Alguns especialistas dizem que, somente ao superar um trauma, é possível relatar, com alguma veracidade, os eventos que o causaram.
Embora concorde com tal raciocínio, abordei por esses dias um assunto cujo resultado traumático me perseguiu por toda a vida, embora naturalmente perca gradualmente a força ao longo dos anos, ainda continua vivo em minha memória.
No último dia 23 deste mês completou-se vinte anos que o falecido Gugu Liberato – que Deus o tenha – me levou na marra para o sertão paraibano, onde permaneci por mais de uma década sem qualquer contato com meus familiares.
O lamentável ocorrido – que não chamarei de rapto, por temer eventuais represálias judiciais – se deu por ocasião das filmagens do quadro “De volta para a minha terra”, que era transmitido em seu programa dominical.
Tal quadro televisivo influenciou fortemente o programa de combate à imigração ilegal dos Estados Unidos.
Naquela época, eu tinha 12 anos e trabalhava como ajudante de pedreiro.
Havíamos chegado há poucos meses em São Paulo, para onde fui com meus pais e meus quinze irmãos esperançosos de conseguir melhores condições de vida.
Saímos do interior do Pará, do distrito de Arumanduba, atualmente extinto, pois foi engolido pelo rio Amazonas.
Após uma desconfortável viagem de sete dias, chegamos a São Paulo e, sem auxílio governamental – inexistente na época – tive que trabalhar para ajudar nas despesas de casa, e encontrei emprego na construção civil.
Eu ainda não era alfabetizado, e aproveitava os momentos de descanso na obra para estudar sozinho a cartilha Caminho Suave, que tinha ganhado de uma vizinha que já havia frequentado o supletivo na rede estadual de ensino.
Esse hábito suscitava piadinhas maldosas dos meus companheiros de trabalho, sobretudo do encarregado, de quem não sei o nome civil, pois era conhecido pela alcunha de Bira.
Sujeito altamente pernóstico e invejoso, desconfio até hoje, sem recear estar cometendo alguma injustiça, que foi ele quem me denunciou para a produção do Gugu.
Já estava há alguns meses em São Paulo, mas ainda não havia regularizado minha situação.
Por ser oriundo da parte de cima do mapa do Brasil, fui apelidado de Paraíba, sendo vãs as tentativas de esclarecer que Norte e Nordeste são regiões distintas.
“Da Bahia pra cima é tudo Paraíba”, dizia Bira com desdém.
Certo dia, perto da hora do almoço, fui abordado por cinegrafistas e pelo apresentador Gugu que, entusiasmado, anunciava que me mandaria de volta para o nordeste, sendo que, conforme esclareci, nem nordestino eu sou.
Bira (provavelmente foi ele) havia me denunciado como nordestino irregular em São Paulo.
De nada adiantou tentar explicar o equívoco para a equipe do Gugu, pois logo fui colocado num antigo ônibus da Itapemirim, no qual fui obrigado a viajar, sendo seguido pelas estradas por indivíduos da produção do programa que, além de se certificarem que eu não fugiria, me filmavam em todas as paradas.
Após dias de viagem, chegamos a uma propriedade rural, no sertão paraibano – não revelarei o nome da cidade por questões políticas – onde Gugu já nos aguardava devidamente penteado, bem alimentado e bem vestido, pois havia ido para lá de jatinho.
Fui recepcionado com festa, ao som de um trio de forrozeiro, algo absolutamente inédito para mim.
Logo, todos foram embora, e lá permaneci, sem conseguir voltar para São Paulo, pois não tinha dinheiro para tal viagem.
Ao menos ganhei da produção do programa uma máquina de fazer chinelo, uma caixa de Minâncora e vários fardos de farofa Zaeli, que foi meu único alimento por meses naquele desolador fim de mundo.
Cheguei a escrever para meus pais meses depois explicando o ocorrido, mas foi em vão, pois eles eram analfabetos.
Quando finalmente consegui reencontrá-los, pude esclarecer o que tinha acontecido, mas eles até ficaram felizes com meu desaparecimento, pois era uma boca a menos para alimentar.
Ao longo da minha vida, sempre evitei falar sobre esse ocorrido, até mesmo pelo fato de a história parecer absurda e inverídica.
O fato de falar sobre este assunto, no entanto, é sintoma de que estou superando o trauma de ter sido arrebatado de onde morava e levado para um local desconhecido, sob argumento de que, da Bahia pra cima, é tudo Paraíba.
Recentemente tentei obter uma reparação da emissora que veiculava o programa, e eles se limitaram a dizer, se eu tivesse achando ruim, que os ressarcisse dos custos de minha viagem e devolvesse a máquina de fazer chinelos e as farofas, o que é impossível, pois já comi tudo anos atrás.
