A mulher de César

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A Magistratura carrega a maldição da mulher de César. Não basta ser honesta, precisa demonstrar a honestidade. Em tudo. Aqui não se trata de honestidade no alcance financeiro. Não. Honestidade jurídica, mesmo. Basta um juiz expor-se a qualquer tropeço nos princípios para alguém querer jogar farpas na Magistratura. Até com ex-juízes. Veja o caso de um ex-juiz que virou governador. No Rio de janeiro. Não só defende o uso de armas ostensivamente como autoriza seu uso para tiroteios em público. Ampliou a seu talante o instituto da legítima defesa prescrito no Código Penal. E não o fez a favor do indivíduo contra os excessos do Estado. Pelo contrário, autorizou o Estado a matar. Criou a Pena de Morte putativa, invertendo a legítima defesa putativa do Código, quando alguém reage imaginando uma agressão fatal e iminente.

Outro ex-juiz, agora Ministro do Executivo, submete-se a vexames todo dia. Contrário ao uso abusivo de armas de fogo, silencia numa cumplicidade típica de político profissional. Pra negar ser leitor do Guru de Bolsonaro, justificou ser sua obra muito “densa”. E ponha densa nisso. Sobre as peripécias do filho do Presidente com Fabrício Queiroz, exatamente no COAF, declarou “eles já explicaram tudo”. Explicaram a quem? Nem o MP conseguiu ouvi-los. O mesmo COAF que ele quer “sob” seu comando. Acho que nesse caso ele distingue “sob” de “sobre”. Até aonde vai seu apreço e quanto ele topa pagar, em decepções, no aguardo por uma vaga no Supremo Tribunal Federal? Trocou a Magistratura pela Política, lugar onde ser honesto também é obrigação, mas dispensa a ostentação de honestidade da mulher de César.

François Silvestre

François Silvestre

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Advogado. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As Alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima.

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