O ataque de Lampião à cidade de Mossoró, em junho de 1927, tem despertado interesse de numerosos pesquisadores e estudiosos do cangaço. Considera-se o referido fato como um dos momentos cruciais na trajetória do mais famoso dos cangaceiros.
Dois livros constituem-se em referências obrigatórias: “Lampião em Mossoró”, de Raimundo Nonato, e “A Marcha de Lampião”, de Raul Fernandes. São trabalhos importantes. O primeiro abriu caminho, por reunir, pioneiramente, copiosa documentação sobre o tema: depoimentos, transcrições de peças processuais e de notícias veiculadas pela imprensa à época, etc. O segundo livro vai além do simples documentário; é a narrativa do assalto à “Capital do Oeste”.
Ambas as obras, no entanto, têm alguns pontos vulneráveis. Dão ênfase à resistência dos mossoroenses, mas subestimam outros fatos, igualmente relevantes, ocorridos antes e depois. Além disto, “A Marcha de Lampião” é de autoria de um filho do chefe da resistência – o Presidente da Intendência de Mossoró, Coronel Rodolfo Fernandes, motivo pelo qual carece de isenção. Já “Lampião em Mossoró” é coleção de documentos, tão-só.
Urgia uma visão mais abrangente, mais aprofundada e isenta, capaz de revelar o verdadeiro painel histórico dos memoráveis acontecimentos.
Essa almejada revisão vem de concretizar-se com o livro “Lampião e o Rio Grande do Norte: A história da grande jornada”, de Sérgio Augusto de Souza Dantas.*
O magistrado e pesquisador potiguar esmiúça a longa jornada do famigerado bando, desde a entrada do mesmo em território norte-rio-grandense até o retorno ao Estado do Ceará, após o malogrado assalto a Mossoró. E o faz com paixão e método, valendo-se, em parte, das obras já mencionadas e de outras, porém trazendo valiosas achegas, frutos de sua pesquisa de campo. Mas – o que não é menos importante – apresenta enfoques novos e reveladores.
Simples reportagem – é como o próprio autor, modesto, define a sua obra. Na verdade, trata-se de vigorosa narrativa em que a linguagem e o estilo não se coadunam com a padronizada linguagem jornalística.
Em que pese a utilização, aqui e acolá, de vocábulos e expressões invulgares, o autor consegue prender a atenção do leitor até a última página.
Terminada a leitura, fica a certeza de que este livro nasce fadado a tornar-se um clássico da literatura sobre o cangaço no Rio Grande do Norte.
*“Lampião e o Rio Grande do Norte”. Natal: Cartgraf, 2005.
