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Claudio Galvão, o pesquisador de 18 livros

Sérgio Vilar15 de fevereiro de 2019Literatura, , Image

Essa matéria abaixo, de autoria deste editor, foi publicada em 27 de novembro de 2011, no semanário O Poti. Foi provocada pela eminência do lançamento do livro biográfico do músico Waldemar de Almeida, pelo professor Claudio Galvão. Não só esse livro foi lançado, mas outros mais, no decorrer desse tempo, como o mais recente, sobre o lado musicista de Câmara Cascudo. Então, a reprodução desse título já está defasada.

Mas há uma razão para eu republicar esse texto. Recebi email do professor Felipe Morais, de Língua Portuguesa e Literatura do IFRN Campus Pau dos Ferros. Em 2016 ele recorreu ao Arquivo Público do Estado para concluir sua pesquisa doutoral. Lá, teve contato com Claudio Galvão, então diretor do órgão. E dessa conversa, ele lembrou o seguinte:

“Ele me disse uma coisa que não me saiu da cabeça: que, ao terminar minha tese, fizesse uma cópia e deixasse no Arquivo Público, inclusive como registro das serventias que esse arquivo a todos nos dá. Completou, ainda, que muitos utilizavam os tesouros da casa, mas poucos voltavam para a ela dar algum retorno”.

Concluída a tese, o professor procurou Claudio Galvão no Arquivo Público, no Alecrim, mas soube que não só o Arquivo mudou de endereço, mas que Claudio havia deixado a direção do centro. Foi quando, à procura de algum contato de Claudio, Felipe encontrou essa matéria abaixo, que escrevi, e resolveu me enviar o email para afirmar que atendeu o apelo de Claudio e deixou uma cópia de sua tese no Arquivo Público.

Quem quiser conferir a tese do professor Felipe Morais, sob o título ‘Nas trilhas da escrita: reedição e análise grafemática das cartas oficiais norte-rio-grandenses (1713-1950)’, pode conferir AQUI também.

E abaixo, segue a matéria sobre Claudio Galvão. E percebam o tamanho da importância deste pesquisador para a história do nosso Estado.

Claudio Galvão, o pesquisador de 18 livros

Os ofícios de historiador, pesquisador e escritor se confundem muitas vezes. Saber o espaço onde cada um começa e termina é tarefa hercúlea. E para definir o trabalho de Cláudio Galvão é preciso diagnosticar essa linha divisória ou eliminar de vez todas elas. O autor de 18 livros, cujas temáticas resgatam histórias mais das vezes desconhecidas da cultura potiguar, preenche esses campos com a maestria incansável de quem nunca abandonou as páginas emboloradas dos jornais e documentos antigos. E emprega recursos literários às histórias relatadas após minucioso trabalho de pesquisa.

Aos 74 anos, Cláudio Galvão pesquisava nos arquivos do Diário de Natal informações para novo livro quando foi abordado para entrevista. O músico macauense Waldemar de Almeida será o biografado da vez. A linha musical predomina entre suas pesquisas. Cláudio é músico e estudioso da arte. Publicou livro onde resgatou 300 modinhas antigas cantadas em Natal no início do século passado. Também trouxeà tona a vida do maestro potiguar Oswaldo de Souza, de fama internacional e pouco reconhecido em seu chão, e detalhou a vida do autor do clássico Royal Cinema, Tonheca Dantas.

Para escrever A Modinha Norte-rio-grandense (2000), pesquisou a existência de descendentes e velhos seresteiros, e entrevistou cada um acompanhado de gravador e violão. Enquanto ouvia a cantoria, anotava as notas, tocava no violão e gravava. Em casa, transcrevia tudo em formato de partitura de música – conhecimento restrito a músicos eruditos. “Não havia copista à época. Havia uma máquina datilográfica no Rio de Janeiro capaz dessa transcrição para partitura, mas custava um salário e meio do meu ordenado. Não dava”.

Em viagem à Europa, em 1992, Cláudio Galvão procurou um programa de computador com essa finalidade. Espanha, França… “Só na Holanda me informaram que existia esse programa, mas na Alemanha. Não havia mais tempo. Um colega que me acompanhava comprou e trouxe depois a Natal. Era na base do DOS. Desconheço quem tenha feito essa transcrição à época”. Quando Cláudio já contava mais de 100 modinhas transcritas, surgiu o fenômeno criado pelo gênio Bill Gates. “O Windows inviabilizou meu trabalho e precisei refazer tudo”.

Diferencial

O legado literário deixado por Cláudio Galvão é tão importante quanto as temáticas e personagens dos seus livros. Mesmo quando passeia pela literatura, a música emana quase por osmose. Foi assim quando escreveu Príncipe Plebeu (2010) – uma biografia do poeta Othoniel Menezes. O livro veio acompanhado de CD com poemas musicados do autor-letrista de Serenata do Pescador (Praieira); ou quando publicou Cancioneiro de Auta de Sousa (2000), fruto do trabalho de pesquisa, textos e também grafia musical. Ou ainda o livro Modinhas Baianas no RN (1991).

Da restauração ao descaso

Quando largou a chefia do Departamento de Artes, Cláudio elaborou projeto para um laboratório de restauração de documentos manuscritos e impressos na UFRN. “Entreguei ao diretor do Centro de Ciências Humanas da UFRN, Jardelino Lucena. Quando a professora Esther Bertoletti, do Ministério da Cultura, visitou Natal para microfilmagem dos jornais antigos do Instituto Histórico e Geográfico, meu projeto chegou às suas mãos”. Dias depois Cláudio recebe uma correspondência com aprovação do projeto pelo Programa Promemória. “Acredito ter sido Zila quem indicou o projeto ao MinC. Sei que recebi uma bolada pra tocar o projeto”.

