Frasqueirão

Há 12 anos, o ABC subia à segunda divisão

Sérgio Vilar24 de agosto de 2019Memória do RN, , , Image

Matéria deste editor publicada no Diário de Natal de 29 de novembro de 2007.

O carnaval chegou mais cedo para o Mais Querido. E nada de uma quarta-feira de cinzas e amarguras. O alvinegro ensinou o ABC do futebol ao Bragantino na noite de ontem e assegurou uma vaga na segunda divisão do Brasileirão 2008, após seis anos, com um gol do zagueiro Allan e outro do craque Wallyson. Os torcedores acreditaram no time, creditaram confiança e ditaram o ritmo do jogo nos dois tempos de uma partida movimentada no primeiro ano do Frasqueirão.

Este jornalista foi incumbido da cobertura do lado de fora do Frasqueirão. Escrever sobre o choro ou a festa da torcida. E acredite, as batidas do coração do torcedor que ficou de fora eram ritmadas pelo barulho da torcida no Estádio com mais de 13 mil pagantes. Lampejos menos estridentes significavam a combinação de resultados desejada para a ascensão do ABC.

Mas eis que uma multidão solta o grito preso e o torcedor fanático e liso do lado de fora vibra como criança. Era o segundo gol. E liso porque os ingressos estavam sendo vendidos por R$ 2. O cambista “Ventola” pediu pra eu escrever: “Bota aí: cambista tão tudo com cara de choro por causa do prejuízo”. “Japonês”, cambista experiente, disse ter prejuízo de R$ 2 mil.

Aos 45 minutos do segundo tempo ninguém tinha arredado pé do Estádio. Um único torcedor saiu, apressado e com rádio no ouvido. Disse que o juiz daria pelo menos mais cinco minutos de acréscimo. É o sofrimento dos cambistas espalhado em milhares. Mais um grito em uníssono e os fogos de artifício anunciavam o ABC na Segundona. Ainda demorou para a torcida largar o Estádio e ganhar as ruas. Pelo menos uns dez minutos. Pareciam esperar a bandinha de frevo, do carnaval alvinegro e o som da marchinha: “ABC clube do povo, campeão das multidões…”.

Atrás da bandinha estavam Marinho Chagas – eterno lateral da Seleção da Copa de 1974 – e seu copo de uísque. Após pegar um depoimento do ex-craque, inventei de emprestar a caneta pra ele dar um autógrafo. Só recuperei minha bic depois de uns 60 torcedores ganharem a assinatura do rapaz. Perdi uns 15 minutos na conversa. É isso. Marinho ainda mandou recado pra Véscio, companheiro da Redinha Velha e ex-jogador e torcedor fanático do América: “Diga ao nêgo Véscio que o dele desceu e o meu subiu”. Minha mente poluída pensou em outra coisa que não a caída e a subida do América e do ABC. Mas deixa pra lá.

E se os torcedores estavam histéricos, os ambulantes com sorriso escancarado e a lojinha do ABC lotada, alguém estava contrariado. Preso no trânsito que tomou a Rota do Sol, o engenheiro Marcos Silvino foi pego de surpresa: “Nem gosto muito de futebol e se fosse torcer por alguém seria pelo América”. Fodeu-se. E se mais adiante o trânsito acalmava, um automóvel com porta traseira aberta, chassi arrastando no asfalto e lotado de torcedores e bandeiras passava: “Becê, becê!”.

O ABC espalhou-se em torcedores, bandeiras e buzinas pelas ruas, paradas de ônibus, janelas de casas e apartamento e nos ouvidos de muita gente. Quando a festa, que continua hoje, terminar, ainda se ouvirá o eco: “Becê, becê!”. E ontem, lá do alto, a lua, imponente, assistia a tudo e refletia múltiplas luzes brancas na noite da cidade. E qualquer semelhança com as cores que pintaram a paisagem de Natal na noite de ontem, acredite, não é mera coincidência.

ABC: Raniere, Nêgo (Fábio Silva), Fabiano, Ben-Hur, Alan, Rogerinho, Adelmo, Jean (Joassis), Juninho Petrolina (Peu), Ivan, Wallyson. Técnico: Ferdinando Teixeira


OBS: Três anos depois, em 2010, o ABC voltaria à Série B, desta vez como campeão da série C.

Sobre o autor

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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