A doença dos parquinhos

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Uma praça é um transtorno. Por exemplo, sob a praça há corpos. Isso porque há corpos em todo lugar. Aos mais coradinhos, chamamos vivos. Para a maioria da gente, viver é uma contração mortuária prolixa. Não estou desmerecendo o espasmo, a que não falta musicalidade. Vive-se, em todo caso, num misto de necrópole e atacadão.

Os cemitérios são subprodutos do amor e das cifras, sem os quais é possível que vivêssemos para sempre. É claro que no subsolo, embaixo do balancinho, ronca eternamente um jesuita satiríaco. Não desmereço os jesuitas. O fato duma parcela expressiva das covas abrigar clérigos salazes mostra, ao contrário, devoção e afã por encurtar o trajeto ao outro lado.

Isso, ou índios, réus no crime de habitar o trajeto duma multiplicidade de balas. Mas balas fidalgas, veja, balas europeias. Genocídio ou etiqueta britânica? Próximo show do Sílvio. Ou há sob o playground um dilofossauro vítima do fatídico meteoro, grande celebridade do pleistoceno, quando contemplava, sombrio, a impossibilidade do onanismo, valendo-se dos insultos cósmicos a que se habitou chamar de “braços”.

Não há deuses nas praças de subúrbio, senão a entropia. Todo parquinho é imanentemente fodido. Suas cores, embotadas. Se um dos balancinhos não estivesse quebrado, toda a ordem, toda a malha do real colapsaria. Reina nos playgrounds a mandinga da oxidação, que finda vergando também as crianças. Os adultos são produto desse contágio, dessa doença dos parquinhos.

As estrelas cadentes, também elas caem nas praças? Proponho que sim. Apesar de sua fixação com os dinossauros e a Rússia. Assim serão extintos os emos de pracinha. (Para onde vão, no inverno, os de açude? Migram para as praças de shopping, onde desovam zigotos chorosos? Congelam com os Camus sem-marquise? Divago).

A ausência de entretenimento é o traço apodítico dos brinquedos de pracinha. Toda a diversão é compulsória, como a beleza dos pontos turísticos. As crianças assomam-lhes como bárbaros tautológicos a uma Roma já invadida, já em ruínas. Espremem dos pastiches de brinquedo, violentamente, uma paródia da diversão, como os cristãos dos debris romanos.

Mas ser cemitério não é apanágio das praças, senão fundamento do real. Somos cemitérios de estrelas, dizem. Donde o não-retorno dos discos emprestados, desintegrados por fusão nuclear nos bolsos de amigos. Antes isto, os orbes são fogueiras juninas num Olimpo armorial; somos as já apagadinhas, no fim da noite, quando a canjica esfriou. Todo átomo é uma triste fogueira aposentada. Microscópicos vovôs senis. E o tempo, a enfermeira abusiva.

Também somos mausoléus de mares e sertões decíduos, e o vento cemitério vadio. Os átomos de Cleópatra brincam ali na praça. Pobre Cléo. Dispersada equitativamente na atmosfera por homeostase. Logo você, Cléo, que como Elizabeth Taylor foi tão inteiriça. Mas até os nababescos bustos da Srta. Taylor dissolvem feito Engov nas lufadas de esclerose da matéria. Somos solúveis. Somos o Nescafé do eterno. Seu café desafeinado. A bronha eunuca do Absoluto.

A praça de madrugada é vazia, ou cheia de vento, a criança volátil. Esse menino homeopático e solitário veio do norte pra brincar, de madrugada, nos quintais do subúrbio. No norte há grandes ciprestes; só pode haver grandes ciprestes. Porque é claro, é claro que o vento agita as copas dos grandes ciprestes.

 

Daniel Liberalino

Daniel Liberalino

Escritor, desenhista, músico e pesquisador.

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