De Lassie a Forte

Daladier Pessoa Cunha Lima2 de junho de 2020Opinião, Artigos e Crônicas, Image

Quando criança, em Nova Cruz-RN, criei um lindo cachorro de nome Lassie, presente de meus pais que o trouxeram do Recife. Ele veio em viagem de trem, pois, no passado, Nova Cruz se ligava por via férrea a Natal, a João Pessoa e a Recife.

Foram muitos avanços que o trem proporcionou à maioria das cidades do Nordeste, um progresso que, por descaso ou inépcia, deixaram definhar.

Para mim, em particular, e para meus irmãos, o trem era uma festa, não somente pelo burburinho alegre da estação de Nova Cruz, mas também pelas viagens para João Pessoa, cidade dos meus avós paternos. Ainda hoje, ressoam na minha mente o apito da máquina Maria Fumaça, a voz dos vendedores de rolete de cana e o badalar dos sinos das estações.

Mas há uma outra benesse: o trem tornou viável a vinda do Recife do meu cãozinho Lassie, talvez uma mistura de vira-lata com collie. Tinha pelos amarelo-ouro, era dócil, brincalhão e encheu de alegrias nossa casa de Nova Cruz, no meu tempo de menino.

Pouco depois de casar e de ter minha casa, tratei logo de criar um cachorro pequinês, todo pretinho, de nome Bug. Ele iniciou uma sequência de 12 cães, machos e fêmeas, que adotei e criei, sob constantes cuidados e carinhos de toda a família.

Devo dizer que sempre optei por cachorros que fossem nascidos de cruzamento de raças, melhor dizendo, que mostrassem algum sinal de origem vira-lata, pois muito me prendem a atenção esses cãezinhos tão espertos, leais e resistentes.

Ah! Houve uma exceção, uma cadela de raça pura, a mais inteligente e a mais bonita que já passou pela minha casa, onde viveu por 18 anos. De fato, ela era de raça pura, vira-lata pura, magrinha, esbelta, rápida, atenta, cor amarelo-mel, de porte médio-pequeno. Veio da praia de Pirangi do Norte, e sua mãe chamava-se Catita, uma cadela de rua muito conhecida naquela praia, ainda no tempo em que o local era calmo e sem barulho. Para evocar o nome da mãe, talvez, ela pegava qualquer catita errante que tentasse entrar em casa. Ganhava dos gatos.

Respeito todos quantos preferem criar cachorros de raça pura, bem como os profissionais que recomendam essa opção.

Hoje, fico pasmo com as histórias que escuto dos gastos e das atenções que esses bichinhos de estimação exigem de seus donos. Não são eles propriamente dito, mas as circunstâncias que envolvem a decisão de criar em casa um animal de raças tão variadas, para com ele ou com ela partilhar afeto e bem querer, prática recomendada pela psicologia.

Nos dias atuais, tenho em casa um belo exemplar de cão, talvez uma mistura de vira-lata com pastor. É robusto, tamanho médio, e atende pelo nome de Forte.

O dono dele mesmo é meu neto Gabriel, que vem sempre vê-lo, e repete uma expressão muito em voga nos dias atuais: “Vô, é guarda compartilhada”.

Fui comprar ração para Forte em uma loja do ramo. A mocinha que me atendeu perguntou qual era a raça do cachorro. Respondi: “Ele tem cerca de 10 kg, ainda é filhote, e é uma mistura, talvez de vira-lata e pastor”. A mocinha, com desdém, disse que para esse “tipo” não tinha ração. Pedi para falar, então, com alguém que entendesse de cachorro, e não só de raças. Perdoei a ingênua mocinha, e o rapaz que veio atender – já veio rindo – foi atencioso e me ajudou na escolha do produto certo.

Sobre o autor

Daladier Pessoa Cunha Lima

Primeiro reitor eleito da UFRN. Exerceu o cargo de 1987 a 1991. Graduado em Medicina pela UFRN (1965), tem especialização em Medicina do Trabalho e Administração Universitária, com vivência em instituições universitárias no exterior. Ao se aposentar, abdicou da Medicina e optou pela Educação, tendo se dedicado à instalação da FARN, atual UNI-RN, no ano de 1999. É, ainda, membro da Academia de Medicina do RN e do Instituto Histórico e Geográfico do RN. É autor dos livros Noilde Ramalho – uma história de amor à educação e Retratos da Vida, além de outras publicações. E em abril/2017 foi eleito para a cadeira nº 3, da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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