BIBLIOBUNKER: Opúsculo humanitário, o pensamento de Nísia Floresta

Opúsculo humanitário

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Opúsculo humanitário

Autora: Nísia Floresta

Editora: Companhia das Letras/Penguin

Ano: 2024

Páginas: 213

Nísia Floresta, além de ser uma das figuras intelectuais mais relevantes nascidas no Rio Grande do Norte, abre espaço para uma importante questão de fundamento no que diz respeito à categoria “literatura potiguar”. Como bem já observou mais de uma vez o escritor e crítico literário Manoel Onofre Júnior, a definição do que seria “literatura potiguar” passa por delimitar o lugar de Nísia em nosso cânone.

Isso porque, ao contrário de figuras como Cascudo, Jorge Fernandes e Newton Navarro, Nísia viveu muito pouco tempo aqui no estado e, a despeito de ter marcado no seu pseudônimo o nome do sítio onde nasceu (“Floresta”), na antiga vila de Papary, produziu a maior parte de sua obra fora das fronteiras de nosso Rio Grande.

Dionísia Gonçalves Pinto (seu nome de batismo) foi, antes de mais nada, uma autora marcada por uma experiência profundamente cosmopolita. Viveu em Pernambuco, no Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro e morreu em Paris. Viajou pela Alemanha e pela Itália e travou contato com figuras referenciais da intelectualidade europeia no século XIX.

Para pensarmos no pioneirismo e na importância do seu trabalho intelectual temos que situá-la (ao contrário de Cascudo, Fernandes e Navarro) muito longe das fronteiras desta nossa província, cercada de sol, sal e sedimentos arenosos.

Daí surge a questão, já citada tantas vezes por Manoel Onofre: se ampliarmos o cânone para alcançar Nísia e escolhermos o local de nascimento para definir quem está dentro e quem está fora da chamada “literatura potiguar”, ganhamos uma das pensadoras mais importantes do Brasil, mas entregamos para os irmãos paraibanos Zila Mamede e, para os primos manauaras, Myriam Coeli, duas das mais importantes poetas da sua geração, que a despeito de não terem nascido aqui, viveram e produziram toda sua obra em nosso terreiro.

Escolha muito difícil de se fazer, vale salientar.

O fato é que, talvez, essa questão não faça tanta diferença assim fora do horizonte de nossas discussões teóricas sobre os estudos literários. Para a maioria dos leitores da obra de Nísia, talvez importe muito pouco essa discussão (a despeito de que, para mim, um escritor potiguar por nascimento e permanência, essa seja uma questão significativa).

No fim das contas se você é potiguar e só ouviu falar de Nísia Floresta por causa da cidade que fica situada a 40 km de Natal e que é conhecida pela suas lagoas paradisíacas, pelo seu delicioso camarão e pela ótima cachaça que leva o antigo nome da vila onde nossa autora nasceu, em 1810 (Papary); essa edição da Penguin/Companhia da Letras é uma ótima pedida para conhecer um pouco mais dessa figura incontornável do pensamento brasileiro.

Lançado em 1853, contendo uma coletânea de artigos críticos publicados de forma anônima no Diário do Rio de Janeiro e depois em O Liberal, o livro Opúsculo Humanitário apresenta uma tese central que perpassa boa parte de seus 62 artigos curtos: a de que o grau de civilização de um povo depende do modo como esse povo lida com a educação de suas mulheres.

Se você não é adepto desses cursos de “masculinidade” patrocinados por coachs que se auto intitulam (por motivos obviamente psicanalíticos) de “machos”, esta até pode parecer uma tese bastante óbvia, mas é sempre bom lembrar que, no Brasil do século XIX, essa mesma tese soava bastante disruptiva.

Inserido dentro de uma tradição de textos bem usual em seu tempo e que buscavam construir uma “história universal da cultura”, Nísia faz uma crítica (no sentido usado por Kant) das experiências de diversas civilizações antigas e nações modernas, a partir da sua tese central. Durante todo o percurso de sua escritura a gente consegue perceber de modo bem evidente as marcas da influência do esclarecimento alemão e do iluminismo francês, que impulsionava o espírito revolucionário daqueles anos.

Há também, por certo, a influência das ideias de Auguste Comte e de seu Curso de história geral da humanidade, ministrado entre 1851 e 1852 no Palais Cardinal, em Paris; mas também há a presença evidente das ideias de Rousseau, especialmente no seu livro Emílio, ou Da educação, particularmente na crítica incisiva que Nísia faz aos pressupostos pedagógicos de seu tempo, que abusavam do uso de castigos corporais como ferramenta didática.

