A Mulher Monstro por Brunno Martins

Premiada peça A Mulher Monstro volta a Natal neste sábado e domingo

Sempre com grande procura, a peça “A Mulher Monstro” retorna a Natal. Prometendo ser impactante, o espetáculo vai se apresentar no sábado e domingo (23 e 24 de março) no Teatro de Cultura Popular. No sábado será às 20h e no domingo às 19h. O espetáculo foi selecionado no Edital Chico Daniel – Pauta Livre TCP do Governo do Estado do Rio Grande do Norte e da Fundação José Augusto.

Uma colagem de declarações lamentáveis, polêmicas e verídicas das ruas, das rede sociais e as posturas de políticos e figuras públicas foram partida para a construção do texto. A tragicomédia fala do desrespeito para além do preconceito. Trata a atualidade política e social do Brasil através da figura de uma burguesa, falsa cristã, perseguida pela própria visão intolerante da sociedade, sem saber lidar com a solidão e as suas relações num tempo de ódio, golpes e corrupções vistos sem vergonha.

Sobre A Mulher Monstro

O processo de construção da peça começou em 2015, junto a efervescente polarização e crise política do país. Surgiu diante das barbáries sempre lidas e ouvidas de forma tão escancarada no dia a dia e, agora, acentuada não só na internet.

É inspirado na poética da Mulher Monga dos parques e circos nordestinos (no sudeste e sul conhecida como Konga) de um passado recente, ainda presente no imaginário popular – uma forma poética de transpor o que realmente deve ser considerado como monstruoso.

A encenação expõe falas reais, verdadeiras monstruosidades ditas e praticadas. São postos variados tempos-espaços em cena, denunciando expressões e atitudes radicalistas, fundamentalistas e segregacionistas do cotidiano. Aborda a discriminação social. Não apenas metaforicamente enjaulada, ela argue as mais variadas faces da intolerância: xenofobia, racismo, sexismo, gordofobia, homolesbotransfobia e até mesmo o machismo.

A dramaturgia impacta posições de opressão, assédio, egoísmo e medo, tocando em questões urgentes de gênero, sua diversidade e o papel da mulher na sociedade. Mulher essa que mesmo quando reprodutora do machismo estrutural, ainda sim, é a maior vítima. Trata-se de uma personagem que ignorantemente se opõe ao feminismo.

O ator-encenador também insere na obra memórias pessoais como subversão das dores e da sua depressão, num processo que documenta também situações da própria vida.

Peça inspirada em obra censurada

A peça foi inspirada no conto Creme de Alface de Caio Fernando Abreu escrita em plena ditadura militar, só publicada depois, durante a tentativa de redemocratização brasileira. Ainda tão atual, Caio F. fez único registro encontrado sobre a obra antes de falecer: o que me aterroriza neste conto de 1975 é a sua atualidade.

Com a censura da época, seria impossível publicá-lo. Depois, cada vez que o relia, acabava por rejeitá-lo com um arrepio de repulsa pela sua absoluta violência. Assim, durante vinte anos, escondi até de mim mesmo a personagem dessa mulhermonstro fabricada pelas grandes cidades. Não é exatamente uma boa sensação, hoje, perceber que as cidades ficaram ainda piores, e pessoas assim ainda mais comuns.

A evolução do espetáculo é genuinamente viva, adaptações do texto ocorrem de acordo com as manchetes e acontecimentos históricos e políticos. Cada sessão é passível de modificações e experimentações performáticas, culminando em necessárias interações com a plateia.

O solo já foi visto por 7 mil pessoas. Com estreia em julho de 2016, “A Mulher Monstro” circulou por 14 festivais/mostras do país. Sem grandes patrocínios, passou por 7 estados, 3 regiões do país e 12 cidades brasileiras em 60 sessões.

