A impossível morte dos outros

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 para meu amigo João Antonio

A vida é sempre mais curta do que esperamos e sempre mais longa do que deveria, por isso a certeza que nos resta sobre esse assunto é a de que nunca estamos preparados para a morte dos que nos rodeiam. A morte mais fácil de lidar não é outra, senão a nossa própria.

Às vésperas do Dia da Independência, perdi um amigo muito querido e de longa data, o que me deixou a sensação que descrevo no começo desta crônica. João Antonio – artista plástico, educador, pensador, ativista político, conhecedor profundo da arte e da alma – deixou “este plano”, como ele chamaria, e o mundo se tornou um lugar um tanto pior do que já é.

Foi uma dessas notícias que nos chegam de maneira inesperada, numa manhã medíocre de terça-feira, como são usualmente todas as terças-feiras do mundo, que abalou profundamente as estruturas do meu dia: a morte de uma das pessoas mais queridas e importantes na construção do que me tornei como pessoa e como artista.

De repente, a sensação da pequenez diante da vida e da morte desestruturou meu alicerce para as atividades que o dia a dia me obrigava. A necessidade de fazer uma fala em um evento sobre a Independência do Brasil fazia menos sentido ainda a partir daquele momento. Por isso, me restou dizer apenas um pouco do que João diria para um momento como aquele: colocar em perspectiva a miudeza dessa tal independência, falar sobre a necessidade de uma vida digna e do respeito ao outro, sobretudo os que são marginalizados e desassistidos. A vida é sempre uma questão política.

Agora, tenho ainda mais certeza de que João Antonio era muito maior do que o contexto em que existiu. Ele foi o primeiro artista de fato com quem tive contato, com quem conversei e tanto aprendi, embora saiba que poderia ter aprendido muito mais. Seu talento, a consciência do papel de um artista, sua competência, sensibilidade e generosidade são únicas. Ter sido um professor de Educação Artística, servidor público e com limitações de saúde, que se entrega à abnegação de construir o primeiro teatro da cidade com recursos próprios, ao longo de décadas exaustivas, dá uma leve e superficial prova dos adjetivos que lhe atribuo aqui.

O pequeno escritor e fotógrafo que sou, a pessoa que me tornei, passam muito pelo que aprendi com meu amigo João. E, se não sou melhor, é por pura incapacidade minha de aprender mais das lições que tentou me ensinar, mas não fui capaz de atingir.

Diante da impossibilidade de estar com ele em sua despedida deste plano, me pus a tentar preencher o dia com os afazeres do trabalho e as pequenas coisas que entopem as horas de um dia. No entanto, vez ou outra, surgiam de dentro dos escombros do cotidiano as lembranças de momentos que tivemos, da diversão e gargalhadas que compartilhamos tantas vezes, da ironia e da acidez de nossos humores, da fraternidade e do que sempre partilhamos com o mesmo deslumbramento e decepção, que se alternavam: a vida, o mundo.

Tive a sorte de poder dizer a ele muitas vezes de minha admiração e gratidão, mesmo que isso pareça sempre insuficiente numa hora destas. E, agora que me despeço nestas últimas palavras, fico feliz de que ele não as venha a ler. É que sua modéstia e generosidade o faziam corar diante de elogios muito gordurosos.

Não apenas eu, mas todo artista currais-novense tem o dever de prestar muitas homenagens a João. Não tenho a menor dúvida de que sua relevância para o Rio Grande do Norte hoje é maior do que a de nomes gigantes como Luís Carlos Guimarães ou de José Bezerra Gomes.

Mas confesso: meu egoísmo insiste em dizer que meu amigo não tinha o direito de morrer.

O que João Antonio construiu nas gerações seguintes de artistas plásticos, escritores, atores, no teatro de rua, na pintura, escultura, arte circense e tantos outros campos não será esquecido e sua obra seguirá viva sempre. Para os que tiveram a alegria de sua amizade, a persistência vai além da obra, mesmo que João nos tenha pegado desprevenidos numa terça-feira qualquer dos calendários para dar a ela um novo e grande sentido para o qual, certamente, nenhum de nós estava pronto.

Theo Alves

Theo Alves

Theo G. Alves nasceu em dezembro de 1980, em Natal, mas cresceu em Currais Novos e é radicado em Santa Cruz, cidades do interior potiguar. Escritor e fotógrafo, publicou os livros artesanais Loa de Pedra (poesia) e A Casa Miúda (contos), além de ter participado das coletâneas Tamborete (poesia) e Triacanto: Trilogia da Dor e Outras Mazelas. Em 2009 lançou seu Pequeno Manual Prático de Coisas Inúteis (poesia e contos); em 2015, A Máquina de Avessar os Dias (poesia), ambos pela Editora Flor do Sal. Em 2018, através da Editora Moinhos, publicou Doce Azedo Amaro (poesia).

Como fotógrafo, dedica-se em especial à fotografia documental e de rua, tendo participado de exposições que discutiam relações de trabalho e a vida em comunidades das regiões Trairi e Seridó. Também ministra aulas de fotografia digital com aparelhos celulares em projetos de extensão do IFRN, onde é servidor.

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2 Comments

  • Cassildo Souza

    Como sempre, um excelente texto e, nesse caso, uma homenagem mais do que merecida, a qual só os que conviveram com JA têm a dimensão. Um gigante do pensamento, da perseverança e do talento. Essas memórias me remetem demais ao Campus de Currais Novos, numa época em que – felizmente – fomos contemporâneos dele. Abraços, meu amigo!

  • Conheci João Macambira em 2011, por ocasião da inauguração do Espaço Avoante, por ele abnegada e pacientemente construído. A primeira impressão foi a que ficou. Positivíssima, por sinal. Bela crônica, necessária homenagem.

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