bodega de bastião

Bodegueiro mais antigo de Lagoa Nova completa 90 anos na ativa

Eliabe Alves9 de março de 2019Personagens do RN, Image

Para quem está habituado aos supermercados e shoppings da capital, com todas as comodidades proporcionadas pela modernidade, ao chegar na bodega de Bastião, diante do típico cenário tradicional do comercio de interior, que vai da velha balança no balcão, mortadela pendurada, papel de cigarro, fumo de pacote, café, lâmina de barbear, “vitamilho” e outras mercadorias postas nas velhas prateleiras, logo, o visitante terá a impressão de que o tempo parou nesse recanto potiguar, fincado na cidade de Lagoa Nova.

É nesse lugar que Sebastião Martins, “Bastião Ribeiro”, que nesta última sexta-feira (3/8), comemorou 90 anos de idade e mais de 60 de bodega, trabalha. Bastião é um homem cujo o sobrenome do padrasto João Ribeiro de Carvalho (In-memória), ficou impregnado na memória popular, como uma espécie de codinome, devido a convivência e o costume interiorano.

Como o mais antigo bodegueiro da cidade, ele continua como as atividades do pequeno comércio de secos e molhados, atendendo seus clientes, alguns deles, apreciadores de aperitivos, que passam para trocar algumas prosas ao pé do balcão, como nos velhos tempos se faziam em outras cidades da Serra de Santana, onde existiam confiança nas palavras empenhas, com amontanhados cadernos, cheios de compras confiadas para pagamentos no final de cada mês.

Aperitivos ao pé do balcão

Há até fregueses de mesma família, em que a preferência passa de uma geração a outra. Aconteceu dessa maneira com José de França, o “Zezão”, hoje com 74 anos, que relata que permanece tomando umas e outras no local, atendendo um pedido de seu falecido pai, Felino Neto, que próximo da despedida final, em nome da amizade de ambos, disse que não era para deixar o proprietário sozinho.

Apesar de ter sido, ao longo de alguns anos, banqueiro de jogo de carteado, Bastião diz que seu único vício é trabalhar e, atualmente, dividiu os quinze alqueires do sítio com os filhos. Pelas condições de saúde e a idade avançada, não pode mais exercer sua paixão pela agricultura. Mesmo assim declara: “Até dormindo sonho limpando mato e plantando milho e feijão”.

Fachada da bodega tradicional, que curiosamente nunca possuiu letreiro (Foto: JR)

Sobre a garra do pai, a filha Benedita Martins, “Didita”, diz que ele conseguiu criar cinco filhos com muita luta e, sobretudo, aprendeu a ler, escrever e contar sozinho.

O empreendimento iniciado por volta de 1965, na avenida Dr. Sílvio Bezerra de Melo, 113, na década de 70 mudou para um anexo vizinho e, poucos anos depois, quando faleceu a sua mãe, fixou-se onde funciona até hoje, na mesma avenida.

Os produtos comercializados, inicialmente, eram rapadura em carajaus, montados com paus finos, cordas e revestidos por folhas de cana, cachaça brejeira em barril, jabá, peixes salgados, vendidos em esteiras de carnaúbas, sabão em barras, embrulhados em papel, farinha medida em cuias e potinhos de óleos e outras miudezas.

Cantoria e Boi de rei

A bodega de Bastião é parte integrante da alma lagoanovense e, por que não dizer, da geografia sentimental da cidade, que com toda a sua carga de memória, que também passa por esse tradicional ponto de encontro de freguês a várias décadas, como é o caso de Cícero Lopes, “Pelé”, morador do bairro Jesus Menino, frequentador do local há mais de 40 anos.

