Nostra Philosophia Christiana: São Paulo, Santo Agostinho – das origens do pensamento cristão à Patrística Latina.
Autor: Antonio Patativa de Sales
Editora: Arribaçã
Ano: 2024
Páginas: 273
Quando o filósofo alemão Friedrich Nietzsche formulou sua crítica ao cristianismo, identificou de modo bastante exato a influência do pensamento de Platão na metafísica cristã.
A noção de que o cristianismo é um “platonismo para as massas” ajuda bastante a entender muitos dos conceitos que estão embutidos no imaginário cristão e que extraem sua vitalidade da filosofia platônica (com uma pitada de Aristóteles no tempero que São Tomás adicionou ao molho teológico medieval).
O próprio Harold Bloom (crítico literário norte americano de origem judaica) em seu livro “Jesus e Yahweh: nomes divinos”, seguiu a risca a intuição nietzscheana para aprofundar as marcas da diferença entre o “deus do antigo testamento” e o Jesus dos evangelhos canônicos e das epístolas paulinas. Se o primeiro é, tal qual Zeus, Thor e Baal, uma potência natural, vinculado à guerra, à tempestade, aos vulcões e ao relâmpago; o segundo é, antes de mais nada, um princípio cosmogônico platônico.
Se você se interessa por esses temas, que misturam filosofia, teologia e exegese literária de textos antigos, em uma análise técnica rigorosa, mas ainda sim, escrita de um modo claro e compreensível (o que infelizmente não parece ser a regra na tribo dos filósofos) uma boa dica é o livro de Antonio Patativa de Sales sobre a gênese primordial do que chamamos de “filosofia cristã”.
Desenvolvido em quatro capítulos (alguns inclusive já publicados em forma de artigo acadêmico), o texto do filósofo paraibano reconstrói o percurso que leva Santo Agostinho a “corrigir” a filosofia grega, usando como elemento norteador as epístolas paulinas. A desleitura agostiniana de Platão (para usar um conceito blooniano) é um passo fundamental na consolidação de uma filosofia cristã e se fundamenta, na leitura de Sales, a partir da união que Agostinho proporciona do neoplatonismo com a teologia extraída dos textos atribuídos a Paulo.
Neste sentido, este livro, publicado em Cajazeiras, no sertão paraibano, retoma, com rigor exegético e análise historiográfica criteriosa, a gênese de uma “filosofia cristã”, retrocedendo sua leitura até Melito, Bispo de Sardes, lá por volta do ano de 172 d.C (que inclusive é citado por Eusébio de Cesareia em sua História Eclesiástica); até chegar na obra do bispo de Hipona. A ideia de que o platonismo já seria um “cristianismo antes de Cristo”, aponta para um pesher (forma de exegese judaica) no qual textos mais recentes (as cartas de Paulo) são postos em retrospectiva para lançar luz sobre textos mais antigos (os diálogos de Platão).
Curiosamente esse tipo de “recuo hermenêutico” (para usar uma alusão futebolística) também é o mesmo que autores dos evangelhos canônicos laçam sobre o texto de Isaías, abrindo espaço para a velha treta entre judeus e cristãos acerca do sentido dos livros denominados de “proféticos”.
A ideia de que a filosofia grega seria uma praeparatio evangelica vai então nortear a desleitura que Santo Agostinho faz sobre a obra de Platão. Seguindo a trilha que o termo Logos desbrava, justo na abertura do evangelho de João (uma evidente paráfrase helenizante do inicío do Breshit judaico); Sales mostra a reconstrução do modo como o pensamento grego foi reinterpretado por Santo Agostinho e seus precursores. A equipe da patrística, a fim de armar sua jogada exegética, acaba por picotar passagens das epístolas paulinas, fazendo um lançamento certeiro a partir dos meias armadores da hermenêutica alexandrina e e por encaçapar o gol teológico (marcado de cabeça pelo centroavante Agostinho) que definiria a disputa pelo legado dos primeiros cristãos.
Obviamente, apontar para a centralidade do pensamento de Santo Agostinho na criação daquilo que chamamos de cristianismo não é nenhuma novidade. O bispo de Hipona foi um dos autores mais citados durante todo o período do medievo europeu e é uma figura quase onipresente até mesmo na Catena Aurea de São Tomás (a recolha de glosas dos quatro evangelhos canônicos, que o monge italiano fez no século XIII).
Chamado por muitos de “o último dos antigos e o primeiro dos medievais” Agostinho de Hipona também pode ser identificado como “o mais remoto dos modernos”, tendo em vista a influência que protagonizou sobre o pensamento de autores como Descartes ou sobre os adeptos da Reforma de Lutero e Calvino.
A despeito disso, o que o texto de Sales reconstroi de modo bastante criterioso e claro, é a maneira como essa reescritura agostiniana, feita sobre a obra de Platão a partir da lente de Plotino, foi “polida” pelos recortes exegéticos das cartas paulinas, de forma a fazer nascer um “neoplatonismo cristão”.
É muito interessante perceber o modo como esse neoplatonismo, temperado pela teologia paulina, colonizou e coloniza até hoje a mente de teólogos, quer sejam eles padres ou pastores, que leem a Bíblia a partir das lentes oferecidas pela obra do bispo de Hipona. Através da desleitura agostiniana, a sombra de Platão se projeta na exegese, mesmo daqueles que juram de pés juntos estarem aplicando o princípio luterano da sola scriptura (“somente a escritura”), ao afirmarem ser a Bíblia a única fonte, infalível, suprema e autoritativa, da doutrina cristã que dizem professar.
Essa é uma “contaminação platônica”, que Nietzsche já havia diagnosticado no século XIX. A questão é que o pensador alemão, autor do Assim Falava Zaratustra, a despeito de ser filho de pastor protestante, neto de pastor protestante, bisneto de pastor protestante em uma linhagem genealógica que remonta até a época de Lutero; ao se aprofundar na leitura do texto bíblico (provavelmente em grego) acabou por se tornar ateu (o que talvez seja indício de que tenha entendido melhor a Bíblia do que muita gente que se diz crente).
Esse movimento de Nietzsche acabou colocando-o em suspeição, por parte de muitos pensadores cristãos, que talvez não consigam enfrentar, sem choro e ranger de dentes, aquilo que Sales expõe em seu livro, a saber: que o pensador alemão provavelmente estava certo e que a doutrina que muitos cristão pensam estar apenas na Bíblia, só pode ser deglutida com o recheio da metafísica platônica, e digerida no sanduíche filosófico do neoplatonismo cristão .
No fim das contas, fiquei realmente muito bem impressionado com o trabalho de Sales, tanto pela clareza da exposição, quanto pelo rigor da pesquisa e pelo fato de demonstrar cabalmente, com a publicação desse livro, que nas “zonas tórridas da terra”, como nestes nossos sertões setentrionais, é possível se produzir e publicar trabalhos de alta qualidade filosófica, mesmo em editoras que se localizam “longe demais das capitais”.
Um alerta importante a ser feito ao leitor é que o livro tem muitas e extensas notas de rodapé, de modo que, se você é parte da metade da humanidade que prefere as notas no fim do livro, é bom ir logo se preparando. O bom é que essas notas, mesmo sendo muitas e extensas, são muito bem preparadas e trazem informações bastante pertinentes, não só para a compreensão como também para a ampliação do alcance do texto.
No mais fica essa dica para quem gosta de um bom texto de história da filosofia, acadêmico e rigoroso, mas também bastante claro e direto, que não deixa na gente aquela sensação de estar girando em círculos ao redor de um problema (como às vezes alguns textos de filosofia parecem faz).
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