua relevante contribuição para a literatura produzida no Rio Grande do Norte.

Poeta dos mais atuantes na chamada geração mimeógrafo, João Batista estreou, na verdade, um ano antes, em 1979, numa obra coletiva denominada “Buraco de Muro”.

João Batista de Morais Neto nasceu em Natal, no início dos anos 60, e participou ativamente da cena cultural na capital, sobretudo entre os anos de 1970 e 1980. Colaborou como organizador do Festival de Artes de Natal. Nessa época participou de vários mimeógrafos como “Liquidação de Poema”, “Buraco no Muro”, “Vibrações Panfletárias”, além de colaborar em suplementos literários e culturais de vários Estados.

GERAÇÃO MARGINAL

João da Rua. Acervo de Antônio Ronaldo

Para efeitos didáticos, explicamos que essa geração em que João Batista surgiu como poeta, ficou conhecida pela frequência com que os seus escritores recorriam ao mimeógrafo para reproduzirem seus textos. O método quase artesanal era um procedimento alternativo de criação, produção e distribuição do poema, que substituía os meios clássicos de circulação das obras, como editoras e livrarias.

Vendidos ou doados, de mão em mão, os trabalhos eram comercializados a um valor simbólico, na maioria das vezes restrito aos que frequentavam eventos relacionados com a própria cena cultural alternativa, apelidada também de marginal, conhecida dessa maneira por estar fora dos chamados cânones literários.

Evidentemente o movimento, que teve uma espécie de boom, no país, revelou importantes nomes como Paulo Leminski, Waly Salomão, Francisco Alvim, Torquato Neto e Chacal. No Rio Grande do Norte, pelo menos três importantes livros abordam a temática, “Geração Alternativa” de Jota Medeiros, “Poesia Submersa” de Alexandre Alves, e mais recentemente, “Delírio Urbano” de Afonso Martins e outros. Evidentemente, existem outros trabalhos e pesquisas na área.

PARA ALÉM DO MIMEÓGRAFO

Entretanto, é bom dizer que João Batista de Morais Neto, não se limitou apenas à experiência informal dessa fase, e deu um salto significativo em sua produção literária contribuindo de modo acentuado para nossa literatura, sobretudo ao publicar a novela “Temporada de Ingênuos”, em 1986, espécie de romance fragmentado, combinando aforismos, reflexões, prosa poética, dialogando com a literatura universal e fazendo uma espécie de balanço daquele período, antenado com o que acontecia no universo das artes. Tudo com um estilo moderno para a época, aqui na província, que via surgir seus primeiros espigões, como cantou Zila Mamede em seu famoso poema “Rua Trairí”.

Nos anos seguintes João Batista de Morais Neto continuou a contribuir com a nossa cultura publicando vários outros trabalhos como, por exemplo, “A Canção e o Absurdo Revisitados” (Natal: Edições Sebo Vermelho, 2001); “Revendo Itajubá” (Natal: Sebo Vermelho Edições, 2007); “Caetano Veloso e o Lugar Mestiço da Canção” (Natal: IFRN editora, 2009); “O Veneno do Silêncio” (Natal: Edições Sebo Vermelho, 2010), além de ser autor de dezenas de ensaios críticos e literários.

POETA BISSEXTO

Graduado em Letras, João Batista fez mestrado na Universidade Federal da Bahia e doutorado em Estudos da Linguagem pela UFRN. Atua profissionalmente como Professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira no IFRN de Natal. Mais recentemente, lançou o livro de poemas “Bissexto” (Editora Gageiro Curió, 2018). O livro traz uma amostra, em dezesseis poemas, da sua recente produção artística.

Ao ler os versos de João Batista rememoramos o mestre Mário Quintana, que disse, certa vez: “Esquece todos os poemas que fizeste/Que cada poema seja o número um”. Compreendemos através dos versos do genial escritor gaúcho a sugestão de criar, de se surpreender, de se espantar com novos textos.

Rememoramos Quintana após termos lido “Bissexto” percebendo bem o amplo potencial de criação, o poder intrigante e transformador da poesia. Seja pela mobilização da fantasia, seja para aliviar uma dor, pelo simples prazer da leitura ou até mesmo para desvendar os homens, a poesia, nos deixa nus diante da existência; é uma arte essencial ao ser humano e, como tal, revela muito do que somos e como somos hoje e sempre.

Encontramos na leitura dos versos de João Batista de Morais Neto uma espécie de intimismo que está ligado ao fato de que, sendo este um dos principais atributos de sua experiência poética, traz consigo também uma tensão, que transparece em versos como, por exemplo no trecho seguinte:

Meu bem,
Sejamos sublimes
Não deixemos
Que nos invadam
As almas pequenas

(…)

Interessante compreender também, que “Bissexto” não se trata de uma obra de poesia de vanguarda, dessas que parecem receita de laboratório, mas é moderno, e ao mesmo tempo alcança certos efeitos linguísticos e estéticos, cuja análise pode ser aprofundada em estudos futuros.

O inconformismo com os moldes literários impostos pela “academia” e com a chamada “cultura oficial” brasileira, responsável por deixar à margem toda produção cultural que estiver fora dos padrões, foi a propulsão para escritores como João Batista, assaz criativos subverterem o lugar comum ao propor uma constante inovação poética, tudo sem “forçar a barra”, mas de maneira interessantíssima.

Em nossa compreensão, embora João Batista tenha nascido artisticamente e participado de forma ativa da geração mimeógrafo no Estado, sendo uma das suas principais figuras, atualmente ele ganhou um destaque maior, e justo, de poeta, escritor e pesquisador consciente de seu oficio e da sua produção.

O livro “Bissexto” inaugura a mais nova editora do Estado, Gageiro “Curió, do também poeta e livreiro Oreny Júnior, que faz com o titulo homenagem ao grande Newton Navarro e sua novela publicada em 1974, “De Como se Perdeu o Gajeiro Curió”.

Sobre o autor

Thiago Gonzaga

Pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros.

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