O espaço foi conseguido no prédio de Ciências Humanas da UFRN. Migrou depois para a traseira da Biblioteca Central Zila Mamede e hoje descansa em pequena sala no Departamento de História. Nos primeiros anos, o laboratório foi responsável pela restauração de pilhas de jornais do IHGRN e dos dois primeiros anos de jornal do Diário de Natal (1939 e 1940). Tudo encadernado em folha japonesa e com produtos químicos para evitar decomposição. “Saí de lá só em 1998. Durante anos procurei substituto. Por ser trabalho voluntário e muito trabalhoso, ninguém aceitou. Então eu saí”.

Aposentado desde 1991 pela UFRN, e com mais tempo para se dedicar a outras atividades, recebeu um empurrão do acaso: “Em viagem ao Rio de Janeiro para contatos com a Funarte, uma moça perguntou de Oswaldo de Souza – um dos principais músicos do país em orquestra de câmara – estava vivo e se eu não toparia escrever sua biografia. Topei. E não parei mais”.

Descobertas de Ferreira Itajubá e Waldemar de Almeida

O último livro publicado de Cláudio Galvão foi a segunda edição de O Gracioso Ramalhete, relançado há dois meses pela Editora da UFRN. Traz poemas inéditos de Ferreira Itajubá. Esses poemas foram publicados no jornal O Torpedo – produzido por uma espécie de associação de literatos na primeira década do século passado – e assinados pelo pseudônimo de Estela Romariz. Além do contexto da época, da história do periódico e dos poemas, a veia determinada do pesquisador também trouxe mais ineditismo à obra:

“Imagine o alvoroço na cidade quando seis navios de guerra dos Estados Unidos ancoraram no Rio Potengi em 1967. Consegui as fotos inéditas desses navios, a muito custo. Estavam em um livro em homenagem ao fotógrafo franco-brasileiro Marc Ferrez (1843-1923), esquecidas no Rio de Janeiro. Mas é uma coisa que pouco se noticia, pouco se dá valor”, lamenta. De fato, o livro passou praticamente em branco pela mídia. Como também a vida do macauense Waldemar de Almeida, responsável pelo maior movimento pedagógico da música potiguar.

Waldemar de Almeida (1904-1975) marcou época em Natal com o curso de piano entre as décadas de 30 e 50. “Foi um trabalho inigualável até hoje”. Algumas senhoras natalenses se notabilizaram a nível nacional ao piano após o curso no instituto criado por ele, a exemplo de Eliana Caldas Silveira. Passou a morar em Recife quando governantes reduziram a verba para manter o Instituto. Sua biografia figura hoje em diversos dicionários musicais na Argentina, México, Espanha, Estados Unidos e em compêndios da história da música brasileira.

Antes de morrer, o músico produziu uma espécie de livro de memórias relatando vivências na Natal da Belle Époque nas primeiras décadas do século 20. Paisagens, brincadeiras infantis, costumes, tudo anotado e hoje nas mãos de Cláudio Galvão. “Essa autobiografia iniciará o livro, com rodapés escritos por mim para explicar algumas situações. A história de Waldermar em Natal termina em 50. Estou mais ou menos na década no ano de 47. Depois viajo a Recife onde mora um filho dele, médico (o outro é violoncelista em Los Angeles, EUA), para outras pesquisas”, adianta Cláudio.

Emérito das artes

Cláudio Galvão cursou o ginásio no Sete de Setembro, o científico no Atheneu e História na então Faculdade de Filosofia (depois também de Ciências e Artes). O primeiro emprego, já aos 17 anos, foi de controlador de som na Rádio Nordeste. Foi também corretor de propaganda da Rádio Rural, onde também comandou o programa O Mundo da Música. “Tocava música erudita. Muitas vezes visitava o instrumentista, gravava e transmitia na rádio. Fiz até com Candinha Bezerra, então estudante de piano”, lembra.

Envolvido no curso de história, largou a rádio e se iniciou no magistério. “Dava aula onde aparecia espaço. Às vezes chegava em casa sem voz”. Em 1963 foi convidado a ministrar aula de História Medieval e História da Arte na Faculdade de Filosofia. Em 1971, cursou pós-graduação na Europa. “Sairia o primeiro doutor de Natal, mas a bolsa que pensei ter dava direito apenas à gratuidade do curso. Já estavacasado e sem condições de me manter lá, voltei antes de concluir”.

Em Natal, fundou e chefiou o Departamento de Artes da UFRN entre 1974 e 1981. Tentou implementar, em vão, várias experiências adquiridas na Europa, a exemplo de um laboratório de paleografia (leitura de documentos e escritas antigas). “Na monografia na Europa analisei uma pintura datada de 1420. A imagem no microscópio eletrônico parecia a visão da janela do avião quando se vê uma cadeia de montanhas. Era muito minucioso. Não quiseram implantar esse laboratório aqui”.

Mas no período, trouxe um casal de bailarinos argentinos aposentados pelo maior teatro da América do Sul, o Colón. “Com orientação deles, criamos o salão de balé”. Também fundou a primeira orquestra de alunos do Brasil. “E não tocavam sambinha, não; era música erudita”. A Escola de Música foi montada na então erma Cidade da Esperança, em convênio com a Secretaria Estadual do Bem-Estar Social. O Instituto Nacional de Música doou os instrumentos. “Infelizmente, quando Diógenes daCunha Lima assumiu a reitoria, eu saí, por incompatibilidade de gênios, e nada foi mantido”.

Sobre o autor

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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