Augusto Severo Neto e seu injusto ostracismo

Augusto Severo Neto

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Poeta e escritor dos mais importantes, em nosso Estado, Augusto Severo Neto fez parte da Geração 61, que se projetou através da famosa Coleção Jorge Fernandes, mas a sua poesia, discursiva, extremamente lírica, sofreu influência da Geração 45.

Apesar de sua inegável relevância, seja como homem de letras, seja como ativista cultural, ele vem sofrendo injusto ostracismo, ao longo das últimas décadas. As novas gerações o desconhecem. Até mesmo nos Cursos de Letras de sua própria terra, seu nome tem passado em brancas nuvens. Ainda bem que o Sebo Vermelho republicou, há algum tempo, trabalhos seus em prosa, como “De Líricos e de Loucos” e “Ontem Vestido de Menino”.  Mas, a sua obra poética clama por reedição.

Augusto foi, além de tudo, uma extraordinária figura humana. Nasceu em Natal, a 22 de abril de 1922, e faleceu em Pirangi, município de Parnamirim (RN), a 16 de abril de 1991. Pertencente à tradicional família potiguar (entronca num dos conquistadores da Capitania, esgalha no organizador do estado republicano e no aeronauta pioneiro, seu avô, entre outros vultos ilustres), seguiu a princípio os passos do pai, tornando-se comerciante, mas logo voltou-se para as atividades culturais: graduado em Jornalismo e Comunicação Social, colaborou em vários órgãos da imprensa natalense, exerceu o magistério na UFRN e na Aliança Francesa de Natal, e atuou como assessor em instituições culturais do Estado.

Era, como já tive oportunidade de defini-lo, um anti-burguês lido e corrido, connaisseur de vinhos e queijos tanto quanto de cultura francesa e de artes plásticas.

Por volta de 1970 fundou em Natal a Galeria Vila Flor, ponto de encontro de artistas e intelectuais, que marcou época. Quando jovem tivera breve experiência no campo da aviação civil – piloto amador, com certeza motivado para tanto pela legenda remanescente do avô.

Era um tipo bem humorado, brincalhão, irônico, dizia-se “um aspone”. Certa vez, perguntei-lhe a razão de ser desta estranha palavra. E ele, sorrindo, respondeu-me: – Assessor de porra nenhuma.

No meu livro “Simplesmente Humanos” (Natal: Sebo Vermelho Edições, 2019) registro histórias de e sobre Augusto. Ele mesmo contava que, certa vez, quando participava de cerimônia junto ao monumento de Augusto Severo, na Ribeira, ouviu de uma criança:

-O senhor é o neto da estátua?

Bosco Lopes, colega e amigo, arremedava o seu modo de falar, o sotaque inconfundível.

Numa viagem aérea a caminho de Paris – dizia Bosco – Augusto, em dado momento, começou a chorar. Indagaram-lhe se não estava se sentindo bem.

– Que foi?…

E ele, enxugando as lágrimas:

– Vovô…. Se não fosse vovô, não estaríamos neste avião…

Outra, do repertório de Bosco Lopes:

Numa tarde, Augusto dirigia-se, como de hábito, à Vila Flor; ao passar na calçada de uma casa em construção, um dos pedreiros, que ali trabalhava, perguntou a outro:

– Que horas são?

E o outro:

– 5 horas, pois esse velhinho já vai passando.

Augusto ouviu, e indignou-se:

-Velhinho, não! Velhinho, não! Eu sou é homem.

É possível que estas histórias não passem de invenções dos amigos da Vila Flor, que, assim, “retribuíam” as brincadeiras dele.

Fica aqui registrado um pouco do lado humano do poeta e escritor.

O POETA

A respeito de sua poesia sintetizei algumas considerações em um capítulo do livro “Salvados- Livros e Autores Norte-rio-grandenses” (Natal: Offset Editora, 2014).

Augusto Severo Neto deve ser arrolado entre os “escritores gordos”, da classificação de José Lins do Rego. (Ver “Gordos e Magros” in “Dias Idos e Vividos”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981, p. 91).

