Cláudio Galvão: um dos maiores intelectuais do RN nos deixa

Cláudio Galvão

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Cláudio Galvão foi, antes de tudo o que sua vasta biografia mostra, um asceta. Longe de buscar status ou riquezas, se doou a servir de diferentes maneiras. Penso que deixar um legado de pesquisa inigualável na história potiguar, tenha sido o maior deles.

Conheci Cláudio na primeira década deste século, quando entrevistei sua mulher, Mailde Pinto Galvão para uma entrevista sobre mulheres perseguidas no período ditatorial. Mailde foi uma grande companheira de Cláudio e sua morte em 2013 foi um grande choque para ele.

Visitei seu apartamento no Barro Vermelho duas vezes para outras matérias, sendo uma delas na Revista Palumbo, que eu editava. Muitas das fotos que circulam pela internet, com Cláudio em frente à estande de livros é minha. Depois estive com ele quando dei a ideia da homenagem do Troféu Cultura pelo seu legado, acho que em 2021, o qual fez longo discurso no palco do Teatro Riachuelo.

Era uma figura encantadora. Um dos maiores intelectuais vivos do nosso Estado. Poliglota, lia partituras de músicas e nos deixou livros e biografias riquíssimas de informações sobre outros grandes nomes do nosso Estado.

Tinha algumas rusgas do passado com Diógenes da Cunha Lima e nunca sequer foi cogitado para uma cadeira na Academia de Letras. Nada que altere sua imortalidade nos tantos livros deixados. Ou mais ainda: imortalizado na mente e nos corações de quem o conheceu.

Desconheço a causa da morte de Cláudio ou sua idade. Apenas li a notícia no zap. Penso que tinha uns 87 anos ou mais.

Cláudio Galvão deixou livros sobre o músico macauense Waldemar de Almeida, resgatou 300 modinhas antigas cantadas em Natal no início do século passado, trouxe à tona a vida do maestro potiguar Oswaldo de Souza, de fama internacional e pouco reconhecido em seu chão, detalhou a vida do autor do clássico Royal Cinema, Tonheca Dantas, entre outras dezenas de obras.

Para escrever A Modinha Norte-rio-grandense (2000), pesquisou a existência de descendentes e velhos seresteiros, e entrevistou cada um acompanhado de gravador e violão. Enquanto ouvia a cantoria, anotava as notas, tocava no violão e gravava. Em casa, transcrevia tudo em formato de partitura de música – conhecimento restrito a músicos eruditos.

“Não havia copista à época. Havia uma máquina datilográfica no Rio de Janeiro capaz dessa transcrição para partitura, mas custava um salário e meio do meu ordenado. Não dava”, me disse certa vez.

O legado literário deixado por Cláudio Galvão é tão importante quanto as temáticas e personagens dos seus livros. Mesmo quando passeia pela literatura, a música emana quase por osmose. Foi assim quando escreveu Príncipe Plebeu (2010) – uma biografia do poeta Othoniel Menezes. O livro veio acompanhado de CD com poemas musicados do autor-letrista de Serenata do Pescador (Praieira); ou quando publicou Cancioneiro de Auta de Sousa (2000), fruto do trabalho de pesquisa, textos e também grafia musical. Ou ainda o livro Modinhas Baianas no RN (1991).

Da restauração ao descaso

Quando largou a chefia do Departamento de Artes, Cláudio elaborou projeto para um laboratório de restauração de documentos manuscritos e impressos na UFRN. “Entreguei ao diretor do Centro de Ciências Humanas da UFRN, Jardelino Lucena. Quando a professora Esther Bertoletti, do Ministério da Cultura, visitou Natal para microfilmagem dos jornais antigos do Instituto Histórico e Geográfico, meu projeto chegou às suas mãos”. Dias depois Cláudio recebe uma correspondência com aprovação do projeto pelo Programa Promemória. “Acredito ter sido Zila quem indicou o projeto ao MinC. Sei que recebi uma bolada pra tocar o projeto”.

O espaço foi conseguido no prédio de Ciências Humanas da UFRN. Migrou depois para a traseira da Biblioteca Central Zila Mamede e hoje descansa em pequena sala no Departamento de História. Nos primeiros anos, o laboratório foi responsável pela restauração de pilhas de jornais do IHGRN e dos dois primeiros anos de jornal do Diário de Natal (1939 e 1940). Tudo encadernado em folha japonesa e com produtos químicos para evitar decomposição. “Saí de lá só em 1998. Durante anos procurei substituto. Por ser trabalho voluntário e muito trabalhoso, ninguém aceitou. Então eu saí”.

Aposentado desde 1991 pela UFRN, e com mais tempo para se dedicar a outras atividades, recebeu um empurrão do acaso: “Em viagem ao Rio de Janeiro para contatos com a Funarte, uma moça perguntou de Oswaldo de Souza – um dos principais músicos do país em orquestra de câmara – estava vivo e se eu não toparia escrever sua biografia. Topei. E não parei mais”.

