Fragmentos de um jornal literário

POR QUE ESCREVO?

Em seu livro Por que Escrevo?, José Domingos de Brito transcreve as respostas de 166 escritores a essa instigante pergunta. Uns, como Paulo Francis, desconcertantes, escrevem para se imortalizar, alcançar fama, glória, dinheiro, amor, “essas coisas comezinhas da vida”; outros o fazem por necessidade interior – Graham Greene, por exemplo.

Mas, uma das respostas mais interessantes é a do ficcionista José J. Veiga, para quem o trabalho literário representa uma tábua de salvação, que o livra do mau humor, da ranzinzice, do pessimismo, enfim.

Em nota biográfica, José Domingos de Brito conta uma historinha engraçada envolvendo Guimarães Rosa e José J. Veiga a respeito de prefácio. Veiga, com receio de que Rosa lhe pedisse um prefácio para um livro novo, armou estratagema que deu certo, mas nem era preciso, pois o amigo também detestava prefácio.

POESIA EM MEIO À PROSA

Se me perguntassem por que escrevo, eu diria que escrevo porque leio. Com efeito, só depois de ler dezenas de livros, ainda adolescente, me atrevi a escrever. E, como sempre tive preferência pela leitura de ficção, ensaio e crônica, foi por estes gêneros que enveredei na escrita, e continuo a cultivá-los até hoje.

Não sei porque razão deixei de lado a poesia. Refiro-me à poesia aprisionada em versos. Na minha pequena biblioteca, apenas cerca de 10 % do acervo constitui-se de livros de poemas. No entanto, devo ressaltar que amo a poesia em sentido amplo, aquela poesia que se encontra em meio à prosa, por exemplo.

MOSSORÓ E SEUS MELHORAMENTOS

O primeiro texto que escrevi na vida – uma pequena crônica – foi publicado no jornalzinho “O Estudante”, que fundei, em 1958, juntamente com alguns colegas, quando cursava a 4ª série ginasial no Colégio Diocesano Santa Luzia, de Mossoró. Tinha eu 15 anos de idade. Assunto da crônica: a cidade de Mossoró, seus melhoramentos, suas carências, etc.

Não resisto à tentação de transcrever um trecho, a título de curiosidade. E de nostalgia.

“Está aí a Companhia Comércio e Navegação Ltda., ameaçadoramente, querendo desviar para Macau a nossa riqueza. Está bolando por aí, no fundo de alguma prateleira, o projeto para construção do tão falado Hotel Municipal. Está por aí, nos caminhos do esquecimento, o projeto do porto de Areia Branca. E o açude de Santa Cruz, quando virá? Quando um político terá coragem de levantar-se na Câmara? Olhem que já nos quiseram roubar a Estrada de Ferro Mossoró-Souza e, poderão repetir a ameaça. Mas, pensando bem, Mossoró também tem o seu lado bom. Seu povo é simples, provinciano como o de Natal, mas tem idealismo. Então, na imprensa falada e escrita se encontra o idealismo em cheio. É uma cidade simpática, parece que o seu calor a torna mais atraente.
É verdade que Mossoró já foi rainha; hoje está com uma pedra a menos na coroa, mas ainda não perdeu o trono.”

A. DA SILVA MELLO

Escritor popular nas décadas de 50 e 60 do século passado, A. da Silva Mello (1886-1973) está injustamente esquecido. Seus livros, em boa parte obras de divulgação científica, alcançaram, muitas vezes, o topo das listas de best-sellers. Temas como “Alimentação, instinto e cultura”, e “Mistérios e realidades deste e do outro mundo”, abordados em linguagem acessível ao grande público, bateram recordes de vendas.

Silva Mello, não raro, tornava-se polêmico em defesa dos seus pontos de vista. No livro A Superioridade do Homem Tropical, por exemplo, faz uma afirmativa que deve ter gerado muitas controvérsias, em sua época. Diz ele, textualmente:

“O que se tem tornado por demais evidente é que a humanidade deve estar seguindo caminhos errados, por exemplo, aquele que tem criado e dilatado o campo das neuroses, cada vez mais complexas, variadas e difundidas. Elas são, como parece bem estabelecido, o resultado de complexos recalcados, de lutas emocionais que o ser humano atravessa sem poder resolvê-las. É provável que as religiões, sobretudo o judaísmo, o cristianismo e outras que exploram o complexo de culpa, tenham contribuído enormemente ou sejam até as causas principais dessas perturbações.”

Há inúmeras outras afirmativas polêmicas, e a própria proposta da obra, isto é, provar a superioridade do homem tropical, tem motivado debates.

Curiosamente, o autor mineiro, apesar dos seus posicionamentos avançados e controvertidos, foi eleito, em 1960, para uma instituição tradicional, de índole conservadora, a Academia Brasileira de Letras, onde, aliás, já recebera o Prêmio “Machado de Assis” por conjunto de obra.

Em paralelo às suas atividades literárias, Silva Mello era médico e professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Era considerado, em seu tempo, uma sumidade.

JORNAL LITERÁRIO

A expressão “jornal literário” define uma espécie de diário, comumente publicado em forma de livro, no qual, ao invés de anotações da vida íntima, registram-se notas de leitura, observações sobre o mundo literário etc.

Celebrizou-se o “journal” dos irmãos Goncourt, Edmond (1822-1896) e Jules (1830-1870), escritores franceses. No Brasil vários autores cultuaram a modalidade, tais como Sérgio Milliet e Álvaro Lins. O paraibano Hildeberto Barbosa Filho vem publicando um bom jornal literário, que já vai no terceiro volume.

Sobre o autor

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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