arruda sales

Arruda Sales fala de seus casos amorosos e sua carreira artística em livro

Arruda Sales foi personagem destacado no meio social e artístico natalense na década de 80. O livro Spleen de Natal, de Franklin Jorge, publicado em 1996 com produção de Danielle Brito, traz, entre outros perfis de figuras notáveis da história sócio-política potiguar, um retrato íntimo e ousado de José Antonio de Arruda Sales, morto na última sexta-feira aos 64 anos. Um papo entre amigos. Revelações íntimas, seus casos amorosos com políticos, padre, jogador de futebol… Sua carreira artística, ilusões e desilusões e uma insistência na temática do sexo. Um recorte sincero de uma época ainda glamourosa de sua vida. O texto foi transcrito na íntegra por este editor, sem modificações; apenas com o adorno de fotografias inexistentes no livro.

Por Franklin Jorge

9 horas.

Arruda vem sorrindo. Óculos escuros. Jeans colados no corpo. Cabelo atrevido. Camiseta branca. Tem 32 anos.

– Nossa entrevista pode apimentar – recomenda.

E rimos.

– Você, que é o entrevistado, é que tem que apimentar. Não dormi com os rapazes.

A entrevista, descontraída, recorrente e afiada:

– Não dormiu também porque não quis – dispara.

Acervo – Tribuna do Norte

Arruda foi menino de engenho. Nasceu em São José de Mipibu, numa família da aristocracia rural, em 1955. Rapazinho em Natal, sua estreia leonina, impulsiva e afetuosa, começou a brilhar, nas artes plásticas, na segunda metade dos anos 70. Realizou numerosas exposições, dentro e fora do Estado, mas o seu destino era o show-biz, o teatro com o seu misterioso brilho, a gaiola das loucas, a noite excessiva de ventura.

– A última entrevista, Franklin, foi o maior frisson. Teve o pessoal que aplaudiu e o que virou a cara…

Mas enquanto os cães ladram, Arruda viaja. Entrou em um navio e se deu bem. Desmentiu o rock.

Começou a “pintar precocemente o sete”.

Gostosas gargalhadas.

– Nunca fui hipócrita. No meu tempo de estudante no Marista, troquei muitos beijos com o meu professor de religião, que me dava sempre, por isso, a nota oito…

Era padre, mas Arruda, por discrição, preserva o nome.

– Digo apenas que o ano era o de 1965…

Arruda está em verdadeira guerra santa com a hipocrisia de uma igreja que condena o aborto e o homossexualismo. Não esconde o seu estarrecimento diante da interferência da igreja brasileira na campanha anti-aids.

– Não fui ainda discriminado pela igreja, mas tomei as dores dos que sofrem – acrescenta, debruçando-se sobre a carta de vinhos.

Pela janela aberta descortina-se o mar natalense.

– Eu continuo uma meninota conservada em maresia -, ri. Meu grande amor em Portugal foi um diácono. Lá os diáconos casam. Ele está no livro de memórias que escrevo. Alto, parecia um árabe. Cara de pediatra. Conheci-o num bar. Nossos encontros foram num lugar tranquilo, a igreja. E com a proteção dos santos…

A conversa transcorre num restaurante à beira-mar, dois dias antes da viagem de Arruda a Portugal. De férias em Natal, antecipou seu regresso, chateado com o suburbanismo da cidade que, na sua opinião, retroagiu culturalmente debaixo do vendaval dos novos tempos.

– Aqui as pessoas continuam a nos cobrar muito. O tédio aqui é tão grande que, quando a gente sai à noite, volta sempre aborrecido para casa. Foi o que eu senti dessa vez…

A permanência de Arruda Sales em Natal, de férias do navio onde vive embarcado desde que deixou a tribo, foi marcada por um frisson que abalou os salões e as rodas de conversas nos cabeleireiros de primeira classe. Embora muito jovem, ele anunciou que está escrevendo um livro de memórias…

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Acervo – Tribuna do Norte

Tudo começou com a questão do “dom artístico”.

– Por conta do dom artístico, na escola eles achavam que todo papel cabia em mim. E eu adorava.

Na Escola Técnica Federal, começou a carreira artística:

– Num desfile de sete de setembro, fui o mártir da independência…

No ano seguinte, foi Santos Dumont. Não lembra as datas.

– Fazia, então, a linha mais fina. As roupas de época. Copiei até os gestos afeminados de Santos Dumont, o que não me exigiu maior esforço… Não fui Anita Garibaldi porque abandonei o curso.

O humor de Arruda, vivo. Mais vivo que vivíssimo de melo.

