Entrevista com Cláudio Galvão: “Não sei mostrar pouco tendo muito a dar”

Cláudio Galvão - foto de Sergio Vilar

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O escritor e pesquisador Thiago Gonzaga presenteou nosso blog com esta entrevista inédita de Cláudio Galvão, na internet, feita em 2015. Um verdadeiro deleite. É o retrato vivo de uma Natal de nunca mais, saudosa, docemente provinciana. E Cláudio estava lá para nos repassar, neste relato, alguns registros primorosos. E Thiago esteve aqui, neste tempo mais contemporâneo, para provocar Cláudio a confessar, sem intenção alguma, todo o seu gabarito como pessoa e intelectual. Sua resposta para a pergunta 12, atesta isso. Boa leitura!

1- Claudio Galvão onde você nasceu? Conte-nos um pouco da sua infância e juventude.

Nasci na Rua Ulisses Caldas – não vou dizer o ano porque você vai espalhar por aí, mas era um tempo em que o bonde subia a ladeira da Ribeira, dobrava à direita e passava em frente à minha casa. Eu botava tampinhas de garrafa nos trilhos para ele passar por cima, amassar, e eu ter moedas para brincar de dinheiro. Depois, meus pais se mudaram para a Rua João da Mata, em frente ao Potengi; tempo de medo dos blecautes durante a guerra. Depois, Rua Vigário Bartolomeu; lá, eu passava pela casa de Jorge Fernandes, ele na janela, pijama azul claro de mangas compridas. Eu nem imaginava quem era aquele homem. Joguei futebol na rua lateral sem calçamento, colecionei figurinhas, comprei revistinhas no “Zepelim”; saudades da banda da Polícia tocando Royal Cinema em frente à maçonaria “Evolução II”. Em seguida, as residências foram mais breves e menos marcantes. Minha primeira professora Maria do Carmo Navarro, em escola particular em sua própria casa. Depois, Beatriz Cortez, no Externato Monsenhor Pegado; ginasial do Ginásio 7 de setembro e colegial no Atheneu, já na sede da Rua Potengi.

2- Quais foram as suas primeiras leituras literárias?

Li menos do que devia: Monteiro Lobato, muita revista em quadrinhos e uma série espetacular, a “Edição Maravilhosa”, que trazia romances clássicos em quadrinhos.

3- Quando jovem você já escrevia? Seus primeiros escritos falavam sobre o que?

Escrevi um artigo sobre o rio Amazonas para um jornal estudantil.  Foi tudo copiado de alguma outra publicação. Estudava no Ginásio “7 de setembro”, que não existe mais e teve a fachada de seu prédio na Rua Seridó toda alterada pela UNP (pra que?). Começar mesmo a escrever foi durante meu primeiro emprego como controlista da Rádio Nordeste, depois de servir ao Exército; redigi diversos programas sobre assuntos diversos que foram encenados pelo radio-teatro. Depois, passando para a Rádio Rural, recomecei a escrever novos programas. Entrei no curso de História da Faculdade de Filosofia, comecei a ensinar e não tive mais tempo para nada.

4- E o período como aluno do Atheneu, boas lembranças?

Infelizmente não alcancei o Atheneu velho. Ingressei no curso colegial já no primeiro ano do novo prédio, em 1954. Era um tempo em que os professores eram pessoas de alto conceito social e cultural na cidade: todos davam aula de paletó e gravata. O colégio tinha fama de bagunceiro, mas eu nunca vi nada de anormal para justificar tal conceito. Como é que se queria que adolescentes fossem quietinhos? Não consigo falar no Atheneu sem me revoltar com a criminosa demolição do prédio centenário, por onde passaram todos os grandes nomes deste Estado. E ninguém protestou contra aquele atentado, fruto da ignorância e desrespeito à história e tradições da cidade; nem mesmo seus ex-alunos que se tornaram depois professores.

5- Você formou-se em História, algum motivo especial para a escolha do curso?

