TERRA ESTRANGEIRA: Shakespeare durante a chuva

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Londres – Inglaterra, 11 de Janeiro de 2018.  

Hoje pela manhã subimos a The Shard Tower, um complexo enorme de 79 andares que fica bem perto da London Bridge, do lado sul do Tâmisa. O objetivo era ter uma visão mais ampla da cidade e aquela construção gigante, que aparece em meio a um complexo de prédios futuristas de vidro e metal que se espalham pela margem do rio como se tivessem sido encaixados no meio da cidade por alguma intervenção alienígena ou por um desses algoritmos digitais que aparecem nos episódios de Black Mirror, nos pareceu ser o melhor lugar para ver, de cima, a capital do antigo império britânico.

O problema é que, quando a gente chegou lá em cima, a única imagem que a gente conseguia ver, ao tentar procurar qualquer coisa que se parecesse com um horizonte, era o famoso fog londrino. Um fenômeno particularmente interessante, especialmente para um potiguar acostumado às águas tropicais que caem sobre a Taba de Poty no tempo do São João.

Aquela névoa me soava como uma espécie de neblina de pingos leves, tão leves, que acabava por cobrir a cidade como se um sudário de fumaça úmida, tivesse desabado sobre um horizonte fracamente tocado pela luz solar. O curioso é que, na altura do asfalto, toda aquela massa de uma leveza pluviométrica desconcertante, é sentida, não como um tipo de chuva, mas como uma estranha bolha de umidade gelada que entra nos ossos e entope o nariz.

Mesmo com o clima ruim (o que parece ser uma constante tediosa na cidade) tem muita gente na rua. Para potiguares como nós, feitos de açúcar, e acostumados a repetir obsessivamente o mantra “hoje não vou porque está chovendo”; soa bastante inusitado esse número de pessoas no meio do passeio público, sob essa leve e estranha chuva fina; tão fina e fria, quanto absolutamente imanente, que flutua pela cidade parecendo molhar até os nossos órgãos mais confinados.

Mas é preciso anunciar isso para meus conterrâneos: “também há vida humana a céu aberto quando chove”. E em Londres, a vida humana é como qualquer vida humana em qualquer megalópole pós-moderna: rápida, intensa, apressada e plural.

Difícil não notar a quantidade de línguas que se escuta aqui no lado sul do rio. Dá até pra fazer um joguinho tentando descobrir a origem das pessoas pela prosódia da sua fala. Talvez o inglês, em algumas esquinas da cidade, fique até em segundo lugar, quem sabe… até o poruguês do Brasil, por exemplo, a gente ouve aqui e acolá com uma boa constância.

Inclusive o garçom do sushi bar que nos atendeu no Borough Market (o “novo” mercado, que substituiu, em 1276 – um dia desses para os padrões londrinos – o antigo mercado da London Bridge), que é mineiro e se chama Luiz, nos diz que hoje você não pode mais falar mal do vizinho em português porque, com certeza, vai ter um brasileiro por perto pra lhe caguetar.

A diáspora brasileira está crescendo com a nossa crise. Dá até para parafrasear a música do disco V do Legião Urbana (Teatro dos Vampiros) e dizer que voltamos a viver como há dez, vinte, trinta anos e que todos os nossos amigos estão procurando emprego em meio ao clima sombrio do Brasil desses anos.

 Aliás sombrio mesmo é o clima de Londres esses dias, com um “marrom chumbo” envolvendo a cidade. A propósito… marrom é o Tâmisa neste inverno, assim como marrom é a reconstrução do Globe Teather, que um dia foi de Shakespeare. Sim, estando no sul de Londres, do lado de lá do rio, não poderíamos deixar de dar uma esticada até Southwark para visitar o teatro do bardo de Stratford-upon-avon.

Na verdade trata-se de uma reconstrução do espaço que pertenceu ao autor de Hamlet e de Rei Lear. O ponto exato do antigo teatro, fechado por algum puritano mal amado no tempo da revolução gloriosa e hoje já demolido, fica na verdade a algumas quadras a leste da atual reconstrução; um local onde atualmente se encontra um pequeno condomínio de apartamentos.

O novo teatro do velho Shakespeare na verdade foi construído onde funcionava uma arena de terra batida na qual cães eram postos para atacar e despedaçar touros ou ursos acorrentados, para o deleite brutal dos “civilizados” servos da rainha.

