TERRA ESTRANGEIRA: Aqui se toca a moda brasileira

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Lisboa – Portugal, 31 de Dezembro de 2016.

Ontem, no penúltimo dia do ano, dez anos após a nossa primeira estadia em Portugal, voltamos à corte para passar o inverno. Não foi uma viagem fácil. Foram quase 24 horas em trânsito. Saímos do aeroporto de São Gonçalo para o de Recife para ter, já no começo de nossa jornada, um aborrecimento com a companhia área que nos levaria até Lisboa.  Além de ter sido difícil achar o guichê da Air Cabo Verde, não conseguimos obter nenhuma informação sobre o motivo do atraso no voo. Tivemos de passar a madrugada toda no aeroporto dos Guararapes esperando para pegar o avião que nos levaria até Praia (capital cabo-verdiana) e de lá até Portugal.

Essa seria uma opção mais barata já que, dessa vez, nossa estadia na terrinha iria ser mais longa em função de um estágio de pós doutoramento em filosofia contemporânea que iria começar na Universidade do Minho, em Braga.

A despeito dos aborrecimentos da viagem, um ponto positivo foi o fato de que acabamos por pisar, pela primeira vez, no continente africano.

Sim, era uma ilha e foi apenas umas duas horas de espera num salão de embarque minúsculo, lotado de gente e com as crianças exaustas, mas, mesmo assim, era a África. A terra que se espalha do outro lado do Atlântico e de onde uma parte essencial da alma brasileira foi transladada… e ainda tinha o fato de que nós, mesmo no meio do Atlântico, estávamos mais perto de Natal do que se tivéssemos descido no aeroporto de Porto Alegre, por exemplo.

Após o avião deixar a África em direção à Lisboa, Uriel (meu filho mais velho de 20 anos) tentou puxar conversa com um cabo-verdiano sentado na cadeira ao lado. Não funcionou bem, porque Uriel não entendeu quase nada do que o sujeito falava. Ficamos na dúvida se era por causa do sotaque ou se ele estava falando creole, um dialeto insular que ficou famoso nas canções de Cesária Évora. Aliás, uma das coisas mais legais de todo trajeto na briosa Air Cabo Verde, foi termos aterrissado em Lisboa, enquanto se tocava, nos autofalantes da aeronave, as músicas de Sarah Tavares, uma portuguesa de ascendência cabo-verdiana que fez nossa chegada à Portugal mais colorida e diversa.

Assim como no Brasil, Lisboa também guarda um pedaço da África. Uma África que também fala português e que está marcada, no imaginário lusitano, como uma presença ainda recente de um velho e mitológico passado colonial que teria sido responsável pelo momento mais glorioso da nação de Camões.

Essa Lisboa, que um dia foi a capital desse império colonial, hoje é uma das cidades que faz parte do Hype turístico da União Europeia (que é uma mistura de condomínio fechado com museu a céu aberto da tal “civilização ocidental”). Em função da virada de ano a cidade está superlotada, como comentou o taxista que nos trouxe do aeroporto até o Hotel Amazônia, localizado nas proximidades da praça Marques de Pombal.

“Tem turista de todo lugar do mundo” – disse o taxista – “toda gente quer vir à Lisboa” – emendou com uma autoestima que faria inveja aos pernambucanos –  “Até a Madona, a cantora americana, está a morar na cidade”.

Parece que a chegada de Madona à Lisboa ressuscitou o orgulho lusitano e dava para perceber, já pela conversa do taxista, que o país vivia um outro clima, depois de terem comido o pão que o FMI amassou com a crise de 2008. “Cá em Lisboa é quentinho e tranquilo. Não se tem terrorismo”. – concluiu a conversa enquanto me ajudava a desembarcar as malas na frente do hotel, que tinha, no lobby de entrada, um imenso quadro com um mapa da região norte do Brasil.

Hoje, já recuperados da odisseia da nossa travessia atlântica com a Air Cabo Verde, nos encontramos com Arlindo Ricarte e Jeane Miranda, um casal de amigos que está morando em Portugal há mais tempo e que veio pra Lisboa passar o reveillon com a gente. Arlindo é meu colega de IFRN e está fazendo doutorado em Guimarães, norte de Portugal, em um outro campus da mesma universidade (UMINHO) em que eu vou fazer minha pesquisa. Ele é da área de engenharia e, talvez em função de também ser músico, se dedica a estudar algo (para minha mente “de humanas”) bastante complexo acerca da misteriosa geometria acústica do som.

Depois de descer à tarde até o Cais do Sodré, nas margens frias do rio Tejo, lá perto do ponto onde os navios se abasteciam para empreender as travessias marítimas que tanto orgulham as gentes da terrinha, passamos em um supermercado chamado “Pingo doce” pra comprar vinhos e queijos que iriamos levar até a casa de uns amigos portugueses.

Teríamos de pegar uma balsa e atravessar o Tejo em direção à Cacilhas, uma zona portuária com ares de cidade colonial brasileira que fica na margem esquerda do rio.

Quando a gente desembarcou da balsa a temperatura já havia caído bastante e começamos a perceber, meio aterrorizados, que não estávamos trajados de modo correto para segurar a onda do “ameno” inverno lusitano. Ainda bem que o plano não era ficar na rua, mas sim na casa de uma simpática senhora idosa portuguesa, que gentilmente abriu suas portas para que pudéssemos comer, beber e nos abrigar do frio de quatro graus.