Não. Cheguei a fazer cursinho para a Escola de Engenharia que ia ser criada. Adorava a matemática, mas nunca tive bons professores que me ajudassem a compreendê-la. Uma grande curiosidade por conhecer a antiguidade oriental me levou a fazer o vestibular. Nunca pensei em ser professor, pois era (hoje sou menos) tremendamente inibido. Logo comecei a ensinar e fui gostando. Entrei como professor da Faculdade de Filosofia que, depois, foi anexada à Universidade. O ensino nunca foi para mim simplesmente um “bico”. Aposentei-me e continuei a trabalhar – até mais do que antes – pesquisando coisas aqui da nossa terra.

6- Claudio, você trabalhou na Rádio Rural comandando um programa musical?

Saindo da Rádio Nordeste, fui para a recém-inaugurada Rádio Rural, como corretor de publicidade: percorria, engravatado, o comércio buscando anúncios, propaganda. Depois, recomecei a escrever programas para datas especiais. Minha maior façanha foi escrever e manter o programa que teve a maior permanência de apresentações. “No mundo da música” era transmitido aos domingos à noite. Normalmente rodava-se um LP com música erudita e eu escrevia os textos explicativos. O programa foi pioneiro em gravar (em rolo de fita) audições com pianistas da cidade e depois levá-los ao ar. O executante ouvia-se em casa, coisa nova por aqui.

7- Foi nesse período que você começou a dar aula de História Medieval e História da Arte?

Entrei como professor da Faculdade Filosofia em junho de 1963; fui o fundador das disciplinas História Medieval e História da Arte. Lecionei, também, Técnicas Audiovisuais na Educação no Curso de Pedagogia, em substituição.

8- No inicio dos anos 70 você foi estudar na Europa. Quais as lembranças e experiências mais marcantes que ficaram na sua vida nessa fase?

No ano letivo 1971-1972 fiz especialização na Bélgica, no Instituto de Estudos Medievais da Universidade de Louvain. Estranhei muitas coisas, como, por exemplo, o aluno não precisar frequentar as aulas e, para as provas, sempre anuais e orais, ser necessário apenas decorar as anotações de aula, muitas vezes feitas e fornecidas por um colega que frequentava. Tive professores que davam aula tendo nas mãos anotações já bem usadas, quase lendo o que estava escrito. Auditórios com mais de cem alunos, sem microfone; classes com três alunos, apenas. Em compensação tive professores que eram autoridades na sua especialidade: fui aluno de Alfred Génicot, medievista conceituado em toda a Europa. Num curso de restauração de obras de arte frequentei um laboratório onde trabalhei com um microscópio eletrônico examinando pinturas medievais, para poder escrever uma monografia. Utilizei lá uma das maiores bibliotecas da Europa. Viajar por aquelas cidades medievais era o melhor que eu podia fazer. Dias frios e cinzentos: roedeira danada ouvindo música brasileira com muitos colegas patrícios, alguns foragidos do regime autoritário do Brasil. Quando voltei a Natal me disseram que outro professor iria ensinar a disciplina na qual eu me especializara. Um monte de material que trouxe ficou sem utilização. Fiquei só com História da Arte e não me arrependo. Acho até que não me saí mal.

9- Você fundou e chefiou o Departamento de Artes da UFRN? Como era Natal nesse período?

