PORTO FRANCO, de Francisco Rodrigues da Costa.

3 livros de autores potiguares e outras 2 dicas de leitura

PORTO FRANCO, de Francisco Rodrigues da Costa. Mossoró: Editora Sarau das Letras. 2017.

Trata-se da segunda edição refundida do primeiro livro do autor – “Saudades”, 2005 – com um novo e sugestivo título.

Memorialista experiente, Francisco Rodrigues da Costa (Chico de Neco Carteiro, como gosta de ser chamado) parte mais uma vez em busca do seu tempo de menino e adolescente na cidade de Areia Branca, a amada terra de nascença. Figuras do seu convívio e fatos, que o marcaram, revivem na prosa simples, despojada, boa de se ler.

Este livro vem se somar a cinco outros do mesmo autor, compondo uma das obras memorialísticas mais importantes já surgidas em solo potiguar, digna de alinhar-se junto a outras duas igualmente notáveis, do gênero: “Viva Getúlio – As Areias Brancas da Memória”, de Francisco Fausto Paula de Medeiros e “Rastros nas Areias Brancas”, de José Nicodemos.

CADERNO DE ESPANTOS SEGUIDO DE VATICÍNIOS NA LÍNGUA DO NÃO, de Nelson Patriota. Natal: 8 editora, 2019.

Reflexão, poesia, ficção, humor, tudo isto de forma fragmentária, numa linguagem sutil, plena de metáforas – eis, em suma, o conteúdo desse “caderno”, misto de diário íntimo e jornal literário. Um livro para se ler e reler.

Atente o leitor, de modo especial, para os vaticínios, presentes não só no espaço que lhes é dado, mas também dispersos em toda a obra. Veja-se, por exemplo:

“Deus e a solidão”: Se o universo é só uma matéria pedregosa e a vida, um privilégio da Terra, então Deus corre um grande risco de se tornar supérfluo se não se apressar a replicar a Terra, planeta agonizante, em outras partes do universo. De que valeria que Deus existisse num universo sem vida? Sua solidão seria de tal modo previsível e insuportável como nem um deus a suportaria”.

RADIOLA, de Damião Gomes. Mossoró: Editora Sarau das Letras, 2014.

Médico, escritor nas horas vagas, o autor reuniu nesse livro 40 crônicas de sua autoria sobre música popular brasileira, já publicadas na revista “Papangu”, exceto uma que saiu na Revista do Instituto Cultural do Oeste Potiguar.

O subtítulo dessa coletânea – “Conversa de Música” – deixa entrever o tom descontraído da prosa, que enleia o leitor em sua malha.

Trazendo revelações interessantes, começa por dizer da pouca importância da música potiguar no cenário nacional, ontem e hoje. A certa altura afirma: “Não se deve dissociar o desenvolvimento cultural da atividade e do poder econômico e, num Estado pequeno e pobre como o nosso, seria um milagre se tivesse surgido um João Gilberto, um Chico Buarque, um Milton Nascimento”.

Segundo Damião Nobre, o primeiro grande nome surgido no Rio Grande do Norte e com projeção nacional foi o Trio Irakitan. Cita e comenta, a seguir, outros intérpretes do mesmo nível: Ademilde Fonseca, a rainha do chorinho, Núbia Lafayete, “uma espécie de Nelson Gonçalves de saias”; Elino Julião, “o Luiz Gonzaga do Rio Grande do Norte”, e Leno “que foi o nosso representante da Jovem Guarda”.

No gênero brega – adianta o autor – “tivemos alguns cantores com bastante projeção, como Carlos André, Carlos Alexandre e Evaldo Freire e na modalidade da música dita romântica, Gilliard foi outro nome de sucesso”.

Entre parêntesis: Quando Damião Nobre escreveu essa crônica, duas cantoras potiguares, que vieram a ter sucesso além dos muros provincianos – Roberta Sá e Marina Elali – ainda se achavam no início da carreira.

Numerosos outros escritos, enfeixados na coletânea em foco, abordam múltiplos aspectos da MPB. Alguns destes, bastante curiosos (“Apelidos e Pseudônimos”, “Ilustres Desconhecidos”, “Listas”, etc. – conferem ao livro um certo ar de almanaque.

Leitura imperdível.

EU SOU TREZENTOS – MÁRIO DE ANDRADE: VIDA E OBRA, de Eduardo Jardim. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2015.

Uma biografia intelectual – é como se poderia definir este livro, que relata e explica as ideias e a arte poética do “Papa do Modernismo”, mas deixa de lado quase tudo de sua vida privada. Nenhuma revelação sobre o lado humano.

Alguns aspectos da obra andradiana, como, por exemplo, o conto, também passam em brancas nuvens. Prefere o biógrafo enfocar o poeta, o ensaísta, o pensador e o animador cultural.

Um bom trabalho, embora parcial.

A CORRENTE, de Stefan Zweig. Rio de Janeiro: Editora Delta, 1955.

Várias novelas, reunidas nesta coletânea, constituem momentos altos da obra ficcional de Stefan Zweig, escritor multifacetado, também grande em outros gêneros literários, como a biografia, o ensaio, a memorialística e a crônica.

“Confusão dos sentimentos”, integrante da coletânea, é uma obra-prima. Aspecto merecedor de especial atenção, nesta novela, a maneira como o autor aborda a temática homossexual. Sem preconceito e profundamente humano. É comovente a história do professor, já idoso, e seu jovem aluno, que se consomem numa paixão proibida. Imagine o impacto que esse livro deve ter causado quando do seu lançamento por volta dos anos 1930.

Para quem não sabe: o austríaco de origem judaica, Stefan Zweig (1881-1942) foi expulso do seu país pelos nazistas, em 1930, e terminou radicando-se no Brasil, onde viveu até morrer. Ele e a sua segunda esposa, alarmados com a perspectiva de vitória nazista, na segunda guerra mundial, cometeram suicídio.

Sobre o autor

Manoel Onofre Jr.

Desembargador aposentado, pesquisador e escritor. Autor de “Chão dos Simples”, “Ficcionistas Potiguares”, “Contistas Potiguares” e outros livros. Ocupa a cadeira nº 5 da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *