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Conheça a história de Boi de Prata, principal filme do cinema potiguar

O icônico filme ‘Boi de Prata’ foi finalmente digitalizado e terá a primeira exibição com novo tratamento na cidade onde foi filmado, 40 anos atrás: Caicó. O anfiteatro do Ceres-UFRN receberá a película nesta segunda-feira (30) a partir das 19h, com acesso livre. O Papo Cultura conversou com a responsável pelo processo de restauração do filme, a historiadora Flávia Assaf. Uma verdadeira aula de história e de resgate de fatos e referências do cinema nacional. Confiram:

ENTREVISTA – FLÁVIA ASSAF

Como você insere Boi de Pata na história do audiovisual potiguar?

Antes do BOI DE PRATA (1981), houve o longa JESUÍNO BRILHANTE (COLBERT, 1972), filmado no RN por um diretor potiguar, lembrado sempre como o primeiro. Porém, o fato de o diretor, produtor e roteirista, o caicoense Carlos Augusto da Costa Ribeiro Júnior, ter recrutado entre os potiguares, atores, figurantes, técnicos e outros artistas, como o músico Mirabô (autor de canções originais primorosas e da trilha impecável), fez com que a população tivesse um envolvimento afetivo maior com a película, eu acredito.

O filme BOI DE PRATA tem lugar de destaque não somente na história do audiovisual potiguar, mas também na história do cinema nacional. O filme foi produzido porque Augusto Ribeiro Júnior teve um tremendo senso de oportunidade. Nascido em Caicó, mudou-se com a família para Brasília, no período de sua inauguração (1961). Estudou cinema na UNB, onde conheceu Nelson Pereira dos Santos, de quem foi aluno e assistente em trabalhos como o AMULETO DE OGUM (1974), por exemplo.

Um grupo de cineastas ligado ao Cinema Novo trabalhou e conseguiu mudar o status da Embrafilme de divulgadora do cinema nacional no exterior para produtora e distribuidora de filmes nacionais, e, mesmo o país estando sob regime ditatorial, o grupo assumiu o poder na estatal ao emplacar o produtor Roberto Farias na presidência. Deu-se aí o início da execução de uma antiga reivindicação dos profissionais de cinema: a política de regionalização da produção.

Nelson Pereira e Roberto Farias estiveram em Natal em fevereiro de 1973 para conseguir a adesão do governo do estado na produção de filmes pelo sistema de “2 por 1″, ou seja, a Embrafilme entraria com dois terços dos custos de produção e o estado, com um terço. Fazer um filme em 35mm num dos menores e mais pobres estados da União, certamente seria uma grande vitória para a política de regionalização, por isso o empenho.

Nelson Pereira, Farias e o secretário João Faustino (Secretaria de Educação e Cultura), trabalharam até que os contratos entre a Embrafilme e o Governo do estado do RN fossem assinados, em 1976.

O roteiro escolhido para ser o primeiro filme dessa parceria era a peça JOÃO FARRAPO, do teatrólogo Meira Pires, artista potiguar de renome nos meios culturais de todo o Brasil. Ribeiro Júnior, que acompanhou todo o processo de perto, como assistente de Nelson Pereira dos Santos, correndo por fora, conseguiu, no mesmo dia, assinar um contrato com a estatal de cinema e o governo do RN para produzir e distribuir o seu filme, que inicialmente se chamaria MEU BOI DE PRATA.

A produção do filme com o roteiro de Meira Pires, depois de sofrer muitos revezes, não foi adiante. Mas Ribeiro Júnior, talvez por ser do meio cinematográfico, conseguiu por em pé a produção e filmar seu roteiro. E no dia 28 de novembro de 1978, a equipe desembarcava em Natal para dias depois, juntamente com os técnico e artistas locais, seguir para Caicó, onde seria filmada a maior parte das cenas.

Qual comparação pode ser feita com Bacurau?