A cidade era pobre em atividades culturais que atingissem a população menos instruída. As inúmeras sociedades literárias do início do século XX se resumiam a poucas instituições. Na área musical, a única era a Escola de Música, agregada à UFRN e autorizada pelo MEC a ministrar o ensino musical em nível médio. Foi quando o Conselho Federal de Educação autorizou a instalação dos cursos de Educação Artística. Propus ao Reitor Domingos Gomes de Lima e fui autorizado a implantar o curso, que necessitou da criação de um departamento para abrigá-lo. Fui o primeiro Chefe do Departamento de Artes, que oferecia a Educação Artística nas modalidades de Artes Cênicas, Música e Desenho. Fui a Brasília procurar melhores informações para melhorar o curso. A conselheira do Conselho Federal de Educação que relatou o projeto sorriu e me disse: “Nós é que temos de aprender com vocês; a UFRN foi a primeira no Brasil a implantar a Licenciatura Plena em Educação Artística”. Não me contentei em controlar apenas o curso acadêmico, esforçando-me na promoção de atividades de Extensão Universitária. O departamento possuiu um grupo de teatro composto por estudantes. A parte musical foi mais beneficiada: tivemos um Quarteto de Cordas e uma Orquestra de Câmera de alta qualidade, compostos por músicos estrangeiros contratados. O melhor de tudo foi o projeto implantado na Cidade da Esperança (naquele tempo era um subúrbio muito distante…) para ensino de música a crianças e adolescentes do bairro, em parceria com a Secretaria de Bem Estar Social do Estado. A Camerata Jovem da UFRN, formada por alunos daquele projeto, apresentou-se muitas vezes. Emocionava ouvir aquela garotada que nunca tinha sequer visto um instrumento de orquestra erudita, tocar a “Serenata Noturna”, de Mozart. Esse e todos os demais projetos não foram cancelados, mas a UFRN deixou-os morrer no abandono.

10- Claudio nos relate um pouco da sua obra de estreia, “Oswaldo de Souza – o Canto do Nordeste”?

Eu era muito jovem quando assisti no Teatro Alberto Maranhão ao recital do cantor Roberto Galeno, que interpretou seis canções que me muito me impressionaram, e mais ainda quando me disseram que o autor era Oswaldo de Souza, um compositor nascido aqui em Natal. Tempos depois – eu já estava no Departamento de Artes – o reitor Domingos me indicou para coordenar o recebimento da enorme coleção de arte popular que a UFRN comprara a Oswaldo (que já retornara a residir em Natal), e entregá-la ao Museu Câmara Cascudo, onde hoje se encontra. Assim, aproximei-me dele um pouco mais. Depois, eu já havia deixado a chefia do Departamento de Artes quando, no Rio de Janeiro, visitando os conhecidos da FUNARTE, perguntaram-me sobre ele. Eu respondi que morava numa casa perto da praia (Rua do Motor), sempre discreto e arredio. A surpresa foi grande. Pensavam que ele já havia morrido havia muito tempo. “Você sabia que a obra dele é conhecida e executada nos grandes centros culturais da Europa?” E completaram: “Você não quer escrever uma biografia dele?” Já saí de lá com uma carta oficializando a proposta. Começamos a trabalhar; nunca imaginei que aquele homem aparentemente tão circunspecto poderia ser tão simpático e haver prestado tanto serviço à cultura. A FUNARTE publicou o trabalho, que foi lançado no auditório da Fundação José Augusto. Oswaldo e dona Lourdes estão sepultados em um túmulo em forma de piano, vizinho à capela do cemitério do Alecrim. Não tiveram filhos.

11- Em seguida você publicou uma obra sobre Tonheca Dantas?

Meu pai foi contemporâneo de Tonheca Dantas na Polícia Militar e falava muito nele; minha mãe se emocionava quando ouvia “Royal Cinema”. Era um nome familiar em minha infância. Tempos depois eu me conscientizei de sua importância para o Estado e comecei colher informações sobre ele. As coisas foram se avolumando e senti que dava para ser um livro. Pesquisei nas cidades onde ele andou – João Pessoa, Alagoa Grande, Alagoa Nova, na Paraíba, e Belém, no Pará. Aqui no Estado, a partir de sua terra natal, Carnaúba dos Dantas, pesquisei onde foi necessário no Seridó. O livro saiu em… foi um lançamento lindo no jardim do Teatro Alberto Maranhão, com presença da Banda de Música da Polícia Militar e muita gente, como ele bem merecia. Esse trabalho repercutiu recentemente, quando o Grupo Vila idealizou e patrocinou um projeto que viabilizou a instrumentação de composições de Tonheca para orquestra sinfônica e gravação de um belíssimo CD com a Orquestra Sinfônica do RN. Lançamento deslumbrante do Teatro Riachuelo. Ainda em dezembro do ano passado o Centro Universitário do RN – UNI-RN, igualmente patrocinou a gravação de um CD com músicas de Tonheca gravadas pela Banda de Música de Carnaúba dos Dantas, com belíssimo lançamento nos jardins da Escola Doméstica, com presença daquela banda. Fico muito recompensado por ter reiniciado esse processo de revalorização e reconhecimento do compositor.