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O seu livro vai ter “orelha” e “brinco”. Exigente, explica:

– Mas não quero essas orelhonas acadêmicas ao gosto de Manoel Onofre Junior…

Arruda faz suspense quanto ao título. Por fim, revela:

Pincel, Paetê e Panela… Tudo o que começa com a letra P eu gosto. Tirando o Papa, porque condenou o homossexualismo.

Arruda divide sua ventura de lobo do mar.

– Você escreve muito lentamente. Estou quase certo de que o livro se fará com estas entrevistas…, provoco-o.

– Não quero apressar o parto – diz Arruda, sentado à minha frente, os óculos escuros sobre a mesa.

– Você poderia adiantar alguma coisa do livro para os nossos leitores…?

– Poder, posso, pois não estamos numa “nova república”? Mas prefiro fazer suspense para vender mais. Aprendi com o Jesiel Figueiredo que a gente tem que vender o peixe… Só posso adiantar que não citarei nomes. Apenas comento os fatos sem revelar a identidade dos santos…

– Comenta-se que você vai criar uma nova hagiologia para nenhum bispo apócrifo botar defeito…

Arruda reage:

– Não pretendo derrubar nenhum senador. Ainda quero voltar à Natal.

A popularidade de Arruda é enorme e não poucas pessoas se detém, diante da mesa, para cumprimentá-lo. Um hoteleiro muito distinto, que soube de sua passagem pela cidade através da crônica social, recrimina-lhe a falta de notícias e reclama sua presença. Quer saber, numa rápida e bem humorada troca de informações, se Arruda, de fato, teve algum caso amoroso com um conhecido figurão de nossa vida administrativa.

– Calúnia. Fomos apenas bons amigos.

Perseguido pela letra P. Os padres do Marista eram uma tentação.

– Nunca quis saber de catecismo. Eu fazia tudo para me comportar mal.

Nunca foi de viver ajoelhado. O sonho do Cardeal, parente da família, era fazê-lo padre:

– Teria sido mais um Frei Boff na vida – ironiza.

Acervo – Tribuna do Norte

As blagues de Arruda são deliciosas. Mais rebelde que Frei Boff, Arruda prega a sua teologia da libertação.

Em 1968, José Antonio de Arruda Sales entrou para a Escolinha de Arte Cândido Portinari, “pensando que ia aprender alguma coisa”.

– Os cursos, dirigidos por Newton Navarro, eram muito bitolados, e eu sou muito impulsivo. Quando tenho uma ideia, quero realizá-la sem demora. Por isso, mesmo sem saber português, resolvi escrever esse livro…

Em 1970, depois que abandonou as aulas de pintura, defasadas em muitos anos, pois Navarro nunca se reciclou, como a maioria dos medalhões potiguares, Arruda fez um teste e entrou para um grupo de teatro, trabalhando com o ator e diretor Jesiel Figueiredo na peça Por causa de Inês, drama lírico do padre João Mohana. Sempre os padres na vida de Arruda.

– Foi uma experiência muito dura. Eu imaginava fazer uma tragédia e acabei fazendo uma comédia. Mas foi bom, afinal, porque comecei no teatro de trás pra frente, como tudo o que faço na vida, embora as pessoas continuem insistindo em não acreditar…

– Eu me lembro de você dançando e representando em diversas peças. No balé você estava sempre um passo adiante ou atrás…

– Ousadia nunca me faltou – diz, categórico. Só não pude fazer o papel de príncipe em peça de Jesiel…

– Mas o que aconteceu?

– Ora, meu querido, nunca tive caso com a Cacilda…

– Vocês sempre foram bons amigos.

– E ainda somos. Ele tem idade de ser minha avó. Naquela época, quando me iniciei no teatro, eu era uma meninota na frente de Jesiel e ouvia muito de suas teorias e orientações. Depois descobri o meu caminho…

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Órfão aos seis anos, o pai ainda era um homem bonito quando morreu de enfarte aos 45 anos.

– As pessoas idosas me atraem. Acho que sempre estive à procura do pai. Mas sem precisar de analistas e complicações, viu?

Fino psicólogo, Arruda acredita que o sexo traz o remorso para algumas pessoas.

– O problema não é de cavidade ou de protuberância. O problema está na cabeça. Como dizia Rogéria, o grilo está no grelo… Às vezes, a gente se realiza mais num papo do que na cama.

Foi convivendo com políticos de todas as cores ideológicas que Arruda desenvolveu sua capacidade analítica. “Mas nunca deixei transparecer que os analisava…”

Arruda diz que na política tem mais buchichos do que no teatro. Mas os dois mundos se assemelham.