É certo que o seu poema nada tem do verso descarnado, tão em moda, certa época pós-modernismo.

Indiferente aos modismos, Augusto guardou fidelidade ao discurso fluente, que elegeu como forma adequada de expressão ao seu espírito romântico, seu temperamento extrovertido e generoso. Tal fidelidade ressaltasse não implica em obsolescência, pois, como se verifica em “Tempo Vida” (espécie de antologia pessoal – Natal: Editora Universitária -UF-RN, 1978) há uma linha evolutiva, de “Sinfonia do Tempo” (Rio de Janeiro ; Editora Pongetti,1959) aos poemas de “Rosamunda” (1978), passando por “Até que o Mar” (Natal: Secretaria da Educação e Cultura-RN,1961).

Nos seus dois últimos livros de versos – “Nau Frágil” (Natal: Nossa Editora, sem data) e “O Gume e a Pedra” (Natal: Fundação José Augusto,1991) continua a renovar-se.

O PROSADOR

Quanto ao prosador, escreveu nada menos de dez livros publicados – crônicas, semicontos, páginas de memórias, notas de viagem – tendo como traços dominantes o humor, a ironia e a sátira, a que não faltam boas doses de lirismo. Duas destas obras merecem especial atenção, ao meu ver. São elas:

1-DE LÍRICOS E DE LOUCOS (Natal: Editora Clima, 1980. 2a. ed. :Sebo Vermelho Edições.

O autor homenageia os seus tipos inesquecíveis nesta reunião de crônicas e histórias, que, a bem dizer, gravam o lado humano de Natal. Poucos, como Severo, saberiam fixar com tanta graça e leveza esses personagens de ontem e de hoje, tão ricos de humanidade. Poeta discursivo, porém sem derramamentos, Severo (ele também, a seu modo lírico e louco) tem o dom da expressão exata, não desperdiça palavras. E diz tudo com muito senso de humor.

Vejamos, por exemplo, este ‘’instantâneo” de Luís Tavares:

“Largo, grande e sólido como um guarda-roupa de jacarandá, maçaranduba ou peroba, daqueles de antigamente, antes do advento da fórmica e do compensado. Inocente, às vezes (apesar de sua figura meio truculenta), como um menino vestido de primeira comunhão.”

Não é admirável?

Há outros breves perfis não menos interessantes.

“De Líricos e de Loucos” – perdoem-me o chavão – veio preencher uma lacuna. É leitura imprescindível a quem se identifica com a “mui heráldica e heroica cidade de Gaspar, Balthazar e Belchior’’

2-ONTEM VESTIDO DE MENINO (Natal: Nossa Editora, 1985.2a. ed.: Sebo Vermelho Edições),

Não se trata de memórias íntimas, tampouco de autobiografia, mas, sim, de memórias da muito amada cidade Natal.

Vestido de menino, Augusto Severo Neto caminha, com o leitor, pelas ruas antigas de Natal – Junqueira Aires, onde residiam familiares seus; Dr. Barata, reduto de comerciantes e profissionais liberais, “rio, vereda, caminho ou ponte por onde fluíram muitos antigamente’’. Diante de cada casa e de cada loja, Augusto evoca os que ali viveram e hoje dormem profundamente, como nos versos famosos de Manuel Bandeira.

Encerrado o passeio sentimental, ele passa a focalizar, em capítulos distintos, algumas das mais prestigiosas “instituições” da Natal do seu tempo (por volta de 1930): Agência Pernambucana, Hotel Internacional, Café Cova da Onça, Cine Polytheama, Teatro Carlos Gomes, Wonder Bar, Café Magestic, Escola Doméstica, Royal Cinema, os bondes, as damas da noite, etc. ,etc. Tudo com um humor envolvente, re – passado de poesia.

Abrem o livro cinco perfis de amigos do autor, os quais destoam um pouco do assunto central, quebram a unidade da obra; sem dúvidas, ficariam melhor em outro livro do autor.

Espero que estas simples notas contribuam para se resgatar Augusto Severo Neto do imerecido esquecimento em que jaz.

Manoel Onofre Jr.

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

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