12- Claudio, nos fale um pouco da obra a Modinha Norte-rio-grandense e de como foi feita a pesquisa.

Eu ainda alcancei o tempo em que essas músicas eram valorizadas e havia programas de rádio – a saudosa Rádio Educadora de Natal, que se transformou em Rádio Poti e se “modernizou” como FM apenas. Meus pais sempre ouviam e eu também, por tabela. Esses programas de “saudade” se mantiveram até pouco tempo, como o “Serestas do coração”, da Emissora Rural. Hoje não há nada que rememore a nossa música popular daqueles tempos – fins dos anos 1800 e começos de 1900. É importante considerar que a modinha era a MPB mais importante da época, e que a maior parte do que se cantava aqui era originária de autor local. Quando eu comecei a pesquisar a vida do poeta Othoniel Menezes despertei para seus poemas que foram musicados e imaginei recuperá-los. Em seguida, a ideia cresceu e eu passei a recolher tudo o que podia, de outros autores também. As melodias das modinhas locais não foram escritas em partitura musical, pois seus compositores em geral não sabiam música; muitos dos poemas, as letras, haviam sido até publicados em livros, mas a melodia permanecia apenas de forma oral e, assim, ficavam sujeitas a alterações e, o que era pior, condenadas ao esquecimento. Senti que estava fazendo uma coisa boa, pois as melodias podiam ficar escritas e resguardadas em algum arquivo. Em seguida veio a ideia de publicá-las em livro, o que divulgaria e conservaria mais a sua memória. As dificuldades foram muitas. Primeiro, a fonte era sempre uma pessoa idosa; eu levava um gravador e, depois, em casa, com ajuda de um violão e de alguns conhecimentos musicais, passei para a pauta musical tudo que encontrara. Em seguida veio o problema da cópia para figurar no livro. Não encontrei um copista que me satisfizesse. A cópia em máquina do tipo datilográfica, que se fazia no Rio de Janeiro, custaria mais que meu salário mensal. Em uma viagem à Holanda fui informado que cópias de música já estavam sendo feitas em computador através de um programa alemão. Adquiri o programa e comecei a passar a limpo meus rascunhos. Salvo engano, fui o primeiro no Estado a adquirir um programa desse tipo e, também, fui o primeiro a escrever e imprimir uma partitura musical em um computador. Depois, veio a publicação: a Editora da UFRN se interessou e, graças aos seus diretores Hermano Machado e Pedro Vicente, este último, recentemente falecido, o livro começou a tomar forma e foi conseguida uma coedição com a Editora Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Lá, tive de engolir sapos de variados tamanhos, mas apesar de alguns desentendimentos, o livro saiu. É o primeiro e acho que, por falta de informantes, não sairá outro sobre o assunto. O livro contém dados biográficos de 50 compositores natalenses até o momento desconhecidos, ou melhor dizendo, esquecidos. São ao todo 365 partituras com suas letras, dentre estas 201 de autores locais identificados, 144 de autores não identificados, 11 modinhas bahianas que eram cantadas pela esposa (bahiana) do poeta Segundo Wanderley, 5 exemplos de modinhas em transição para a canção brasileira, e mais 4 citadas por Cascudo no prefácio. Entrevistei 55 colaboradores, quase todos já ausentes. O volume do trabalho seria bem maior se eu tivesse iniciado pelo menos 10 anos antes.

13- Você também escreveu sobre Zila Mamede? Chegou a conhecê-la?