Mas é bom ir logo avisando, minha querida amiga leitora, não vá entrar neste livro procurando encontrar Angela Davis ou Judith Butler. Nísia é, fundamentalmente, uma mulher do seu tempo e o seu pioneirismo não pode ser reduzido a partir de platitudes moralizantes, típicas dessa nossa época de redes sociais, em que a dialética foi esquecida e que a contradição, antes de ser o motor que move a história e impulsiona a consciência, passou a ser vista como um tipo contagioso de doença moral.

(Ah… como estamos platônicos!)

Nísia Floresta é antes de mais nada uma mulher católica do século XIX, marcada por uma visão eurocêntrica que faria corar o mais moderado ativista decolonial. Aliás, esse Opúsculo Humanitário deixa à mostra, para os padrões hermenêuticos de nossa era, muitas das ambiguidades que nos tornam inexoravelmente humanos e dão profundidade ao nosso pensamento.

A despeito de sua origem portuguesa e de seu nacionalismo (expresso no “Brasilera” que acompanha o “Floresta” na sua alcunha literária), Nísia deixa muito marcada nesta coletânea de artigos uma visão profundamente idealizada da Europa “germânica”. Talvez, quem sabe, influenciada pela leitura dos textos da Madame de Staël, sua crítica da cultura expõe uma idealização evidente de países como Inglaterra, França e Alemanha, o que ajuda a fazer coro com a tese (historicamente inconsistente) de que o atraso brasileiro se deveria a uma suposta “influência ibérica” da nossa colonização.  

Essa perspectiva germanófila se contradiz o tempo todo com a visão jesuítica, ibérica e profundamente católica, marcada provavelmente pela leitura de Bartolomeu de las Casas, da defesa dos povos originários. Nísia apresenta uma crítica implacável da violência, dos massacres e dos abusos sexuais cometidos contra mulheres indígenas, mas defende uma perspectiva cara à Companhia de Jesus (e também ao John Locke da “Carta sobre a Tolerância”) de que a conversão dos povos originários ao cristianismo deveria se dar pela palavra e não pela espada.

Do mesmo modo, Nísia crítica fortemente a degeneração moral que a escravidão produziu em nosso país (tanto para as pessoas escravizadas quanto das elites proprietárias) expressa no exemplo das “mães brancas” que tercerizam a criação dos filhos para mucamas que fazem parte “dessa infeliz raça desmoralizada pelo cativeiro” (SIC).

Ela escreve em um de seus artigos: “Entretanto, grande parte destes vê ainda sem repugnância seus filhos nos braços de desmoralizadas escravas ou por elas acompanhados, irem de uma a outra parte da habitação e fora dela. Quanta vez temos tido ocasião de ver e lamentar essas criaturazinhas, impregnadas já do hálito contagioso das más companhias(…)”.

A noção de que a escravidão desmoraliza mais o senhor do que o próprio escravizado, soa bastante racista para os padrões morais atuais e até mesmo quando a frase saí como um elogio ela aparece marcada pela visão racial do século XIX, como quando Nísia defende que mesmo “sob o invólucro grosseiro do preto bate muita vez um coração nobre”.

Para as novas gerações este talvez seja o dado mais desconcertante do texto. Como é possível tecer uma crítica tão contundente da escravidão e ao mesmo tempo manter passagens (no olhar de hoje) marcadas por um racismo evidente e por claros estereótipos raciais?  

Nestes tempos de cancelamento digital, em que a profundidade hermenêutica foi sacrificada no altar dos reacts de TickTock, passagens como essas no texto de Nísia são alvos fáceis.  

De qualquer modo, essas ambiguidades só demonstram a força do pensamento dessa mulher que precisa com muita urgência ser mais lida na província que, por acaso ou por providência, a viu nascer.

 Sim… antes que eu me esqueça, esta edição da Companhia das Letras com a Penguin traz também um prefácio introdutório da professora Stella Maris Scatena Franco e notas da professora Constância Lima Duarte, que também assina o bom resumo cronológico da vida de Nísia no final da edição. Uma boa dica de leitura para quem se interessa pelo pensamento brasileiro, pela cultura potiguar e quer saber mais sobre essa mulher que emprestou seu nome a uma das mais importantes cidades aqui desse nosso estado, espremido e escondido da autoconsciência nacional, na esquina do continente.

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Pablo Capistrano

Escritor, professor de Filosofia e Direito do IFRN. Dramaturgo do grupo Carmin de Teatro.

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