Descobertas de Ferreira Itajubá e Waldemar de Almeida

Um dos livros publicados de Cláudio Galvão foi a segunda edição de O Gracioso Ramalhete, relançado há dois meses pela Editora da UFRN. Traz poemas inéditos de Ferreira Itajubá. Esses poemas foram publicados no jornal O Torpedo – produzido por uma espécie de associação de literatos na primeira década do século passado – e assinados pelo pseudônimo de Estela Romariz. Além do contexto da época, da história do periódico e dos poemas, a veia determinada do pesquisador também trouxe mais ineditismo à obra:

“Imagine o alvoroço na cidade quando seis navios de guerra dos Estados Unidos ancoraram no Rio Potengi em 1967. Consegui as fotos inéditas desses navios, a muito custo. Estavam em um livro em homenagem ao fotógrafo franco-brasileiro Marc Ferrez (1843-1923), esquecidas no Rio de Janeiro. Mas é uma coisa que pouco se noticia, pouco se dá valor”, lamenta. De fato, o livro passou praticamente em branco pela mídia. Como também a vida do macauense Waldemar de Almeida, responsável pelo maior movimento pedagógico da música potiguar.

Waldemar de Almeida (1904-1975) marcou época em Natal com o curso de piano entre as décadas de 30 e 50. “Foi um trabalho inigualável até hoje”. Algumas senhoras natalenses se notabilizaram a nível nacional ao piano após o curso no instituto criado por ele, a exemplo de Eliana Caldas Silveira. Passou a morar em Recife quando governantes reduziram a verba para manter o Instituto. Sua biografia figura hoje em diversos dicionários musicais na Argentina, México, Espanha, Estados Unidos e em compêndios da história da música brasileira.

Antes de morrer, o músico produziu uma espécie de livro de memórias relatando vivências na Natal da Belle Époque nas primeiras décadas do século 20. Paisagens, brincadeiras infantis, costumes, tudo anotado e depois organizado em livro, com o adendo de vasta pesquisa pelas mãos de Cláudio Galvão.

Emérito das artes

Cláudio Galvão cursou o ginásio no Sete de Setembro, o científico no Atheneu e História na então Faculdade de Filosofia (depois também de Ciências e Artes). O primeiro emprego, já aos 17 anos, foi de controlador de som na Rádio Nordeste. Foi também corretor de propaganda da Rádio Rural, onde também comandou o programa O Mundo da Música. “Tocava música erudita. Muitas vezes visitava o instrumentista, gravava e transmitia na rádio. Fiz até com Candinha Bezerra, então estudante de piano”, lembra.

Envolvido no curso de história, largou a rádio e se iniciou no magistério. “Dava aula onde aparecia espaço. Às vezes chegava em casa sem voz”. Em 1963 foi convidado a ministrar aula de História Medieval e História da Arte na Faculdade de Filosofia. Em 1971, cursou pós-graduação na Europa. “Sairia o primeiro doutor de Natal, mas a bolsa que pensei ter dava direito apenas à gratuidade do curso. Já estavacasado e sem condições de me manter lá, voltei antes de concluir”.

Em Natal, fundou e chefiou o Departamento de Artes da UFRN entre 1974 e 1981. Tentou implementar, em vão, várias experiências adquiridas na Europa, a exemplo de um laboratório de paleografia (leitura de documentos e escritas antigas). “Na monografia na Europa analisei uma pintura datada de 1420. A imagem no microscópio eletrônico parecia a visão da janela do avião quando se vê uma cadeia de montanhas. Era muito minucioso. Não quiseram implantar esse laboratório aqui”.

Mas no período, trouxe um casal de bailarinos argentinos aposentados pelo maior teatro da América do Sul, o Colón. “Com orientação deles, criamos o salão de balé”. Também fundou a primeira orquestra de alunos do Brasil. “E não tocavam sambinha, não; era música erudita”. A Escola de Música foi montada na então erma Cidade da Esperança, em convênio com a Secretaria Estadual do Bem-Estar Social. O Instituto Nacional de Música doou os instrumentos. “Infelizmente, quando Diógenes da Cunha Lima assumiu a reitoria, eu saí, por incompatibilidade de gênios, e nada foi mantido”.

Chefiou e foi um guardião do Arquivo Público do Estado, que vivia às traças sem qualquer incentivo do poder público. E vou contar um relato que diz muito sobre a personalidade de Cláudio. Uns dez anos atrás eu recebi email do professor Felipe Morais, de Língua Portuguesa e Literatura do IFRN Campus Pau dos Ferros. Ele havia recorrido ao Arquivo Público para concluir sua pesquisa doutoral. Lá, teve contato com Claudio Galvão, então diretor do órgão. E dessa conversa, ele lembrou o seguinte:

“Ele me disse uma coisa que não me saiu da cabeça: que, ao terminar minha tese, fizesse uma cópia e deixasse no Arquivo Público, inclusive como registro das serventias que esse arquivo a todos nos dá. Completou, ainda, que muitos utilizavam os tesouros da casa, mas poucos voltavam para a ela dar algum retorno”.

Quando o professor voltou lá com a cópia, o Arquivo havia mudado de endereço por condições precárias do prédio e Cláudio já havia saído do cargo. Até hoje o Arquivo resiste em condições deploráveis.

Seguem abaixo uma foto de Cláudio Galvão com o mestre Oswaldo Lamartine, e outras que tirei de minha máquina quando da visita ao seu apartamento.

Crédito das fotos: Sergio Vilar

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Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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