Zila era amiga e confidente de minha esposa Mailde. Participei da amizade sem as confidências. Adquirimos sua casa à Rua Carvão de Pedra e nela residimos por muitos anos. Era uma pessoa sensível e sentimental como deve ser todo o poeta (ela se dizia poeta e não usava o “poetisa”), mas se defendia quando necessário, ficando brava e agressiva. No meu “Zila Mamede – em sonhos navegando” esforcei-me para mostrá-la como poeta e profissional, sem tocar na sua intimidade. Foi muito bom poder ter preservado a memória de uma intelectual tão importante para o nosso Estado.

14- E Câmara Cascudo, você chegou a ter algum tipo de contato com ele?

Minha mãe, que era enfermeira, era amiga de Dona Dahlia (esposa de Cascudo) e aplicava injeções em pessoas da família dela. Muitas vezes me levou também à casa de Cascudinho, como ele era comumente chamado. Ainda tenho vivo na memória o momento em que, quando estavam sendo fervidas as seringas e agulhas (não havia ainda o descartável) e as labaredas do álcool se desprendiam do esterilizador, quando chegou aquele homem, ficou olhando e, como se tivesse o pensamento distante, tentava pegar, segurar as labaredas amarelo-azuladas. Muito tempo depois, eu já era aluno de História da Faculdade de Filosofia, quando meu professor de História do Brasil, Hélio Dantas, deu-me a tarefa de consultar Câmara Cascudo, para me informar sobre algo da História do Estado. Fui de paletó e gravata e o comendador me recebeu vestido como eu, coisa comum à formalidade da época. Atendeu-me gentilmente, respondeu minhas perguntas e depois me perguntou: “Está satisfeito? Era o que você queria?” Com o meu sim ele sorriu e disse: “Então vá-se embora que eu preciso trabalhar.” Eu achei muito engraçado, agradeci e saí. Ele parece que ainda não usava o célebre: “Agora vá baixar em outro terreiro.” Mais tarde, voltei a procurá-lo para pedir apresentações para bolsas de estudo de pós-graduação em História; fui gentilmente recebido e atendido e, em algumas das cartas que fez (guardo carinhosamente as cópias) para amigos em Portugal, tratou-me como “meu sobrinho”. No momento em que a pesquisa das modinhas estava em andamento voltei a procurá-lo, pois sabia que essa era uma das suas “meninas dos olhos”. Senti o seu entusiasmo, pois na década de 1940, ele havia estimulado um grande músico da terra para fazer o que estava fazendo; o projeto não deu em nada e eu já levei coisas concretas. Por sugestão dele, voltei mais três vezes à sua casa para continuar a entrevista. Tive a feliz ideia de gravar tudo, assim, tenho um precioso documento onde o mestre recorda sua juventude na velha Natal das serenatas e dos seus amigos boêmios. Com licença de sua família, usei o texto como introdução ao MODINHAS NORTE RIO-GRANDENSES. É um relato, uma conversa informal e deliciosa! Eu sempre digo que é a melhor parte do livro. Para o meu doutorado na Universidade de São Paulo escolhi o tema “Luís da Câmara Cascudo e a música”; era um tema raro, pouco conhecido e que tinha apenas o trabalho de Gumercindo Saraiva “CÂMARA CASCUDO, UM MUSICÓLOGO DESCONHECIDO”. Aprofundei o assunto o quanto pude e, para tanto, tive que ler 90% de seus livros e mais cerca de trezentas crônicas. Um dia, comentaram que eu era amigo de Cascudo, o que é um bruto exagero; na verdade convivi com ele algumas vezes e sempre fui muito bem tratado. Mas amigo é muito para mim. De vez em quando eu relato que, no espeto intelectual, contribuí para com muitos trabalhos de Cascudo. Ficam olhando para mim com a maior das interrogações e eu explico: um dia eu cheguei à casa dele e dona Dahlia me pediu o “grande favor” de trocar uma lâmpada que estava queimada. Subi uma escada e resolvi o problema que nem ela nem ele poderiam resolver. Assim, o mestre ficou iluminado e continuou o seu trabalhou com sucesso.

15- Você fez trabalhos de pesquisas incríveis sobre Ferreira Itajubá, Sebastião Fernandes e Auta de Souza. Relate-nos um pouco do processo de pesquisa e da importância desses escritores para a nossa cultura?