– Só muda o plenário e o guarda-roupa. O buchicho é forte aqui e lá.

– Me fale mais sobre isso…

– Você não quer que eu volte à Natal?

– Me fale então dos rapazes. Como você encontrou, dessa vez, a rapaziada natalense?

– O pré-sexual desses garotos foi muito mal feito. Conheço rapazes em Natal que, mesmo estando acompanhados de namoradas ou mesmo de aliança no dedo, ainda reparam nos garotões.

Transar por transar nunca fez a cabeça de Arruda:

– Nunca fiz michê, mas nunca deixei de receber – ri. Adoro receber, e aqui não vai nenhuma segunda intenção. Se isso era michê, eu adorava…

Os buchichos sempre acompanharam os seus passos. O escândalo é chique.

– Eu não tenho vergonha de falar. Minha vida é, por assim dizer, um livro aberto…

Modesto, explica:

– Aqui dizem que eu consegui tudo na cama…

– Maldade dessas bichas perigosas…

– Eu consegui muita coisa, é verdade, mas não tanto quando dizem. Depois eu já tenho muitas horas de voo e de navegação e a experiência sempre ajuda…

Sempre sorrindo, Arruda revela que “teve uma fase lésbica” em sua vida. Foi quando namorou muitas mulheres. Uma delas, conhecida socialité, apaixonou-se de tal forma, que ele se viu obrigado a abandonar a cidade, fugindo das exigências dessa paixão outonal. Foi quando entrou de gaiato no navio, que o levaria por mares nunca dantes navegados.

– Era uma mulher fantástica, casada, insatisfeita como a maioria das mulheres…

– Como é que foi isso?

– Eu fazia a linha de consultoria sentimental junto às mulheres. Eu sempre gostei de mulheres, mas as pessoas, em geral, não acreditam nisso. Acabei tendo essa fase lésbica e, noutra ocasião, quase fui pai. Engravidei uma amiga sua…

– Eu sei…

– Foi preciso que eu falasse energicamente em favor do aborto. Eu disse a ela que não daria certo uma coisa dessas, porque o pai… bom, o pai faz shows… Gosta de lantejoulas… Já a futura mãe, como você sabe, não curtia homem tanto assim…

– Eu não sei de nada. O entrevistado é você.

Em ambos os casos, Arruda prefere manter o anonimato dessas mulheres apaixonadas. Diz apenas que foi uma fase maravilhosa, com os inevitáveis contratempos.

– Há tantas mulheres insatisfeitas, Franklin, casadas com machões grosseiros… Comigo, elas desopilavam e opilavam ao mesmo tempo.

Muito volúvel, Arruda nunca quis ter um caso na vida.

– Gosto mais do avulso… No começo de qualquer caso a convivência é ótima. Mas, em poucos dias, eles estão disputando os nossos amantes e querendo dividir, ao mesmo tempo, os nossos vestidos e batons…

Crédito: Estúdio 473

Entre quatro paredes as pessoas se revelam muito.

– A atmosfera romântica, no começo, é muito gostosa. Todo caso é gostoso quando começa…

Arruda observa que os rapazes daqui, agora, estão curtindo melhor o corpo.

– A pior invenção dos 80 é o uso da camisinha. A camisinha não deixa espaço para o romantismo.

Nunca se envolveu com rapazinhos porque, na escola, a concorrência era forte:

– Havia a Zairinha Flexeira, a Flavete, a Lalá, a Carlota…

Eram “as amigas” diligentes, conhecidíssimas na Escola Técnica.

– Não sobrava nada para mim -, confessa.

Da Escola Técnica, como do Marista, Arruda tem várias histórias. O malvado professor de educação física mandou Arruda “correr atrás da bola”.

– Quando, na verdade, eu queria mesmo era correr atrás dos jogadores…

– Uma vez, eu fingi que desmaiava para ser carregado pelos rapazes.

Arruda andou, então, lendo Shakespeare. Lançou uma maldição sobre a escola.

– Desejei ver os alunos da Escola Técnica dançando balé…

Riso. A maldição se cumpriu.

– Qualquer dia desses, eu me transformo em vidente e passo a me chamar Madame Carmem…

Um rapaz interrompe a entrevista para pedir algumas informações ao repórter. Arruda:

– Toda vez que você está me entrevistando aparece um rapaz… Bom sinal, bom sinal.

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Certa vez, uma estrela do ABC, clube de futebol, dormiu no apartamento de Arruda, voltando para a concentração de madrugada.

