BIBLIOBUNKER: O Deus da Idade Média: conversas com Jean-Luc Pouthier

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O Deus da Idade Média: conversas com Jean-Luc Pouthier

Autor: Jacques Le Goff

Tradução de Marcos de Castro

Editora: Civilização Brasileira

Ano: 2017

Páginas: 126

Desde que Lutero, no século XVI, com o objetivo político de confrontar a autoridade da Igreja, criou o mito de que a base da teologia sistemática cristã tem fundamento bíblico, que muita gente rabeia na hermenêutica e escorrega na exegese tentando encontrar, nos textos tanto do antigo quanto do novo testamento, a origem do conceito cristão de Deus.

A ideia de um “verdadeiro cristianismo” contido em uma suposta religião original, presente no tempo de Jesus e de seus apóstolos, que poderia ser encontrada apenas na Bíblia (e em nenhum outro conjunto de textos), desconsidera alguns dados históricos essenciais: (1º) não havia nada que pudesse ser identificado com aquilo que chamamos hoje de “Bíblia” nos tempos de Jesus e de seus apóstolos; (2º) não havia uma doutrina comum, unificada e sistemática, antes que a Igreja católica, por meio de seus concílios, fechasse os dogmas fundamentais do cristianismo a partir do século IV; e (3º) quase tudo aquilo que os cristãos de hoje imaginam ser Deus aparece, como imagem e conceito, na era medieval, muitos séculos depois da passagem da figura histórica de Jesus pelas terras da Palestina.

No fim das contas a busca evangélica por um cristianismo puro, longe da influência da Igreja e da teologia sistemática de seus cardeais, pode até ter obtido o sucesso político que Lutero pretendia, especialmente no que diz respeito a fragmentar e enfraquecer o poder do vaticano, mas fracassou redondamente no que diz respeito a abandonar as imagens e os conceitos teológicos produzidos pela Igreja medieval, que ainda hoje condicionam e formatam o modo como os cristãos leem as palavras contidas na Bíblia.

Para quem se interessa por esses temas, mas não tem tempo (ou paciência) para mergulhos mais profundos nas questões teológicas e históricas por trás da gênese da religião cristã, uma boa dica de leitura introdutória é essa longa entrevista, que Jacques Le Goff, um dos maiores medievalistas do século XX, membro da terceira geração da escola dos Annales e sucessor de Fernand Braudel na “Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais”, concedeu a Jean-Luc Pouthier.

Abordando Deus como um assunto da história, Le Goff mostra, de maneira muito didática e bastante clara, como a imagem de Cristo muda no decorrer dos anos que sucedem a queda do Império romano, deixando de ser um “Deus rejeitado” para se tornar um “Deus dominante” no ocidente europeu. A própria antropomorfização do Deus cristão (elemento que o torna substancialmente diferente do Javé judaico ou do Alá mulçumano), ocorre de modo muito particular, justamente no período posterior ao édito de Tessalônica, que faz do cristianismo uma religião de Estado e que transforma os primeiros santos cristãos em demolidores de templos pagãos e gente que derruba árvores (vistos como seres sagrados por adeptos das religiões animistas europeias).

Le Goff também mostra que é do mundo medieval que emergem duas figuras fundamentais para o cristianismo: a Santa Virgem (central no catolicismo) e o Espírito Santo (essencial no evangelismo pentecostal).

Foi mais particularmente no universo bizantino que a figura de Maria ganhou impulso e passou a ser reconhecida amplamente como theotókos (mãe de Deus). A partir da sacralização de Nossa Senhora é que a figura do Jesus menino passa a ser vista, também, como sagrada. Isso porque na sociedade antiga e medieval, o lugar simbólico da criança não tinha a posição de santidade imaculada dos dias atuais. Vistas muitas vezes como seres demoníacos, marcados pelo pecado original, e que precisavam ser adestradas à base da pancada, as crianças não eram particularmente figuradas com a inocência e a pureza que parecem ter nas embalagens de fraldas descartáveis. Le Goff deixa bem evidente que é a santidade de Maria que transmite, à figura do Jesus menino, seu caráter simbólico de puers aeternus.