Hoje, o espaço, que conta com uma ampla oferta de espetáculos o ano todo, dá uma ideia bem interessante de como seria a experiência de se assistir uma peça antes do chamado “palco italiano” tomar conta das salas de apresentação por todo mundo ocidental.

 No século XVI a vizinhança onde ficava o Globe não pertencia àquela Londres sofisticada do seriado The Crown. O espaço em que Shakespeare encenou suas peças fazia parte de uma periferia insalubre, onde viviam os membros das classes mais baixas e onde os trabalhadores londrinos costumavam se divertir enchendo a cara nos bordeis, apostando em rinhas de galo ou nas sangrentas lutas de cães. Em meio a todo esse conjunto popular de diversões proletárias, lá pelo meio da tarde, ainda dava tempo para uma esticada no teatro a fim de ser ver algum espetáculo de comédia burlesca na qual a nobreza era satirizada ou mesmo algum drama épico ou tragédia moderna, atualizando as formas clássicas, montados pela companhia na qual Shakespeare atuava, dirigia e assinava a dramaturgia.

Geralmente as apresentações ocorriam por volta das 14:00 e seguiam tarde a dentro para aproveitar a luz do dia. A forma do palco elisabetano favorecia a ação dinâmica da cena. Com duas portas laterais e uma grande porta dupla de madeira maciça bem no centro do palco, esse era um teatro que não tinha cortina. A sua disposição favorecia a movimentação e permitia que os atores atravessassem o palco de um lado para outro e entrassem em cena por vários lados (até pelo teto, pendurados em cordas), de maneira que não era necessário nenhum intervalo entre os atos, para a mudança do cenário. Aliás, a própria ideia de cenário parecia fazer pouco sentido naquele tipo de teatro, posto que as etapas dramatúrgicas, que comunicavam mudanças no contexto narrativo, eram pontuadas muito mais pelo figurino dos atores do que pelos objetos na cena.  

Visitando o lugar, agora reconstruído e com um pequeno museu interativo contando a sua história, pude imaginar que, pela proximidade da audiência (que assistia a peça em pé no terreno de barro batido), as peças deveriam ser muito barulhentas e a interação entre o público e os atores deveria ser uma regra constante, mesmo diante das plateias mais “abastadas” que compravam lugares altos nas cabines, nos frisos laterais e nas arquibancadas (que me lembraram muito as arquibancadas de circo).

Aliás, acho mesmo que a base arquitetônica do teatro tem muito a ver com o circo, mesmo que não tenha expertise técnica na arte teatral para sustentar essa afirmação. Há, no fim das contas, algo de transição naquele teatro. Uma passagem que parece vir do teatro medieval feito na rua, em cima de carroças, para um cenário interno, litúrgico e elitizado dos palcos burgueses do século XIX, com sua “quarta parede” e seus pedidos constantes de silêncio e concentração direcionados à plateia.

As revoluções burguesas transformaram o público em espectador e a vida em alegoria cênica. Esse é um fato curioso… o Shakespeare da “mundiça” londrina acabou se tornado o “centro do cânone” ocidental e passou a ser bem mais apreciado justamente nesse tipo de palco italiano que deu a suas obras um caráter que não parecia de nenhum modo combinar com aquele teatro popular, erguido em uma periferia lamacenta, em uma Londres que celebrava, com os requintes da sua bárbarie fundamental, o impulso de vida que os antigos Vikings costumavam a celebrar em seus festivais pagãos, regados a sexo, álcool e outras selvagerias.

Minha impressão, imaginando um Shakespeare sob aquela chuva fina de inverno, atuando ou dirigindo seus espetáculos em um espaço como aquele, é a da impermanência de todas as nossas formas estéticas e de tudo aquilo que a gente costuma a chamar de arte.  

Todo texto hoje canônico já foi um dia popular e toda arte já esteve, como nós estamos sempre, no trânsito, no entre, no quase, no meio, na travessia. A vida se descortina nessa brecha, em um globo, uma esfera cênica que nos cerca e nos envolve, nos apresentando um dilema permanente, sempre oscilante, entre o deleite confortável de apenas assistir e o impulso incontrolável, brutal e selvagem, de participar do espetáculo.


Crédito da Foto: Carla Costelini

Pablo Capistrano

Pablo Capistrano

Escritor, professor de Filosofia e Direito do IFRN. Dramaturgo do grupo Carmin de Teatro.

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