Ambos os filmes trazem na trama central a história de ataques feitos por estrangeiros (ou seus agentes) à população de uma cidade do sertão nordestino, situação revertida com a união da comunidade e o uso da violência. Ambas aludem à violência do colonialismo, ao “entreguismo” dos agentes locais da colonização, e da resistência e coragem dos povos colonizados, bem aos moldes de Frantz Fanon, intelectual e médico martinicano que atuou na revolução da Argélia (1954-1962), cujos escritos sobre as questões colonialistas, como PELE NEGRA MÁSCARAS BRANCAS (1952) e OS DESERDADOS DA TERRA (1962), tem influenciado cineastas brasileiros desde a década de 60 do século passado até os nossos dias.

Por que tanto tempo para esse processo de digitalização de um filme tão importante para a cinematografia potiguar?

Antes de mim, outras pessoas já tinham tentado localizar o filme (considerado perdido por muito tempo) e fazer a digitalização. Augusto Lula, Mary Land Brito e Fábio Desilva haviam tentado em momentos diferentes e esbarraram nos custos e na falta de incentivo para esse tipo de resgate.

Durante a pesquisa que realizei para o meu mestrado em História (Cinema e História dos espaços), na UFRN, conversando com esse pessoal, visitando a Cinemateca Brasileira, e falando com técnicos do Centro Técnico Audiovisual (CTV), eu soube da cópia existente na Cinemateca do MAM-RIO. Como eu sou produtora de audiovisual há mais de 30 anos, ficou fácil entrar em contato e com a instituição e entabular o assunto. O curador da cinemateca, Hernani Heffner, foi muito receptivo, mas exigiu que eu conseguisse a autorização expressa dos herdeiros do diretor para ele liberar a cópia para a digitalização. Como eu já estava em contato com Li Ribeiro, a filha mais velha do diretor, eu tive acesso aos demais filhos. O mais complicado foi localizar um dos filhos que mora no México, Stacy Perskie, que também trabalha com cinema, e foi quem financiou os custos do serviço de digitalização. Houve uma conjunção de fatores (sorte, boa vontade, empenho, tecnologia mais acessível…) que contribuiu para que o filme fosse transcrito do sistema analógico para o digital e pudesse, finalmente, ser apresentado ao público potiguar.

Boi de Prata teve com produtora e distribuidora a Embrafilme, espécie de Ancine dos tempos atuais. Você acredita que hoje Boi de Prata receberia o mesmo tratamento do Governo Federal?

Entrevistando cineastas contemporâneos de Ribeiro Júnior e falando sobre a Embrafilme, ditadura, censura etc… , o que me foi dito era que a Embrafilme autorizava a produção sem qualquer tipo de censura. Depois de realizada, a obra teria que se entender com o Serviço de Censura de Diversões Públicas, vinculado à Polícia Federal. Às vezes, o filme morria ali; às vezes, o censor não entendia o enredo e liberava o filme, como parece ter sido o caso do BOI DE PRATA, que apesar de falar de uma revolta de camponeses, recebeu o alvará de exibição sem maiores problemas. Talvez seja por estar embalado nas cores e nas belezas da cultura popular: Boi Calemba, cordel, vaqueiros…

Nos nossos dias, tudo me parece estar mais difícil no que se refere a fazer arte no nosso país, especialmente cinema. Além da alegada falta de recursos, e da demonização dos artistas por uma parcela da população, os mecanismos de financiamento foram desarticulados e há até quem fale em colocar “filtro” (eufemismo para censura) nas produções cinematográficas. No entanto, eu gosto de pensar que divulgar a história por trás do BOI DE PRATA seja uma forma de incentivar os jovens cineastas de hoje. Se um diretor iniciante conseguiu, durante o regime militar, fazer seu filme no longínquo Rio Grande do Norte, por que os de hoje não poderiam conseguir isso, com toda a tecnologia e o acesso ao conhecimento que se tem? Cinema no Brasil sempre foi resistência. Eu espero e desejo que continue sendo.

Após Caicó, o filme ganhará novas exibições?

Sim. Estamos organizando uma exibição em Natal no final do mês de Outubro ou no início de Novembro, no IFRN. E poderá haver outras mais, se houver público.
Além disso, uma cópia será depositada na Cinemateca Potiguar, do IFRN, e quem quiser, pode agendar para assistir ao filme lá, individualmente ou em grupo. O BOI DE PRATA agora é dos potiguares!

Sobre o autor

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

COMMENTS

Alisson Diego

Natal é composta por vários campi do IFRN qual seria o referido citado no texto acima?

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