Os três autores eram nomes constantes do noticiário jornalístico do princípio do século passado. Eu, que cometi o desatino de ler e anotar todos os jornais de Natal daquela época, colhi praticamente tudo o que necessitava para publicar. De Ferreira Itajubá resultou O GRACIOSO RAMALHETE, um fato pelo qual passaram batidos todos os seus antigos biógrafos. Resultou, ainda, a coleta de muito material biográfico ainda inédito, tudo copiado a mão e que guardo em várias pastas, com uma vontade danada de reescrever a sua biografia. Mas… cadê tempo? Quanto a Sebastião Fernandes, o caminho foi o mesmo: fui encontrando poemas inéditos, não publicados no seu único livro, o ALMA DESERTA, de 1906. Auta de Souza surgiu no meio da pesquisa sobre as modinhas: recolhi algumas melodias que foram postas em poemas dela, transformando-os em canções, belíssimas modinhas. Publiquei o material no livro das modinhas e, no centenário da poeta, em 2001, pude lançar o CANCIONEIRO DE AUTA DE SOUZA, com dados informativos, letras e a partitura das melodias.

16- A obra Gracioso Ramalhete recentemente teve uma segunda edição. Houve alguma mudança algum acréscimo na obra?

Muitos acréscimos. Para começar, a primeira edição teve o miolo impresso a mimeógrafo. Graças ao diretor da EDUFRN, Professor Herculano Campos, a 2ª edição foi muito bem feita. Revisei muita coisa, inclui outras informações e muitas novas ilustrações.

16- Você também publicou importantes trabalhos sobre Othoniel Menezes, inclusive uma biografia.  Foram quantos livros no total sobre o poeta?

Além de matérias de página inteira em jornais, publiquei: ARA DE FOGO-ABYSMOS- ESPARSOS (1989), poemas inéditos encontrados apenas em jornais. O ARA DE FOGO era um livro que ele ia publicar e perdeu os originais. CIDADE PERDIDA-DESENHO ANIMADO-ESPARSOS (1995 – ano do centenário de nascimento do poeta), foram recolhidos de uma velha caderneta onde o poeta os deixou manuscritos. O CANCIONEIRO DE OTHONIEL MENEZES (1985) traz as partituras dos seus poemas que foram musicados. O mais importante foi, para mim, o PRÍNCIPE PLEBEU (2010), onde incluí um CD com poemas declamados e cantados. Participei, também, da edição de sua OBRA REUNIDA, publicada em 2011.

17- Othoniel Menezes também foi poeta modernista?

Sempre foi reconhecido como poeta modernista por conta de seu livro A CANÇÃO DA MONTANHA, publicado em 1955; foi, evidentemente, um modernismo tardio. O primeiro a publicar um livro com poemas modernistas no Estado foi indiscutivelmente Jorge Fernandes – o LIVRO DE POEMAS, de 1927. Entretanto, encontrei poemas modernistas publicados antes por Othoniel em periódicos, o primeiro deles, ATAVISMO, publicado na revista natalense LETRAS NOVAS, em setembro de 1925. Isso está dito e comprovado no meu PRÍNCIPE PLEBEU. Reclamo para mim a prioridade do descobrimento e divulgação deste fato; desconheço quem tenha descoberto ou falado nisto antes de mim.

18- Quais são suas outras obras publicadas, quais destacaria?