Jogo de baralho, entre Bastião, Milton e a Muda de Antônio Tito, no início da década de 90 (Foto da família)

Contrastando com o marketing de massa de hoje, o qual é instrumento de divulgação de marcas e produtos, coisa que não existia na cidade, sendo assim, as informações eram transmitidas no boca a boca, haja vista que, sequer a bodega ostentava letreiro na fachada de entrada e, por incrível que pareça, essa condição não impediu o progresso do negócio, que no passado, segundo narra a família, foi bem maior e contava com ajudante de nome Malaquias Batista da Silva (in-memória).

Por esta quadra de tempo, o proprietário da Bodega promovia cantorias de violas aos sábados, com os poetas Pedro Henrique, Aurélio Carneiro e outros. Realizavam jornadas de três noites de folias de Boi de Reis, que duravam um fim de semana inteiro. Na época, chegou a possuir várias casas na rua em que mora, todas construídas pelo Terto Ferreiro, seu sogro. Possuía também uma camionete C-10, com a qual, se dedicava a vendas na zona rural e o abastecimento de festas de casamentos.

Histórico da família

No final dos anos 50, no bairro Jesus Menino, Bastião possuiu casa e uma pequena venda, no entanto, não tinha a fisionomia da que vemos na atualidade. A vida do bodegueiro nonagenário, conforme ele mesmo conta, não foi fácil. Nasceu em Lagoa Nova mesmo, em 8 de março de 1929. Seus pais eram os agricultores Cícero Martins e Luíza Maria da Conceição, que tinham mais três filhos além dele: José, Luzia (In-memória) e Francisco “Chicó”.

Ficou órfão de pai aos 9 anos, daí como não havia pensões, dona Luiza, sua mãe, não tinha como criar todos os filhos sozinha, e a duras penas, doou dois para que amigos em melhores condições pudessem cria-los. Situação que obrigou então o menino Bastião, indo morar no Bom sucesso, em Currais Novos/RN. Não suportando a saudade de casa, voltou para a companhia da mãe.

Bastião

Por outro lado, irmão Chicó, teve melhor sorte, ao ser adotado pelo fazendeiro Antônio Cândido (In-memorian) e a senhora Teodora Alves (In-memória), que lhes asseguraram melhor formação escolar e sustento.

Em seguida sua mãe se casa com João Ribeiro, homem de posses, porém, muito rude e mesquinho com os filhos da esposa. Da segunda união com João, nasceram mais duas filhas Francisca e Maria (In-memória), que alcançaram melhores condições de vida no sítio Canta Galo. Bastião, no começo da juventude, não tinha alternativa senão sair de casa e trabalhar alugado na enxada para outros proprietários rurais. Nessa posição social modesta, permaneceu até ser ajudado pelo sogro e a sogra. Só depois, no comércio, veio melhorar de vida.

Foi casado durante mais de 50 anos com Maria Frazão Martins, mulher querida e acolhedora, que sobreviveu a uma paralisia, que a impossibilitara de locomoção e falar durante mais de trinta anos, muito embora sua memória tenha permanecido, com impressionante lucidez até o fim da vida. Bastião tem cinco filhos, quatro netos e quatro bisnetos.

Desde de 2015 está viúvo. Como cavaleiro aguerrido, ele não se rende aos obstáculos impostos pela velhice, preferindo seguir a vida, trabalhando e lutando contra diminuição da audição, visão e problemas circulatórios nas pernas. E faz poucos anos, quase por milagre, superou um princípio de “transe cerebral”.

Sobre o autor

Eliabe Alves

Jornalista, colaborou com textos e ilustrações em jornais e revistas do Seridó e da capital. Atualmente edita o impresso e blog O Jornal da Serra, com pautas voltadas para os sete municípios que integram a Serra de Santana/RN.

COMMENTS

Francisco Guimarães

Bela matéria. Parabéns!

Genibaldo George Medeiros

Jogou duro Eliabe, muito boa matéria, a história do nosso povo viva na memória.

Maria Ivone Martins de Araújo Marciano

Gostei muito deste artigo, sou estudante do curso de Administração pela UNIP, como faço para ter acesso a mas artigos como esse.

Alicio Melo

Parabéns pelo refere histórico.

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