Desde que nos percebemos fazendo parte de uma engrenagem na qual somos uma peça única, não sabemos ao certo se escolhemos nascer. Ao menos, a grande maioria de nós atribui esse fato a um fato anterior entre duas pessoas as quais, na melhor das hipóteses, se amavam e desejavam esse outro ser (nós). Muito embora, já depois descobertos humanos e falhos, a gente perceba que nem sempre é assim que a coisa funciona. O roteiro tem lá seus imprevistos e improvisos.
De lá para cá, somos responsáveis por nossas escolhas. Até mesmo aquelas que chegam como um vento forte, nos tomando o corpo por completo, nos forçando a fechar os olhos, estender os braços para a frente e sair tentando tocar o ar e se agarrar ao próximo segundo que trará a calmaria de volta. Escolher é principalmente viver. E viver é inevitavelmente saber que nem sempre conseguimos fazer as escolhas certas. Viver não é certo. Nem certeiro. De vez em quando a coisa sai de controle.
Difícil não é escolher. Difícil é estar pronto para encarar os dois movimentos que emolduram a decisão. Antes da escolha, a angústia da dúvida, a busca por respostas, as conjecturas, os sonhos decifráveis, o cartomante que atropela o destino, o destino que não se assusta com nossa pressa, e segue seu caminho. O destino que é, principalmente, acaso. Pois bem, assim que tomada a decisão, vem um certo alívio, um prazer, o deleite de ser senhor dos seus domínios. Nem que seja por alguns dias. Quem sabe por instantes. Porque escolher pressupõe abrir mão de algo, sempre.
De repente, o trem sai dos trilhos. O que antes era rocha se esvai em pó, o vento leva para longe as certezas. E você de novo se angustia perguntando-se se tomou o rumo certo. E torna a esperar o resultado. Como é preciso esperar para deixar a vida se instalar. A questão é que ela está em constante manutenção. Deveríamos ter uma placa pendurada no pescoço: “Vida aberta para reformas”, “Disponível para reparos”.
Somos fadados a viver desafiando as dúvidas, buscando as respostas, encarando os erros, seguindo com a esperança, acreditando nas palavras dadas, lamentando as palavras desditas, sussurrando desculpas a si mesmo, gritando perdões ao mundo, abrindo buracos fundos na compreensão e rasos na mágoa. Ser gente é doer no espelho e arder no silêncio. Ser gente é abrir pontes com o sorriso ou com as unhas mesmo. É alargar as margens para deixar que as embarcações dos outros ancorem. Ou passem de uma vez por todas.
Eu ando com uma ressaca danada do mundo virtual. Dessa urgência que as pessoas têm em dar opiniões, em aparecer e em parecer algo em que sequer acreditam. Sei que isso vai passar. Nem que eu tenha que tomar um antiácido. Ando achando que deveriam vender na farmácia inibidores de opiniões e estimulantes para a reflexão.