No pequeno apartamento, localizado no primeiro andar de um prédio com uma arquitetura do tempo em que Don João VI pegava sol na enseada de Botafogo, estavam, além da senhorinha que vivia sozinha no lugar, mais alguns outros convidados. Uma moça que estudava direito na Universidade Clássica de Lisboa, sua mãe e sua tia (irmã gêmea da mãe); um escocês de barba ruiva que já tinha assistido um show de Belle & Sebastian e um casal de idosos portugueses que já haviam passado uma temporada em Pipa.

Enquanto Arlindo, para o deleite da nossa anfitriã (que era fã de música brasileira) tocava no violão suas composições, junto a ótimas versões das músicas de Paulinho Pedra Azul, Xangai e Zé Ramalho, pude descobrir algumas coisas interessantes.

A moça, estudante de direito, estava muito preocupada com “a violência nas favelas brasileiras” e ficava espantada com o desrespeito aos direitos humanos por parte da polícia carioca. A mãe dela, por sua vez, dizia que Carlos Drummond de Andrade era tão bom quanto Fernando Pessoa, e que se não fosse pelo Brasil, ninguém mais estudaria a língua portuguesa na Europa (a não ser os portugueses, por suposto).

Já o escocês de barba ruiva se entretia mexendo na coleção de vinis de jazz, fado e MPB que ficavam em uma estante próxima da porta da sala, enquanto  a dona da casa, vez ou outra, ia ao telefone implorar para que suas filhas viessem passar o ano novo conosco: “Venham! Venham! Cá se toca a moda brasileira”.

Antes que a gente pudesse ter um desfecho definitivo desse pequeno drama familiar, chegou a notícia de que precisaríamos correr até o cais de Cacilhas para ver os fogos de Lisboa porque o ano novo estava para romper.

Foi uma carreira grande pelas ladeiras íngremes e escorregadias do lugar, num frio de rachar osso (para os padrões potiguares). Apesar da pressa, quase que a gente perdia o começo do fogueteio porque, pouco antes de chegar ao ponto de visada dos fogos, um sujeito, visivelmente embriagado e com lágrimas nos olhos, atravessou nosso caminho e abraçou Sarah (minha filha mais nova de dez anos). Ana se assombrou achando que fosse um sequestro, mas o sujeito chorava e dizia “Amália! Amália!” enquanto entregava para Sarah e para João (filho dos nossos amigos Jeane e Arlindo) dois balões de gás hélio.

Ana, meio constrangida se desviou do sujeito e continuou o percurso, enquanto ele se despedia, entusiasmado pelo poder do vinho, da pequena Sarah (agora com um balão nas mãos e com um codinome mais lusitano). Deu para ouvi-lo ainda um bom tempo falando alto e dando adeus em meio ao furdunço da pequena multidão de transeuntes: “Amália! Amália!”.

Quando os fogos explodiram, do outro lado do rio, e o ano novo despontou no zênite da cúpula celeste, a gente pôde ver o Tejo se iluminar por entre as sombras de barcos atracados no pequeno porto que ficava diante de nós. A despeito da beleza da cena e da grande euforia que tomou conta de todos, retornamos rapidamente ao apartamento de nossa anfitriã lusitana, empurrados pelo frio da madrugada.

Ao voltar, pude conversar um pouco com o casal de idosos, que já haviam inclusive feito o passeio de barco pela baia dos golfinhos em Pipa. Descobri que eles eram membros do partido comunista português. O senhor me informou que desde os 13 anos militava clandestinamente no PCP e que tinha sido torturado pela PIDE, nos tempos de Salazar. Além de Pipa, eles já tinham ido à Cuba pelo menos três vezes e, apesar da idade avançada, ainda participavam de algumas atividades partidárias.

Fiquei animado quando soube que o último congresso do “partidão” lusitano havia sido “bem cheio” e que uma inédita frente de esquerda se formou em Portugal para combater as políticas neoliberais de austeridade que devastaram a sociedade lusitana nos últimos anos, causando, inclusive, uma onda de suicídios no país. O que mais me espantou naquele casal de idosos, foi a sensação de que eles, a despeito da idade avançada, ainda mantinham aquela confiança esperançosa no sentido da história que alimentava gerações e gerações de comunistas no século XX.

Para os dois as coisas caminhavam bem, posto que o pior da crise já havia passado e que, apesar do desemprego estrutural e inerente ao capitalismo europeu, o amanhã seria melhor.

Antes de nos despedirmos para sair nas carreiras pelas ruas geladas da madrugada de Cacilhas e pegar a última balsa que nos levaria de volta à Lisboa, tive de dar, àquele simpático casal de idosos, notícias da política no Brasil. Falei sobre 2013, sobre as eleições, sobre como a direita havia costurado um golpe contra Dilma Roussef e sobre como as conquistas sociais que a esquerda trabalhista havia acumulado durante os governos do PT estavam sendo desmontadas pelo governo de Temer.

Minha cara de desânimo não escondeu o cenário sombrio que se apresenta do, agora, lado de lá do Atlântico. “Tem até gente que pede o retorno da ditadura militar” – conclui meu relato em um misto de constrangimento, vergonha e desespero.

O velho comunista me olhou sem deixar de esconder algum traço de comoção e disse em tom de consolo, para que eu pudesse carregar uma última informação antes de nos despedirmos: “Tem-se esse tipo de pessoa cá em Portugal. Mas são poucos”.

Não sei se foi o efeito do vinho, do frio da madrugada ou do balançar suave da balsa que nos levava de volta ao rumo do Hotel Amazônia, mas o fato é que, enquanto via a sombra de Cacilhas desaparecer no azul da madrugada do primeiro dia de 2017, tive mais uma vez nessa vida passageira, uma vontade grande de não voltar para o Brasil.

Pablo Capistrano

Pablo Capistrano

Escritor, professor de Filosofia e Direito do IFRN. Dramaturgo do grupo Carmin de Teatro.

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