José Neto Barbosa

O ator do espetáculo é o José Neto Barbosa, que desde 2002 é interprete das artes cênicas, também diretor, arte educador, produtor, parecerista e gestor cultural. Com “A Mulher Monstro” foi premiado Melhor Monólogo do Teatro Nacional 2017 da Academia de Artes no Teatro do Brasil/Prêmio Cenym, onde em 2015 venceu a categoria Melhor Ator com o solo “Borderline”: nas duas edições concorreu com nomes consagrados das artes cênicas brasileiras. Na edição 2018 foi convidado para compor o jurí de notáveis vencedores da mesma premiação.

Neto soma 10 prêmios entre atuação e direção em festivais de cinema e teatro, fora menções honrosas, titulações e outras indicações. Conta com 34 espetáculos em currículo. Foi artista homenageado com Bastão de Molière na abertura do Teatro de Cultura Popular pelo Governo do RN e recebeu título da Academia de Letras e Artes do Agreste Potiguar.

Protagonizou 27 campanhas publicitárias de vídeo, entre outros trabalhos no audiovisual (07 campanhas eleitorais, 04 longas, 07 curtas e 03 pilotos de seriados nacionais, e foi apresentador de 01 programa da REDE TV RN).

Como professor de atuação, ministrou 11 oficinas pelo país em parcerias com o Ministério da Cultura, Fundação José Augusto, Programa RN Criativo, Universidade Federal do RN e Universidade Estadual de Ponta Grossa no Paraná. Foi professor de teatro para crianças e jovens em 04 escolas de 2009 a 2013. Em constante pesquisa, certificou-se em 16 cursos e 25 oficinas em 16 anos de trajetória artística.

Como produtor participou da logística da Fifa/Copa do Mundo de 2014, foi da equipe operacional do Teatro Riachuelo Natal por três anos, e desde 2013 dirigiu produções de festivais de teatro e dança, seminários, shows e espetáculos nacionais.

Como parecerista já integrou 28 comissões de seleção, muitas como presidente ou coordenador. É o Assessor de Teatro e Ópera do Governo de Pernambuco desde 2017, coordenando importantes ações como Funcultura, Prêmio Ariano Suassuna, Prêmio Pernalonga de teatro, Ciclo das Paixões, entre outros.

É o curador/júri convidado do Festival de Inverno de Garanhuns/PE (desde 2017), do Festin/RN (2016 e 2017), Fenata/PR (2016), entre outros festivais nacionais. Foi objeto de pesquisa em projetos de extensões, graduações e mestrados de universidades como a LabLivre da UFABC São Paulo, da UFRN, UNP e UFPE. Considerado pelo portal Uol como um dos principais nomes do teatro brasileiro no Festival de Curitiba 2017.

S.E.M. Cia. de Teatro

A S.E.M. Cia. de Teatro foi fundada em 2012 em Natal. Surgiu com a necessidade do artista José Neto Barbosa oficializar seus estudos e suas experiências nesses 16 anos de trajetória na arte. Hoje a Cia. também tem sede no Recife, trabalha em itinerância e conta um Núcleo de Formação.

Também são integrantes Sergio Gurgel Filho (potiguar, iluminador, bailarino e ator há 14 anos), Diógenes Luiz (radicado e residente em Nova York/EUA, drag queen, maquiador, cineasta e sonoplasta há 06 anos) e Mylena Sousa (norueguesa, cineasta, fotógrafa e sonoplasta há 08 anos). Realizou 127 sessões entre 04 espetáculos de repertório.

Ficha técnica:

José Neto Barbosa: direção, dramaturgia, atuação, cenografia e figurino
Sergio Gurgel Filho: iluminação, sonoplastia e coordenação de palco
Mylena Sousa: fotografia e registros audiovisuais
Diógenes Luiz: concepção de maquiagem e sonoplastia

SERVIÇO:

A MULHER MONSTRO

Teatro de Cultura Popular Chico Daniel (R. Jundiaí, Tirol)
De 23 e 24 de março
Sábado às 19h e domingo às 18h
Ingressos antecipados: R$ 20,00 promocional no site Sympla
Ingressos na hora: R$ 40,00
Classificação 12 anos
Aprox. 90 minutos de duração


FOTO: Brunno Martins

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Sobre o autor

Sérgio Vilar

Jornalista com alma de boteco ao som de Belchior

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