O livro mais diferente dos outros que já publiquei é o CAMPO DA ESPERANÇA (1999). Conheci o padre polonês Jan Wisniewsky, residente na Casa dos Padres da Sagrada Família, no Alecrim. Pouca gente sabia que ele havia sido prisioneiro do campo de concentração de Dachau, na Alemanha, onde permaneceu durante mais de três anos, sendo liberado – tuberculoso e pesando 45 quilos – quando o campo foi invadido pelos americanos no fim da 2ª guerra mundial. O padre João, como era conhecido, exercia tranquilamente o seu ministério e quase ninguém sabia de sua tragédia. Quando eu soube disso logo me encontrei com ele, de gravador e papéis na mão. Ele relatou a sua vida de prisioneiro e – o que mais impressionou – com uma naturalidade de quem contava um filme de guerra que houvesse apenas assistido. De posse daquele material pensei logo que ele daria um bom livro. Pouco tempo depois o padre João faleceu. Então, decidi começar a escrever. Visitei o campo de concentração, tirei fotos, consultei e, principalmente, senti o clima do local. Terminado o trabalho tentei várias editoras católicas, mas a nenhuma interessou a publicação. Já pensava em desistir quando encontrei num jornal uma notícia sobre a Editora da Universidade do Sagrado Coração, em Bauru, São Paulo. Comuniquei-me: o interesse demonstrado foi imediato e a aceitação mais ainda. É um tema inteiramente diferente de todos os que já abordei e o mais “literário” de todos. Já tenho pronto e tento publicar o texto integral da entrevista do padre Jan, com muitas notas explicativas e a documentação fotográfica de muito do que ainda existe em Dachau.

19- Que tipo de arte você aprecia além da literatura?

A música. Fui aluno do extinto Instituto de Música e adquiri uma boa base. O destino evitou que eu me tornasse mais um músico medíocre, mas fiquei com o “micróbio” no sangue. Dediquei-me, depois, ao violão e cheguei a tocar “mais ou menos”… Em 1964 fui o professor fundador da disciplina História da Arte na Universidade e o conteúdo do curso focalizava exclusivamente as artes plásticas. Então, tive que me concentrar muito nesse terreno e tive, também, que viajar muito para conhecer e fotografar obras no local, pois os livros naquele tempo pouco atendiam a esta exigência. Estudei muito, aprendi muito e me apaixonei mais ainda. Lecionei de 1964 a 1998, até me aposentar e, vez em quando, dou um cursinho por aí.

13- E sobre o incentivo à cultura-literatura no Rio Grande do Norte, existe? Qual a sua opinião?

A situação é bem melhor do que há vinte anos. Mas ainda é insuficiente e muito há ainda a melhorar.

14- E a Academia Norte-rio-grandense de letras? Nunca esteve nos seus planos?

Durante a minha juventude, quando ouvia falar de Academia de Letras, associava logo aos grandes nomes que a integravam, como Câmara Cascudo, Otto Guerra, Henrique Castriciano e tantos outros. O tempo passou e eu assimilei o conceito de que para ser acadêmico era essencial ter um valor intelectual semelhante ao daqueles personagens. Isto não acontece em nenhum lugar, também não pode na nossa academia. Entretanto, não me acho portador do peso intelectual nem possuo o número de trabalhos publicados que considero necessários para ser um acadêmico. Alguns amigos pertencentes à ANRL tentaram me indicar para uma das vagas que ocorreram. Não encontraram nenhum apoio, conforme eu lhes havia prevenido. Nunca pensei em me candidatar e disputar, pedir votos. Ser acadêmico poderia apenas despertar uma vaidade pessoal que não possuo. É um título que não creio merecer e não acredito que melhoraria o meu desempenho nem a qualidade do que pretendo ainda publicar. E tem mais: chá, eu só tomo se for inglês…

15- O que falta para o escritor local romper com os muros provincianos?

Não é fácil. Permanece o mesmo conceito discriminativo que se origina do geográfico. Concorre também a imposição material da riqueza econômica. O sul maravilha tem as melhores condições. Para enfrentar a onda tem que ter o porte de um Câmara Cascudo, que nunca precisou de apresentações. É mais fácil vencer no “sul maravilha” mesmo sem ter a qualidade de um José Américo, Gilberto Freire, José de Alencar e outros. Nordestinos e distantes, não contam com a mídia formadora de gostos e opiniões, criadora de astros e estrelas.

16- Em sua opinião, a literatura tem alguma obrigação?

A literatura nasceu para cultivar o bem e a beleza até mesmo quando focaliza o mal. O autor sempre se reflete na obra, o que a torna uma atividade essencialmente humana. Obrigação, temos nós, de escolher o bom e descartar o que não presta.