Curioso é como esse processo de santificação da imagem da Virgem com a criança (uma provável herança iconográfica da conhecida imagem de Hórus nos braços de Ísis, bem comum no mundo romano) passa a incrementar choques teológicos com certas interpretações do judaísmo talmudista, que mantiveram uma visão injuriosa da mãe de Jesus, tratando-a até mesmo como uma espécie de prostituta, uma mulher promíscua que traiu seu marido, José, gerando um filho bastardo.

Em relação à figura do Espírito Santo, colocado por grupos evangélicos em um lugar central no arcabouço teológico e que também acaba tendo a serventia de carimbar, com um aval místico-hermenêutico, qualquer leitura (por mais pirada que seja) de qualquer versículo bíblico, Le Goff chama atenção para o papel do monge beneditino (que posteriormente se tornou cisterciense) Joaquim de Fiore. Por volta do século XIII foi esse monge italiano que transformou o Espírito Santo (antes um mero Deus Ex-Machina das narrativas cristãs) em uma figura central da Trindade; interpretação, diga-se de passagem, que não tem nenhuma correspondência com o disposto nas escrituras hebraicas, que tratavam o Espírito Santo (Ruach ha Kodesh) como um simples tropo retórico.

Foi Fiore, na baixa idade média, que deu esteio à ideia de que a humanidade teria três eras: a do pai (representada pela Lei de Moisés); a do filho (marcada pela autoridade da Igreja) e do Espírito Santo (que deveria surgir no futuro). Sua escatologia política, que enxergava a história como um fluxo progressivo que levaria a uma inevitável Parusia (o retorno de Jesus), vai influenciar muito das leituras protestantes no século XVI e XVII e encontra eco até hoje, especialmente quando a gente vê esses tresloucados sionistas evangélicos norte americanos, saindo por aí a pregar seu armagedom nuclear em Israel para que se cumpram as profecias apocalípticas que eles pensam estar no livro de João, mas que, na verdade, estão ancoradas na teologia milenarista no medievo tardio.

Certamente a maior herança medieval para o cristianismo tenha sido mesmo a noção de um “Deus bom” e a substituição dos heróis épicos da antiguidade pelos mártires cristãos. A moralização de Deus e o seu enquadramento no julgamento ético dos humanos, afasta Cristo da imagem do “Deus da cólera” (recuperado posteriormente por algumas denominações protestantes), que povoa, com seu assombro, as escrituras judaicas. O Javé do antigo testamento, mais temido do que amado, que destrói cidades, arrasa civilizações, castiga o povo que supostamente o adora e apoia genocídios (como os que aparecem no livro de Josué), se transforma, aos poucos, pelo tempero platônico da teologia sistemática medieval, no Cristo Pantocrator, governante piedoso e Senhor do mundo, representando sentado em seu trono celestial, tal qual um Zeus olímpico. Esse tempero antropomórfico, que transforma Deus em alguém “que nos ama”, aparece também em outra imagem icônica do medievo: a do Cristo humano. O Deus sofredor que padece na cruz, com a mesma paixão com que nós, pobres mortais, padecemos em nossa trajetória de miséria humana desse deserto de lágrimas chamado terra.

Todas essas construções medievais, que emergem da Igreja cristã, são postas por Le Goff como partes das versões múltiplas de um deus histórico, cuja imagem, antes de estar cristalizada em algum versículo bíblico, se altera no curso do tempo, se atualiza e evolui, na medida em que as aspirações políticas daqueles que se dizem seus representantes se transforma, adaptada às circunstâncias do momento.

No fim, amigo velho, eu acabei a leitura deste livro ainda mais convencido de que é mesmo a tradição, essa inexorável construtora de mitos, muito mais que a exegese literária ou a hermenêutica bíblica, que constrói a imagem de Deus que habita os sonhos, pavores e esperanças mais profundas dessa nossa cristandade. 

Ps: Esse foi mais um ótimo título introdutório, adquirido no Sebo Gajeiro Curió, que fica lá no Mercado Público de Petrópolis; um ponto de encontro incontornável nas manhãs de Sábado, para quem aprecia boa conversa e bons livros. Vale a pena baixar por lá.

Pablo Capistrano

Pablo Capistrano

Escritor, professor de Filosofia e Direito do IFRN. Dramaturgo do grupo Carmin de Teatro.

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