A grande festa do milho!

festa do milho

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Findou o mês de junho! Coube a São Pedro, o santo chaveiro, aquele que detém o controle de entrada no céu, “fechar” o ciclo junino. Em contrapartida, para os sertanejos, São Pedro também teria o poder de “abrir o céu” e deixar cair as chuvas.

Então, sendo ano bom de inverno, a terra está fértil e logo, logo as plantas ficam viçosas. É época de fartura na colheita, na qual o milho é uma das principais atrações. Segundo Cascudo, é justamente pela culinária tradicional do milho, que o cereal tem uma projeção folclórica bastante vasta no Brasil.

A partir do cultivo da terra até a presença dos produtos na mesa do nordestino, a cultura do milho revela construções figurativas próprias, influenciadas por fatores socioculturais, mesclados pela fé cristã e experiências vivenciais do campo. Luiz Gonzaga descreve esse processo na canção “a festa do milho”:

O sertanejo festeja

A grande festa do milho

Alegre igual à mamãe

Que vê voltar o seu filho

Tal como os pais que veem, cheios de felicidade, o retorno do filho à casa, seja ele pródigo ou não, o homem do campo enche-se de alegria ao comemorar a colheita do milho. Até que ela aconteça, geralmente após o período de noventa dias, segue-se uma rotina penosa.

Em março queima o roçado

A dezenove ele planta

A terra já está molhada

Ligeiro o milho levanta

Devido à fé em São José, considerado o pai terreno de Jesus Cristo, protetor da colheita e dos agricultores, a semente do milho poderá ser lançada ao solo no dia 19 de março, dedicado ao santo.

Dá uma limpa em abril

Em maio solta o pendão

Já todo embonecado

Prontinho para São João

Sendo um ano chuvoso, logo nasce “o mato”, que deve extirpado com “uma limpa” para o milho crescer sem dificuldades. Em breve, a planta cria o pendão. Nesse caso, diz-se que o milho “pendoou”. Em seguida, ele fica embonecado, ou seja, é quando se produziu a espiga “com cabelos”, mas que ainda não criou grão. Sim, dá para associar, com imaginação pueril, a espiga à réplica de uma “boneca”. Divinamente, cada fio de cabelo dessa boneca irá se transformar em um grão de milho.

No dia de Santo Antônio

Já tem fogueira queimando

O milho já está maduro

Na palha vai se assando

No São João e São Pedro

 

A festa de maior brilho

Porque pamonha e canjica

Completam a festa do milho

Ao fim da “noventena”, já nas festas juninas, em meios às adorações a Santo Antônio, São João e São Pedro, o cereal, já colhido, transforma-se em pratos diversos: milho assado ou cozido na espiga, bolo, pamonha, canjica, mungunzá. Delícias da sabença popular que enriquecem a nossa língua, enchem os nossos olhos e aguçam o apetite do nordestino na grande festa do milho!

Sandro de Sousa

Sandro de Sousa

Filho de Macau-RN, residente em Natal desde os 5 anos de idade. Licenciado em Letras Português-Inglês (UFRN), Doutor em Letras (UFPB) e advogado.

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