17- Qual a sua maior preocupação ao escrever?

Ser compreendido. E conseguir recobrar a memória de fatos e pessoas que o tempo apagou.

18- Em sua opinião escrever no Brasil é uma tarefa ingrata?  É ainda uma atividade marginalizada?

Se como marginalizada entendermos como pouco prestigiada em número de consumidores só podemos indicar a causa como sendo uma deficiência desse mesmo público. A literatura é uma arte e, como tal, tem que se apoiar no tripé: autor, obra e consumidor. Se falhar um dos itens o processo emperra. Num país com o número de analfabetos e semialfabetizados como o nosso não se pode esperar muito. Por melhor que sejam o autor e a obra, se o público não tiver condições de absorvê-los…

19- Em uma perspectiva histórica, quais seriam os dez maiores intelectuais potiguares do passado?

Já que respondi a todas as outras perguntas, mas para esta evoco (mesmo não estando preso), o direito constitucional de permanecer em silêncio.

20- E o mercado editorial local, mudou muito em relação, por exemplo, a quando você estreou em livro?

Mudou, sim. Hoje temos muitas editoras e muitos editores. O computador desempenha papel fundamental no processo. Os custos é que continuam altos, mas o padrão de qualidade é muito maior.

21- Você conhece outros pesquisadores da história e da cultura potiguar da atualidade?

Conheço sim, mas vou me permitir não citar nomes. A Universidade, com seus cursos de letras e história, desempenha papel fundamental, pois fornece e indica os instrumentos de trabalho de que antes os estudiosos se ressentiam. A vocação, a tendência pessoal de quem escreve é fundamental, mas o emprego de técnicas normativas e científicas tornam o resultado muito mais consistente.

22- Claudio Galvão, até aqui, literariamente falando, tudo valeu a pena?  

Tudo vale a pena, disse Fernando Pessoa, principalmente para quem tenta que sua alma não seja pequena. Disse ele que Deus ao mar o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu. Talvez seja a hora de esclarecer um detalhe: sendo a literatura uma arte, eu considero o que publico apenas como a exposição do resultado de uma ou mais pesquisas. Sou apenas um pesquisador, um técnico que tem publicado o que recolhe. Isto me faz lembrar uma tirada do poeta e crítico literário Antônio Pinto de Medeiros, em sua página o SANTO OFÍCIO, no DIÁRIO DE NATAL, quando um poeta da terra lhe mandou um livro de versos para ele comentar. Com a ironia que lhe era peculiar, disse o crítico: “Fulano está escrevendo poesias e, o que é PIOR, publica.” Para mim valeu a pena e, pelos temas abordados, sinto-me como se estivesse cumprindo um dever. Agora… se alguém leu e achou que valeu a pena ler… melhor para mim.

23- E os planos literários para o futuro?

Tenho mais de dez pastas cheias de anotações de material pesquisado. Algumas delas têm já o livro esquematizado, precisando apenas começar a escrever. Será que vou ter tempo para isto, se este tempo se torna cada vez mais curto?

24- Quem é o escritor Claudio Galvão?

Quando o historiador Olavo de Medeiros Filho lançou um dos seus livros eu lhe disse: “Quando eu crescer quero ser um pesquisador como você.” Claro que não consegui. Entretanto, gosto de fazer bem feito aquilo que posso fazer. Já fui “acusado” de perfeccionista. Acontece que não sei mostrar pouco tendo muito a dar. Adotei como lema de trabalho o mesmo que adotava o Infante D. Henrique, mentor das grandes navegações portuguesas: “Talent de bien faire”, que pode ser entendido como: “Vontade de fazer bem”, de fazer bem feito. Não gostaria que coubesse em meu trabalho a frase de Antônio Pinto e eu me identificasse como alguém que pesquisa e, o que é PIOR… publica.


Crédito da foto: Sergio Vilar

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Thiago Gonzaga

Pesquisador da literatura potiguar e um amante dos livros.

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