Paris – França, 10 de Fevereiro de 2018.
Depois que chegamos do hospital ontem com Sarah, saímos, eu e Ana, quase meia noite, para procurar uma farmácia aberta pelas ruas de Montmartre. Como era sábado, o dia internacional do agito noturno, a vizinhança do edifício em que estávamos na Rue Victor Massé, 13, fervia com uma badalação que faria qualquer natalense afeito às atividades boêmias, chorar de emoção.
Bares, pubs, restaurantes, teatros, sex shops e ambientes com jeito de bordeis baratos (como um lugar com o curioso nome de Dirty Dick), sempre cheios de gente, se espalham pelas ruas ao redor do nosso hotel.
Essa área da cidade, onde nos encontramos agora, lá por volta do século XIX, naquelas noites em que Baudelaire, Rimbaud e Paul Verlaine caminhavam sobre a terra, era famosíssima pelos seus cabarés e pelas apresentações de can can, que rolavam soltas nos teatros da vizinhança. Inclusive, bem em frente ao prédio onde fica a nossa hospedagem, no número 12 da mesma rua, ficava o primeiro endereço do Le Chat Noir, inferninho parisiense frequentado por Toulouse Lautrec, que sempre baixava por essas bandas transitando pelos becos daquela Montmartre de fim de século, em busca de personagens para suas pinturas.
De fato, o espírito daquela zona de Paris me pareceu bem mais quente, diverso e efusivo do que a de outras capitais europeias que já pude frequentar. Mesmo a musical Praga ou a imponente Viena, me pareceram bem mais “frias”. Até a quente Lisboa (para os padrões aqui do norte global) me soou mais sóbria, quase fúnebre. Já a sofisticada Londres, se apresentou para nós, transeuntes desse mundo globalizado, egressos da Taba de Poty, bem mais fleumática do que a capital francesa, que ousa rimar a exuberância de uma arqueologia arquitetônica moderna, com um certo “joie de vivre”, que me fez lembrar o “amundiçamento” latino que captei nas ruas de Nápoles, no finalzinho do século passado.
Um outro detalhe curioso é que aqui os casais se beijam, se abraçam e se tocam em público. Coisa que não me pareceu muito comum em outras capitais que visitei neste velho mundo. Guardada as devidas proporções momescas, embriaguez, amor e sexo parecem dar o tom nesse feriado, comemorado em meio à neve que derrete pelas calçadas de Montmartre. Algo, diga-se de passagem, que me faz ter uma boa nostalgia dos carnavais que passei em Salvador.
Mesmo o frio sendo de rachar (usar uma expressão bem clichê), já que havia perdido dois dias de nossa viagem (uma em função do voo e outra para ficar no hotel com Sarah doente) sai hoje pela manhã, com Helena e Uriel, enquanto Ana ficou cuidando da nossa caçula.
Como não poderia deixar de ser, após uma passada para visitar a icônica catedral de Notre Dame e levar Helena para ver os primeiros cinescópios lumierianos no museu da Cinemateca de Paris, fomos bater perna pelo Quartier Latin, onde ficam alguns dos prédios da Sorbonne e a livraria Shakespeare and Company.
Se você acompanha esses meus itinerários de viagem há algum tempo, amigo velho, já deve saber que essa é uma das minhas peregrinações religiosas favoritas: buscar livros em sebos ou em livrarias de bairro, bem longe de shoppings ou de grandes lojas de departamento.
Talvez, quem sabe um dia, as gerações de humanos do futuro, desconhecidos da velha arte de flanar por entre prateleiras de uma livraria ou de um sebo, retenham, ao ler essas minhas crônicas, um pouco do espanto e do prazer libertador de se deparar com um título desconhecido, em meio a estantes lotadas de edições, novas ou antigas. Reter a memória do mundo analógico… talvez seja essa uma função nobre das pessoas que, como eu, nasceram no século passado e viveram a transição para esse “admirável” novo mundo digital.