– Ele jogou mal no dia seguinte e foi um escândalo. Acho que ele era um centroavante ou lateral… Tem homem que diz que come, mas na hora H, dá como se fosse uma princesinha…

Arruda não se refere, especificamente, ao jogador abecedista, claro.

Recorda o caso que teve com um advogado fetichista:

– Ele sempre me pedia que levasse meu guarda-roupa do teatro para o motel. Me fazia vestir e desvestir a noite inteira todos aqueles vestidos e adereços. Ele curtia essa fantasia, mas o homem da história era eu mesmo… No frigir dos ovos, homem gosta mesmo de homem -, arremata do alto de sua experiência.

Acervo – Tribuna do Norte

Nas festas em boates, Arruda causava sempre a maior confusão. Os rapazes o tiravam para dançar pensando – ou fingindo pensar – que se tratava de uma mulher.

Arruda admite que colaborava nesse equívoco.

– Eu usava umas roupas pouco sérias que criavam a dúvida.

Em 1980 decidiu-se por interpretar papéis femininos no teatro. Ingressou no elenco do Vivace Café Concerto, uma casa de espetáculos que fez época em Natal.

– Eu acabava de vir da Europa. Criei coragem e fui em frente…

A experiência, porém, durou apenas um mês e quinze dias.

– Parti, então, para fazer o Frenezzi, minha própria casa, na Ribeira, o bairro boêmio. Foi emocionante.

Arruda manteve a casa funcionando durante um ano e oito meses.

– Fechei-a porque achei que não fazia mais sentido, embora a casa vivesse cheia e a clientela me prestigiasse.

Sentia-se, então, muito cansado e decepcionado com o comportamento antropofágico das pessoas em relação ao investimento que fizera.

– Certas pessoas investigavam a minha vida, procurando descobrir quem estava por trás de mim no empreendimento, sem pensar que tudo aquilo era fruto do meu esforço…

No Frenezzi, instalado num casarão na rua Doutor Barata, Ribeira, Arruda escrevia e produzia os próprios textos, ajudado por amigos. Aprendeu que é mais fácil fazer chorar do que rir, além de cuidar pessoalmente dos figurinos e cenários. A casa atraía uma clientela eclética. Sua popularidade era tanta, que Arruda acabou recebendo convite, de um político de prestígio, para disputar uma cadeira de vereador.

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Solidário, assumiu em primeira mão a defesa dos aidéticos, promovendo no final do ano passado, no Teatro Jesiel Figueiredo, um grande show em benefício dos pacientes do Hospital Gizelda Trigueiro, especializado no tratamento de doenças infecto-contagiosas, então desamparado pelo Governo do Estado.

A promoção alcançou um grande êxito, e, por sua militância na área, Arruda ganhou o apelido de Liz Talhada, em alusão à atriz Elisabeth Taylor, ilustre participante da luta anti-aids.

– Quando eu morrer, pede, não botem, por isso, o meu nome em nenhuma rua. Não quero servir de esquina para cachorro mijar…

O teatro e a noite não roubaram Arruda Sales às artes plásticas, outra de suas inúmeras paixões além da cozinha. Continuou pintando suas figuras inspiradas no imaginário popular.

Parecia, então, onipresente, participando ativamente da vida artística e social da cidade. Formava uma trinca famosa com Getúlio Soares e José Oliveira que, naqueles anos, não se metera ainda pela crônica social, nem assessorava a coluna de J. Epifânio.

– Um dos nossos programas: a gente se produzia e saía de carro pela cidade, sem objetivo determinado. Certa vez, faltou gasolina na frente do Comando Naval e um soldado veio nos dizer “moça, aqui é área militar, não é permitido estacionar nessa faixa”… Daqui que a gente explicasse que não éramos moças…

Arruda somente sofreu oposição da família quando resolveu fazer balé.

– Eles não achavam a coisa séria…

Em seguida aderiu ao samba e entrou para a Escola Balanço do Morro, a princípio, “fazendo a linha discreta, mas sonhando sair na ala das baianas”.

Preocupado com a crise econômica que se abateu sobre o país, Arruda atribui sua causa ao desmoronamento do edifício político.

– Você sempre circulou muito entre os políticos… Deve conhecê-los bem.

– Eles são bons de promessas… mas não de cama. Prometem tanto que, na hora H, não têm mais nada a oferecer…

– Você teve caso sério com algum desses políticos?

– Coisas ligeiras, mas variadas, desde o vereador até o deputado, passando pelo chefe do executivo…

Em matéria de ideologia, Arruda define-se como um franco atirador eclético.

– O melhor de tudo é que nunca fui fiel a nenhuma bancada…


Foto de capa: Paulo Fuga
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Sobre o autor

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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