Certa vez ouvi o saudoso “André da Rabeca” (1942-2010) dizer sobre Natal, entre uma música e outra: “É um lugar de merda para viver, mas um bom lugar para ganhar a vida”. Várias fontes atribuem ao célebre maestro, compositor e cantor Tom Jobim (1927-1994), que tinha moradias nos EUA e no Brasil, a seguinte frase (com diferentes versões): “Viver nos Estados Unidos [ou: viver em Nova York; viver no exterior] é bom, mas é uma merda; viver no Brasil [ou: viver no Rio] é uma merda, mas é bom [outra versão: é uma maravilha]”. Ruy Castro, em ‘Ela é Carioca’ e em ‘Mau Humor’, cita a frase de Tom como “A diferença entre Nova York e o Rio é que lá é bom, mas é uma merda. Aqui é uma merda, mas é tão bom [versão de Hugo Gonçalves em ‘Postais dos Trópicos’: é muito bom]”. Extrapolada da citação original existe a frase “A Europa é boa, mas é uma merda; o Brasil é uma merda mas é bom”.
Essas frases talvez tenham alguma relação com estes versos de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), em ‘Explicação’:
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa./
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro/
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente./
(…)./
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,/
lê o seu jornal, mete a língua no governo,/
queixa-se da vida (a vida está tão cara) e no fim dá certo.
Quem já residiu no exterior, sem ser turista, sabe que a distância geográfica e cultural em relação à pátria (mesmo nos casos de dupla cidadania) faz com que inevitáveis comparações surjam frequentemente, e que a “saudade” (conceito que enganosamente dizem não ter equivalência noutras línguas) possa atuar como atenuante dos “distantes” problemas pátrios, tão eloquentes quando aqui estamos – com ou sem nosso “complexo de vira-lata”, assim definido pelo criador da expressão, o genial escritor Nelson Rodrigues (1912-1980):
“a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”.
Se o ufanista apregoa que “Deus é brasileiro” o sarcástico emenda: “mas mora na Flórida” – dizem que é vizinho do bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, no condomínio Porsche Tower em Miami, ou que moraria no luxuoso prédio Icon Brickell, nessa mesma cidade, onde Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF, tem um “apêzinho” [como Deus é onipresente, nada impede que more lá e cá…].
Renato Essenfelder, articulista da Folha de São Paulo, escreveu nesse jornal em 02/11/2020: “Nenhum lugar é bom-bom (mas suspeito que lugares ruins-ruins possam existir). O supremo bem a gente cultiva dentro da gente, ou então procura lá no céu, metafísico”. Recordo uma frase do meu tio Millôr: o Brasil continua sendo um excelente lugar onde construir um país. Aqui havemos de colher o que viermos a plantar, e não é no Potomac que vamos nos dessedentar.