O fato é que a Shakespeare and Company não é uma livraria monumental, como a Ateneu da Recoleta, em Buenos Aires, nem um relicário estético da belle époque como a livraria Lello, do Porto. Ela é uma livraria pequena e com um ar bastante rústico, mas que, em função de sua história, atrai visitantes do mundo inteiro.
Por entre aquelas estantes, costumava a circular uma boa parte da intelectualidade anglófona de Paris durante o período do entre guerras. Hemingway, Henry Miller e George Orwell eram figurinhas carimbadas naquele espaço.
Para mim, a despeito da liturgia histórica de estar num lugar onde parte de minhas referências intelectuais transitou, visitar a Shakespeare and Co. não foi lá uma experiência muito tranquila, tal a quantidade de turistas se acotovelando pelos corredores da livraria, que de tão pequena, parecia padecer do mesmo tipo de congestionamento humano que a famosa feira do Alecrim (lá na minha Taba de Poty) apresentava nos sábados da minha infância.
O fato é que a turistada modinha ficou zanzando pra lá e pra cá, meio a esmo, sem saber bem o que estava fazendo por ali, enquanto os vendedores, estressados, atendendo em inglês, repetiam o tempo todo pros vagantes daquelas prateleiras que era proibido tirar fotos.
O melancólico de se ir a livrarias que se tornam pontos turísticos é que se perde o sentido fundamental daquele tipo de território. Isso também acontece com as igrejas deste velho mundo, que a cada dia se parecem mais e mais com museus. Esse é um detalhe que me soou bastante evidente nesta desconstrutivista Europa pós-moderna, de Deleuze e Derrida, em que o deus cristão morreu e se esqueceu de ressuscitar.
O que pensariam, por exemplo, os expoentes da escolástica medieval, que orbitavam ao redor da universidade de Paris na baixa Idade Média, se voltassem à vida hoje e vissem aquela multidão de turistas barulhentos circulando ao redor de um cordão de isolamento que separa a nave central da Catedral de Notre Dame com seus “paus de selfie”, transformando aquele lugar sagrado em paisagem para o instagram?
Tudo isso acontecendo enquanto uma voz gravada ecoa pelo interior da construção, anunciando para a turba ruidosa que se movia lentamente por entre pinturas, vitrais e peças sacras, que o espaço central da Catedral era reservado aos fiéis católicos que pretendiam assistir, “em silêncio”, a missa que iria ocorrer em breve.
Algo muito semelhante ao que senti ao ver os livreiros da Shakespeare and Co. estressados, tentando fazer com que os turistas olhassem para os livros nas estantes sem a mediação de seus aparelhos celulares.
Para mim, essas duas experiências estão intimamente ligadas por uma estranha tessitura virtual. O cenário da vida é digital e as narrativas de nossas viagens estão cada vez mais postas a serviço do olhar do outro. Por isso, quando viajo, não gosto muito de tirar fotos e prefiro fazer esses diários que transformo em crônicas. Busco a minha linguagem como mediadora do meu mundo, não o meu celular. Talvez eu seja membro de uma espécie em extinção, não é?
No fim das contas, voltei à noite para o hotel com a impressão nítida de que a experiência analógica da presença parece estar com seus dias contatos nesse mundo cada vez mais virtual. Quer seja na religião das igrejas ou na religião das livrarias, o deus que nos acompanha não habita mais a temporalidade das coisas, ele está lá, transcendente em meio aos códigos e aos algoritmos, doente de eternidade.
O futuro parece que já chegou por aqui. Hoje, nesta Europa da segunda década do século XXI, igrejas e livrarias já se transformaram em museus e o deus cristão, que caiu na carne para sofrer, como nós, simples mortais, os efeitos do tempo, virou só mais um perfil nas redes sociais para caçar cliques de quem ainda pensa que acredita nele.
